[Algoritmos & Robôs: Os novos públicos-alvo das marcas] Da qualidade para a quantidade: os millennials e a morte de Tolstoi

Traçando um raciocínio lógico e simples: apenas um gênio consegue escrever algo tão profundo quanto Guerra e Paz – mas qualquer um consegue escrever um tweet.

Não que conteúdo sofisticado precise, necessariamente, de centenas de páginas para ser exposto: qualidade não é dependente de quantidade.

O ponto é outro.

Na sociedade atual, há tanto volume de conteúdo disponível em tantos formatos – destacando, obviamente, as redes sociais – que a predisposição em se aprofundar em um único e determinado tema pode ser considerada quase como uma anomalia.

Mas em que momento da humanidade isso aconteceu? Em que ponto exato a abundância de informação fez com que as pessoas optassem por “menos de mais” ao invés de “mais de menos”?

É difícil (ou impossível) apontar um momento no tempo em que as pessoas subitamente mudaram suas opiniões em relação à maneira com que consumiam conteúdo. Como toda mudança, esta foi fruto de um processo longo, resultado de pequenas revoluções de pensamento se acumulando desde que Gutenberg criou a prensa móvel. Mas há, claro, uma forma prática de se dividir os modelos mentais humanos para melhor entendê-los: observando os cortes de gerações que se criaram sob a influência de um determinado contexto sócio-político-cultural.

A geração nascida entre as décadas de 25 e 46, por exemplo, recebeu a alcunha de “geração silenciosa”, definida principalmente por rígidos padrões morais e por um estado de sofrimento constante devido às duas grandes guerras; os nascidos entre 46 e 64 foram chamados de “baby-boomers”, principalmente por conta da volta dos veteranos americanos da segunda guerra e do momento de prosperidade social (e gestacional) resultante; a geração X foi a próxima, nascida entre 65 e 79 e caracterizada pelo apreço ao trabalho duro e hierarquizado que garantia o crescimento profissional; e assim por diante.

Como todos esses termos foram cunhados com base na sociedade americana, é mais do que óbvio que muitas das suas características não se encaixassem perfeitamente na realidade brasileira (ou estrangeira de maneira geral) dos mesmos períodos.

Ainda assim, essas nomenclaturas se padronizaram como maneiras de interpretar comportamentos comuns. Além disso, o nível de globalização atual é tamanho que, ao menos para as novas gerações, a identificação cultural é muito maior do que qualquer diferença meramente geográfica.

Isso nos leva à geração mais estudada em todo o mundo – e que mais está protagonizando as mudanças dos nossos tempos: os millennials (nascidos entre 1980 e 1999).

Antes de prosseguir, portanto, é imperativo entender algumas de suas características mais marcantes[1]:

Pseudo-multitarefa

Até pouco tempo, acreditava-se que os millennials pensavam e agiam de maneira multitarefa. Esse mito caiu por terra com novos estudos que apontaram que, em realidade, eles tem uma capacidade tão forte de mudar subitamente a tarefa foco que há a “impressão de simultaneidade”. Ainda assim, trata-se de uma característica importantíssima: hoje, dedica-se menos tempo na execução de um maior número de tarefas.

Egocentrismo

O culto ao próprio ego é fator determinante no comportamento de millennials. Também até pouco tempo, as novas gerações eram tidas como mais altruístas e preocupadas com as grandes questões da humanidade. A preocupação em si até pode existir – mas não por puro altruísmo. O culto ao próprio ego é um fator determinante na personalidade dos millennials: 75% tem perfis ativos em redes sociais, 20% postam vídeos deles próprios constantemente, 38% tem de uma a seis tatuagens e 23% tem algum piercing em algum lugar diferente da orelha. O que isso diz? Que chamar a atenção do mundo para si é importante.

Informação instantânea

65% dos millennials se informam pela TV e 59% pela Internet. Isso até pode parecer um choque – mas há que se reinterpretar a divisão de meios.

