Como falar mais línguas estimula a mente

Saiamos do estresse, alvo do post da sexta passada.

Voltemos ao estímulo do cérebro.

Faz algum tempo fiz um post aqui no blog sobre como culturas poliglotas têm uma vantagem sobre culturas em que se fala apenas um idioma (como no Brasil) por conta dos estímulos extras que os seus cérebros recebem (veja aqui)

Foi um post mais empírico, mais feito sobre constatações e conclusões óbvias. Ele carecia de uma base mais científica – que complemento aqui.

Apenas para reforçar: aprender um novo idioma é o mesmo que aprender a tocar um novo instrumento ou se habituar a viajar por culturas absolutamente distintas das nossas. São “exercícios mentais” fabuloso, oportunidades de nos lançarmos em uma zona completa de desconforto que é, por definição, o berço da criatividade.

Veja este vídeo abaixo que aborda o assunto de maneira mais aprofundada:

 

Quais os idiomas mais falados no Brasil?

Exclua o português como possível resposta para a pergunta-título deste post.

Se perguntarmos a qualquer pessoa qual o segundo idioma mais presente em nosso país, é provável que a imensa maioria responda “inglês” ou “espanhol”.

Mas sabe de uma coisa? Nenhum dos dois é o segundo idioma mais falado do país – em nenhuma das nossas regiões.

Na maior parte, aliás, a imigração pós-colonial acabou dando um embasamento cultural diferente para cada um dos estados. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o alemão é predominante; em São Paulo, é o italiano; no Pará, japonês; na Bahia, árabe; em Goiás, coreano e chinês.

Basta olhar para o mapa abaixo para entender o quão diverso o Brasil é. Claro: a presença de um determinado idioma nunca se faz apenas na forma de falar. Idiomas carregam contagiantes bagagens culturais e formas de se enxergar e lidar com o mundo.

Sob esse aspecto, um mapa como esse, abaixo, pode ser chave para saber como lidar com mais precisão com muitos dos povos do nosso país.

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A riqueza da confusão de idiomas e a pobreza do Brasil monolinguístico

Se você estivesse caminhando pela Europa medieval, certamente teria dificuldades absurdas em se comunicar: a cada punhado de quilômetros, afinal, se depararia com povos falando idiomas tão diferentes que a tarefa de entendê-los, por natureza, seria quase impossível.

Não conseguir se comunicar é ruim – obviamente. Mas isso não significa que um mundo com apenas um idioma seria melhor.

Explico: idiomas, por natureza, são o resultado de toda uma mescla que bagagens culturais de um povo. Para ficar em três exemplos claros:

  1. Quase todo o árabe tradicional se flexiona com base em gênero. Em uma sociedade em que a diferença de sexos é tão importante, seria de se esperar que frases inteiras de sua gramática refletisse esses valores culturais.
  2. O inglês, por outro lado, é essencialmente simples, direto. São pouquíssimas as “burocracias linguísticas” existentes, o que acabou fazendo com que o idioma se tornasse o mais próximo de uma língua universal que temos no mundo. Isso também reflete as características do próprio povo que, dentre outras coisas, foi responsável pela Revolução Industrial, massificando a produção e revolucionando o conceito de oferta e demanda.
  3. E o português? Somos um dos idiomas mais complexos que existe, com um mar de regras por vezes contraditórias que faz da tarefa de dominar a língua algo quase hercúleo. Reflexo também, diga-se de passagem, de um povo que até hoje vive de acordo com legislações confusas, cartoriais e burocráticas ao nível do ridículo. Não fosse o tamanho da população brasileira, aliás, o idioma inteiro possivelmente estaria quase morto.

E até onde quero chegar com isso?

Simples: independentemente dos pontos fortes e fracos de qualquer que seja o idioma, o fato deles representarem culturas inteiras permite a consolidação de um caldo caótico perfeito para se inovar.

Em geral, ambientes que facilitam o convívio de diferentes culturas acabam gerando, naturalmente, situações de troca de experiência entre povos. E essa troca de experiências, por sua vez, se traduz em enriquecer todo status quo mental com doses perfeitas de disrupção, inspirando novas ideias que dependem desses “momentos eureka”.

Quem leva a melhor com isso? A resposta é óbvia: países que se esforçaram para absorver culturas diferentes de qualquer que seja a maneira. Caminhe pelas ruas de Nova York ou de Londres e, em segundos, você passará por vozes ecoadas em inglês, francês, espanhol, alemão, português, árabe, japonês, chinês e outros idiomas.

Há troca nesses ambientes. Trocas de culturas, de linhas de pensamentos, de conceitos e preconceitos, de visões de mundo.

Em cada troca, há experiências sendo sedimentadas e intelectos sendo desenvolvidos.

Há, portanto, inovação nascendo a partir do caos linguístico dos países que são o centro do mundo.

Olhe agora para o Brasil. Mesmo se você sair às ruas turísticas da nossa principal metrópole, São Paulo, dificilmente encontrará mais do que 2 ou 3 idiomas. Aqui, impera, absoluto, o português. Aqui, até mesmo a presença de estrangeiros em nossas empresas é muito, muito menor que nos casos dos outros países. Somos um mundo inteiro em um país e, portanto, acabamos nos isolando dos elementos inoperacionais que giram livres por outros países.

O nosso isolamento linguístico é uma das nossas maiores barreiras para a inovação.

 

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