Para esse público, a TV é algo ainda aquém de meia dúzia de canais abertos: ela é tão somente um hardware grande e cômodo por onde se pode escolher o conteúdo a ser consumido. A fonte do conteúdo? Para um número cada vez maior de pessoas, a própria Internet, via aplicativos como Netflix ou Youtube.

Hoje, a TV é a Internet.

Educação

Dentre todas as gerações passadas, os millennials serão certamente a mais “formalmente” educada. Nos EUA, o índice de formação escolar de segundo grau (high school) está em 72% – o patamar mais alto em duas décadas. Destes, 68% se matricularam em faculdades – outro número recorde.

Estudar é uma constante para este público principalmente por conta das possibilidades abertas na Era da Informação. Entra em cena o conceito de multitarefa novamente: 31% dos estudantes americanos do ensino superior estão fazendo outros cursos online em paralelo.

Empreendedorismo

Um público com grande acesso a educação e autoestima tão elevada dificilmente encontra satisfação como funcionário, seja no setor privado ou público. Ao contrário: pensa-se sempre que se sabe mais que os demais e que qualquer tomada de decisão própria será sempre mais acertada do que uma decisão de terceiros (quem quer que sejam).

O resultado: nunca se viu tantas novas empresas sendo abertas no mundo. Pesquisas, aliás, apontam que algo entre metade a dois terços dos millennials se dizem interessados em montar os seus próprios negócios.

E as próximas gerações?

A Geração Z – nascida depois do ano 2000 – tende a seguir as mesmas tendências dos millennials na medida em que a informação e a educação vão sendo mais e mais abundantes. Ou seja: deve-se esperar mais egocentrismo, mais empreendedorismo e mais pensamentos orientados à multitarefa.

O que isso tudo significa?

Entender millennials e a Geração Z vai além de estudar um perfil demográfico: significa entender os rumos da humanidade como um todo.

Acompanhe o seguinte raciocínio:

  • Com o passar do tempo, mais e mais conteúdos vão sendo disponibilizados pelos mais diversos meios, de livros tradicionais à já onipresente Internet.
  • Com tanto conteúdo disponível em tantos locais, as pessoas acabam elegendo o ambiente mais “cômodo” como fonte primária. E o ambiente mais cômodo, claro, é o que permitirá que elas se informem e propaguem a informação de maneira mais prática, ágil. Hoje, inclusive, 88% dos millennials dizem se informar sobre o mundo no Facebook[2].
  • No afã de buscar a atenção dos seus pares e de serem reconhecidos como formadores de opinião, os mesmos millennials que se informaram pelas redes sociais correm para propagar uma determinada notícia, deixando a checagem sobre a sua veracidade em um distante segundo plano. É mais importante ser o primeiro a falar do que falar algo que não seja necessariamente a verdade.

Esse raciocínio é fundamental por apontar para uma mudança no próprio modelo de formação de opinião: hoje, quantidade é mais importante do que qualidade.

Voltando ao começo deste capítulo: a era em que obras densas e extensas como Guerra e Paz, de Tolstoi, foram a base para toda uma mudança social, já se foi.

Tolstoi leva tempo demais para ser lido e, consequentemente, propagado.

Tolstoi saiu de moda.

Seu lugar foi ocupado por toda uma série de personalidades que, por meio de seus perfis sociais ou canais no Youtube, usam uma espécie de extremismo ideológico comprimido em pequenas pílulas de conteúdo – fáceis de engolir e mais fáceis ainda de compartilhar – para alcançar um público maior do que o escritor russo jamais sonhou que poderia existir.

Os segredos dessas personalidades?

  • Conexão: Usar as palavras certas, nos momentos exatos, para o perfil demográfico perfeito nos canais sociais ideais.
  • Quantidade: Criar uma frequência e um fluxo de publicação tão previsível que suas palavras ou vozes rapidamente se transformam em uma zona de conforto para seu público.

 

 

[1] Fonte: https://www.uschamberfoundation.org/reports/millennial-generation-research-review

[2] Fonte: https://www.americanpressinstitute.org/publications/reports/survey-research/millennials-social-media/

O otimismo engolido pela realidade

Há quase um ano, durante a Flip de 2015, o Clube de Autores promoveu uma série de palestras focada no mercado editorial brasileiro. Uma delas, proferida por Susanna Florissi – uma das maiores especialistas no segmento – intitulava-se “crise ou oportunidade?”.

Estamos em 2016. Nesses meses que se passaram, um boom de novas editoras realmente foi testemunhado – assim como o melancólico fechamento de livrarias tradicionais e marcas emblemáticas como a Cosac-Naify.

Depois de mais algum tempo, o boom de pequenas editoras também cessou, muitas das quais encerrando suas atividades ou encaixando-se naquela faixa de funcionamento pautada pela base da pirâmide de Maslow: persistiam em péssimas condições, já empurradas para a informalidade, e ainda assim exclusivamente por falta de opção melhor para seus idealizadores.

A temática da palestra da Susanna parece ter atravessado o ano fazendo de tudo para se fixar no imaginário esperançoso do empreendedorismo brasileiro. E faz um certo sentido: crises são situações em que o status quo se desmonta, em que velhos modelos se provam ineficazes, em que pitadas de caos abrem espaço para as pequenas inovações que fazem o mundo girar desde os tempos da peste bubônica. Crises geram questionamentos novos que, por sua vez, fazem brotar respostas novas.

Sob esse aspecto, crises eventuais devem até ser desejadas por uma sociedade que busque evoluir, se reestruturar, crescer. 

2008 foi assim para os Estados Unidos, da mesma forma que 2012 para os países Europeus. Hoje, todos estão melhores, em diversos aspectos, do que estavam antes. 

Mas há um problema com esse raciocínio: ele só funciona até o médio prazo. Sim, crises e caos são perfeitos para propiciar as tão fundamentais inovações em qualquer setor – mas há um ponto a partir do qual eles deixam de ser incentivadores da criatividade e passam a ser venenos letais para as suas sociedades. 

Há oportunidades em crises? Claro. Mas como aproveitá-las se não há dinheiro ou confiança de investidores, grandes ou pequenos, para colocar ideias de pé? Como vendê-las se não há consumidores minimamente dispostos a se arriscar experimentando produtos e serviços diferentes? Como nutrir uma iniciativa inovadora em um ambiente tão pessimista, em que mesmo a mais otimista visão enxerga pouca perspectiva de melhora no curto prazo?

A palestra de 2015 ficou em 2015, infelizmente. Ainda há espaço para inovações poderosas em 2016? É óbvio: sempre há. Mas o ecossistema de negócios está perigosamente estrangulado, impondo que essas mesmas inovações pautem-se mais pela necessidade de sobrevivência no mercado interno do que pela possibilidade de crescimento explosivo no mercado global. 

Por falta de fôlego, até as ambições dos inovadores brasileiros tem encolhido em um claro sinal de retrocesso como pouco se viu na nossa história.
Mudanças urgem para que o realismo não engula o pouco de otimismo que ainda resiste, embora já quase resignado, em nossos empreendedores. Realismo em uma recessão como a nossa, afinal, gera puro pessimismo – e pessimismo é o maior antagonista da inovação.

  

O Clube de Autores e a  globalização como ferramenta de localização

Sabe qual a melhor vantagem da globalização? Ela nos permite enxergar como outros povos do mundo resolveram problemas semelhantes aos nossos. Ou seja: ela nos entrega inspiração em seu sentido mais cru, mais vivo, mais útil.

Isso é oposto ao senso comum, diga-se de passagem: globalização acaba sendo interpretada como a possibilidade de se vender produtos ou serviços para outros países. Não que isso não seja uma inegável vantagem da interconectividade, claro – mas nunca devemos nos esquecer de que, onde quer que estejamos, sempre será mais fácil alcançar os nossos próprios vizinhos que também sempre terão os seus próprios problemas.

Aprendi muito disso com o Clube de Autores. A ideia nasceu de um problema pessoal expandido em uma realidade cultural: a dificuldade para autores publicarem seus próprios livros, tanto no formato digital quanto no impresso, sem precisar pagar tanto. O modelo de um site de autopublicação gratuito vinculado a um conceito de impressão sob demanda nasceu daí – mas se sofisticou bastante depois que consegui mergulhar nas formas com que o restante do mundo lidava com isso.

Descobri, por exemplo, grupos gráficos gigantes que conseguiram oferecer algo semelhante nos Estados Unidos – mas cujas estruturas de custo acabaram tão infladas que elas acabaram se tornando reféns do próprio porte. Aprendi que dificilmente se consegue ter a agilidade que um mercado dinâmico requer nutrindo uma estrutura própria e fatalmente fadada à obesidade mórbida.

Descobri que escritores sabem se virar bem, que não precisam de figuras paternalistas o tempo todo indicando os caminhos – mas que marketplaces de soluções práticas poderiam resolver mais facilmente muitos dos seus problemas. Disso, aliás, todo um outro negócio, o www.profissionaisdolivro.com.br , acabou nascendo.

Descobri há muita gente se focando em produtos e pouca se focando em relacionamento. Aprendi que a chave está no segundo.

Descobri que os grandes negócios acabam tão arrogantes por serem grandes que nutrem, inconscientemente, o ódio do público que eles mais deveriam ter próximo.

E, no final das contas, acabei moldando o meu negócio com uma receita incluindo 20% de ideia própria, 30% de experiências bem sucedidas de iniciativas semelhantes mundo afora e 50% de estratégias desastrosas de empresas no Brasil, nos Estados Unidos, na Alemanha, na Espanha etc.

Hoje, o Clube de Autores tem atuação essencialmente no Brasil – mas dificilmente existiria se não fosse a interconectividade global. E, aqui, está bem: apenas para citar um indicador, é para o Clube que 10% de todos os livros nacionais anualmente publicados se destinam.

Sem dúvidas, em algum ponto do futuro será o momento de explorar o outro lado da globalização: mas ainda há muito o que se fazer por essas bandas daqui que o mundo lá fora pode nos ensinar.

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A inversão de pólos entre empreendedores e investidores

A palavra “negócios” acaba sendo erroneamente vinculada a um imaginário que se situa entre Wall Street e a Berrini, com engravatados perambulando por carros e elevadores e ratoeiras financeiras sendo montadas em cada sala. Sim, o mundo já foi assim – mas, ao menos do ponto de vista de incepção de negócios, não é mais.

Visualize uma startup. Hoje, em qualquer cidade do mundo, as empresas mais empolgantes nascem a partir de ideias de empreendedores criativos e não necessariamente ricos.

Claro: criatividade pura não basta. Às vezes até atrapalha: a paixão pela ideia que costuma caracterizar um empreendedor costuma ser um problema na medida em que o deixa míope quanto a custos efetivos e à necessidade de modelos de receita consistentes já no curto prazo.

Ainda assim, mesmo considerando a alta taxa de mortalidade de startups em todo o mundo, é também delas que as mais brilhantes inovações do mundo nascem. É justamente do caldo caótico feito por falta de dinheiro e excesso de tesão que surgem empresas como o próprio Facebook ou Google, para ficar apenas nos exemplos das duas gigantes.

Onde quero chegar com tudo isso?

Simples: os novos celeiros de negócios não são mais as grandes avenidas comerciais de grandes metrópoles, mas sim os pequenos “guetos empreendedores” que se formam nos locais mais improváveis.

Os empreendedores já sabem disso: hoje, eles trabalham de suas casas ou de ambientes de co-workings onde imperam criatividade e informalidade; fazem parcerias com outros empreendedores de todo o mundo; vivem e trocam experiências por meio de Skype, Hangouts ou Facebook. Em muitos casos, eles se autofinanciam tomando freelas, mantendo um segundo emprego ou pedindo a ajuda dos pais – e, apesar do sempre existente sonho de viverem das suas próprias ideias, acabam em grande parte crescendo – ou morrendo – sem nunca ter visto um potencial investidor.

E não é que não haja investidores disponíveis por aí – eles existem, e aos montes. Só que deixaram de ser absolutamente essenciais para a grande maioria dos empreendedores que, apesar de enxergá-los como uma espécie de sonho semi-utópico, acabam se focando nos desafios do dia-a-dia.

Quem mais perde com isso? Os próprios investidores, claro: afinal, os seus modelos de negócio dependem unicamente de fecharem acordos com projetos de alto potencial. Para que serviria uma bolsa de valores sem valores a serem trocados, sem compras e vendas ditando o cotidiano?

Não é que eles tenham se tornado inúteis, claro: empreendedores continuam precisando de modelos sólidos de receita e, em determinado ponto, de investimentos mais consistentes em suas ideias. Mas há uma mudança importante no cenário, uma mudança muito menos sutil do que se costuma imaginar: hoje, são os investidores que precisam saber chegar nos empreendedores certos e nos momentos perfeitos.

Hoje, eles precisam estar dispostos a desenvolver uma parceria com os seus investidos que vai muito além de entregar dinheiro e cobrar resultados: precisam saber e estar dispostos a construir juntos projetos mais robustos. Precisam aprender com a visão dos empreendedores e ensinar a língua dos financistas – que ainda existirão por muitos anos – para que seus horizontes sejam sempre mais amplos.

Ou seja: em um mundo em que os empreendedores conseguiram se auto-organizar em ambientes capazes de deixá-los ter sucesso quase organicamente com base em ferramentas e atitudes colaborativas, os investidores precisarão se mostrar muito mais relevantes do que apenas detentores sedentários de capital.

Precisarão, pela primeira vez em séculos, sair de seus ternos e trânsitos e ir até onde os donos reais das rédeas do futuro estiverem.

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O caos inovador da NASA

Inovação e centralização são conceitos quase opostos. Inovação nasce do caos, da turbulência, do inesperado; centralização, por outro lado, é a ordem, o controle, a calmaria.

Governos, por natureza, buscam controle. Quanto mais as rédeas estiverem sob as suas duras mãos, mais eles sentem-se seguros por ditar os caminhos que julgarem melhores para si e para os seus povos. Tomemos uma das áreas mais sensíveis de qualquer governo: os militares. Se você fosse a Ucrânia, os EUA ou qualquer país do Oriente Médio, encararia as forças de guerra com importância absoluta: sem elas, a facilidade com que a sua nação poderia simplesmente se desintegrar seria catastroficamente alta. E qual a principal arma dos militares? O armazenamento da informação.

Em outras palavras: os segredos. Quanto mais informação eles acumularem e quanto menos eles deixarem escapar para outros povos, melhor se sentem.

Com o tempo, no entanto, alguns órgãos começaram a entender que simplesmente não reúnem a capacidade (financeira ou mental) para lidar com informações ao ponto de conseguir extrair inovação delas. O que fazer com esse novo dilema? Sentar em cima de minas de ouro em potencial, cientes da incapacidade de explorá-las, ou abri-las para que outros empreendedores possam tentar, dividindo os lucros?

Há alguns anos, a NASA fez um experimento com o projeto KSP, onde criou um game a partir de dificuldades reais para se lançar uma missão tripulada a Marte. O papel dos gamers: solucionar problemas que os engenheiros da agência espacial não conseguiam. Tive a oportunidade de ouvir uma palestra sobre o KSP no SXSW do ano passado e fiquei embasbacado com os avanços práticos da colaboração na viabilização dessa missão, ainda em fase de planejamento (veja post aqui).

Recentemente, eles deram um novo passo: abriram uma série de patentes para start-ups, convictos de que novas mentes conseguirão atrair mais capital privado e mais ideias para tirar projetos importantes do papel.

As regras são simples e bem compreensíveis, incluindo coisas como:

  1. O empreendedor precisa estar disposto a comercializar a tecnologia, pagando royalties para a NASA assim que conseguir;
  2. As patentes devem ser usadas em caráter de não-exclusividade

E que áreas são abrangidas? Muitas, como se pode ver na imagem abaixo.

TA1 Launch Propulsion Systems TA2 In-space propulsion technologies TA3 Space power and energy storage TA4 Robotics and autonomous systems TA5 Communications navigation and orbital debris tracking and characterization systems TA6 Human health life support and habitation systems TA7 Human exploration destination systems TA8 Science instruments observatories and sensor systems TA9 Entry descent and landing systems TA10 Nanotechnology TA11 Modeling simulations information technology and processing TA12 materials structures mechanical systems and manufacturing TA13 Ground and launch systems TA14 Thermal management systems TA15 Aeronautics

TA1 Launch Propulsion Systems TA2 In-space propulsion technologies TA3 Space power and energy storage TA4 Robotics and autonomous systems TA5 Communications navigation and orbital debris tracking and characterization systems TA6 Human health life support and habitation systems TA7 Human exploration destination systems TA8 Science instruments observatories and sensor systems TA9 Entry descent and landing systems TA10 Nanotechnology TA11 Modeling simulations information technology and processing TA12 materials structures mechanical systems and manufacturing TA13 Ground and launch systems TA14 Thermal management systems TA15 Aeronautics

A NASA tem sido um exemplo de como uma agência governamental pode buscar sucesso justamente fazendo o oposto que os seus “pares”: mergulhando no caos e buscando extrair dele inovações que, sozinha, ela jamais conseguiria estruturar.

Palmas para eles.

(Clique aqui para acessar o site do projeto de transferência de patentes e tecnologia)

Terra reinventada

Não estou falando do planeta aqui. Ou estou?

No último dia 6 de agosto, o portal Terra anunciou uma das mais dramáticas mudanças de todo o mercado de portais de conteúdo ao demitir 80% de seu quadro de jornalistas e fechar diversas sucursais. Crise? Segundo o CEO, Paulo Castro, não: a mudança não tem a ver com o delicadíssimo momento econômico do Brasil e sim com um ajuste a novos rumos do mercado.

Cabe a óbvia ressalva: ninguém mexe em time que está ganhando, o que deixa claro que o Terra estava perdendo. Além disso, uma crise econômica grave como a do Brasil pode até não ser a causa primária das decisões corporativas mais dramáticas – mas, no mínimo, é uma bela aceleradora de guinadas que incluem cortes de custo.

Isto posto, a alegação de Castro realmente faz sentido. Afinal, em um mundo com tanto conteúdo sendo gerado por todos os lados, até que ponto faz sentido para uma empresa contratar e manter uma equipe focada justamente em gerar mais conteúdo (ao invés de aproveitar a abundância que já existe)? Por que não mudar e, ao invés disso, focar o time na curadoria de vídeos, textos, animações, imagens e infográficos efetivamente produzidos tanto pela comunidade de usuários quanto por outros sites parceiros?

Medindo prós e contras, o primeiro ganha de longe: consegue-se operar com maior volume, maior agilidade e com uma concentração justamente na maior demanda (que, obviamente, terá atrelada a ela uma maior oferta de conteúdo). Tudo com um quadro menor e mais facilmente administrável de pessoas, diga-se de passagem.

Tire agora o foco do Terra e olhe para o mercado. E se todo mundo seguisse o seu exemplo – o que já está ocorrendo?

Uma mudança assim reinventa de forma dramática toda a dinâmica de mercado ao qual estamos habituados. Ou melhor: ajuda a concluir, de forma decisiva, uma mudança que começou com a troca do primeiro email, há décadas. 

Aos poucos, profissionais de jornalismo, publicidade ou qualquer outro segmento acabarão tendo que se adaptar a mundos feitos de mais empresas menores, enxutas, práticas, interconectadas por meio de buscadores e marketplaces online. 

Ao invés de buscar o colo de mães corporativas multibilionárias com seus antiquados planos de carreira e ambientes de trabalho burocráticos, a busca por um modelo de empreendedorismo pessoal (ou de freelancer profissional) será cada vez mais parte da nossa realidade. Exceto talvez por setores relacionados a infraestrutura, o mercado como um todo deixará de ser feito por poucas gigantes e passará a ser composto por incontáveis micro e pequenas empresas, boa parte delas com apenas um profissional ultra-especializado vivendo do que mais amam. Quer coisa melhor do que isso?

Claro: haverá gente reclamando, criticando os novos tempos e condenando o mercado inteiro: mudanças sempre trazem críticas dos que estavam confortavelmente habituados ao status quo.

Mas haverá também uma explosão de pequenas inovações feitas para acomodar essas novas relações de trabalho que já estão nascendo e que certamente transformarão tudo.

Afinal, se você pudesse trabalhar de qualquer canto do mundo, bastando ter acesso a Internet, escolheria mesmo ficar enfurnado no trânsito de grandes metrópoles? Se não pudesse contar com estabilidade por anos e anos, não acabaria se esforçando para ganhar mais em menos tempo, acelerando seu pé de meia ao entregar mais qualidade para o mercado? Se tivesse mais tempo para seus próprios projetos, não acabaria se dedicando mais ao que gosta (ao invés de se arrastar por décadas fazendo o que não gosta)?

A mudança da era das grandes corporações para a era do eupreendedorismo traz à tona todas essas questões – juntamente com as suas óbvias respostas. 

O Terra foi apenas um dos primeiros exemplos de grandes empresas se adaptando aos novos tempos.

Em um futuro menos distante do que imaginamos, creio, o resto da Terra deverá também se adaptar. 
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Jugaad, a inovação frugal que faz toda a diferença

Em salas de aula, o conceito de inovação tende a ser confundido com ficção científica. Os maiores casos de sucesso, afinal, costumam vir carregados de dinheiro grande, resultado de investidores espertos e endinheirados de países como EUA, Alemanha, Japão etc.

Sorte a dos empreendedores daqueles países, claro.

Mas isso não significa que, aqui por nossas bandas, não possamos também criar soluções diferenciadas com recursos parcos. O próprio Clube de Autores, empresa que tenho a honra de presidir, aliás, é um exemplo perfeito do empreendedorismo tipicamente brasileiro: nasceu, afinal, de parcerias que se metamorfosearam em sociedade por falta de capital, teve como investimento maior a mão de obra dos sócios e como terreno de marketing as democráticas redes sociais. Fazer o Clube foi um ato de guerrilha que deu certo pela persistência: o dinheiro de investidores externos, afinal, veio apenas anos depois, quando a empresa já se sustentava.

Mas há, claro, exemplos muito mais áridos que os do Clube – e muitos são exemplificados na palestra sobre Jugaad, de Navi Radjou. Esse tipo de inovação frugal, como ele chama, típico de países em desenvolvimento com muitos desafios (e, portanto, oportunidades) e dinheiro escassíssimo, é uma das artes mais incríveis dos nossos tempos.

Vale conferir cada minuto, abaixo:

 

Mapa de oportunidades para quem quer explorar o mundo off-Brasil

Já postei bastante aqui sobre empreendedorismo fora do país – em grande parte por conta da insistência do governo brasileiro em fazer de tudo para dificultar a vida dos seus cidadãos. Não quero entrar em política, mas o fato é que estamos habituados a viver de maneira tão isolada, vendo uma espécie de integração global como algo tão mais teórico que prático, que acabamos nem considerando oportunidades em potencial.

Recentemente, vi um mapa que a APEX lançou com uma espécie de mapa de oportunidades de exportação de produtos ou serviços. De maneira prática, ele permite que se escolha o tipo de indústria (infelizmente usando uma linguagem mais burocrática do que prática) e se veja qual o país que mais tem demanda relacionada.

Para quem se interessar, o link direto é http://geo.apexbrasil.com.br/Oportunidades_Comerciais.html

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A relação entre desespero, oportunidade e empreendedorismo em um mundo que não muda

Países ricos são ricos por serem celeiros de inovação ou são celeiros de inovação por serem ricos? 

Quando se estuda empreendedorismo em uma escala global, é difícil não se perguntar o motivo de países como Estados Unidos, Suécia, Japão e Alemanha serem os lares de tantas das mais incríveis corporações do mundo enquanto os que ficam na América do Sul, na África ou em boa parte da Ásia continental terem papéis tão coadjuvantes na economia mundial. 

Essa pergunta ganha volumes ainda mais altos quando se observa que, em muitos casos, essas corporações gigantescas foram fundadas, lá em suas origens, justamente por empreendedores que deixaram os seus países em momentos de total crise e desesperança. 

E é aí que entra parte da resposta: poucas coisas, afinal, motivam mais a humanidade do que a desesperança.

O começo do século XX foi especialmente complicado. A primeira metade do século, por exemplo, teve duas guerras mundiais que devastaram todo o continente europeu e uma crise na bolsa de valores novaiorquina que quebrou, da noite para o dia, tanto fortunas quanto crenças do velho capitalismo por trás delas. Fome e desesperança fizeram hordas de imigrantes deixarem seus lares e partirem para países com mais promessa de felicidade, por mais vã que fosse. 

Foi o caso do escocês Andrew Carnegie, do húngaro Joseph Pulitzer e do russo David Sarnoff, que entraram nos Estados Unidos pela porta dos fundos e, em pouco tempo, montaram impérios nas áreas de aço, jornal e rádio, respectivamente. 

A seu favor eles tinham duas coisas: a sempre super motivadora falta do que perder, uma vez que haviam chegado pobres e sem perspectiva alguma de futuro, e um cenário de infraestrutura em construção no país que os recebeu. No caso dos seus negócios, ferrovias sendo estabelecidas, leis e regulamentações protegendo “interesses nacionais” de especulações externas e demandas bélicas extraordinárias foram absolutamente fundamentais. 

Avance meio século e você verá cenários parecidos. O final dos anos 90 testemunhou guerras em praticamente todos os continentes, mais levas de imigrantes saindo do Oriente Médio, dos Bálcãs e da África rumo aos países mais desenvolvidos e a reestruturação de toda a ordem mundial depois da falência do modelo comunista. Some isso ao estabelecimento da interconectividade digital, quebrando fronteiras e transformando o mundo em uma pequena aldeia, e chega-se a um momento de oportunidade extremamente parecido o do século passado. 

A imigração como ponte entre os dois mundos

Voltemos aos Estados Unidos: de acordo com a Reuters, metade de todas as start-ups americanas que conseguiram investimentos de venture capital foram lançadas por imigrantes – incluindo o Google (co-fundada pelo russo Sergey Brin), a Intel (pelo húngaro Andrew Grove) e o Instagram (pelo brasileiro Mike Krieger). 

Claro: o mérito do sucesso sempre deve recair sobre os empreendedores que foram capazes de costurar teias de negócio perfeitas, explorando oportunidades à exaustão. Mas a pergunta que fica é: por que, exatamente, os seus próprios países de origem não foram capazes de aproveitar melhor as suas mentes e gerar riquezas localmente, dinamizando economias que por certo precisavam de gas?

Porque esses dois ingredientes – o desespero e a oportunidade – muitas vezes vivem em mundos absolutamente diferentes. Não fosse assim, apenas para ficar no exemplo mais óbvio, países da África seriam celeiros de algumas das mais criativas empresas do planeta: desespero e desesperança, convenhamos, é algo que infelizmente costuma sobrar por lá. 

É uma dinâmica simples: na medida em que crises mais severas ou guerras assolam uma região, levas e mais levas de pessoas erguem as suas cabeças em busca de uma vida melhor em outro lugar, abandonando o passado e recomeçando com a gana dos que nada mais tem a perder.

Onde? Em regiões que conseguiram se vender, globalmente, como terras de oportunidades, com leis claras, economias consistentes e governos cujas funções são muito mais regulatórias do que impositivas. 

E por que isso é importante para nós, brasileiros? 

Em tempos de crise econômica, com corrupção em alta e uma visão no mínimo pessimista quanto ao nosso futuro, as oportunidades de se empreender vão se tornando mais escassas na medida em que o desemprego e a perda de relevância econômica fazem crescer a vontade de empreender. 

Há, portanto, uma desconcexão entre o instinto empreendedor e o ambiente de se empreender. E, como o instinto é sempre mais forte, este acaba buscando alternativas de sobrevivência além das fronteiras locais. 

O resultado disso:  um volume cada vez maior de brasileiros que desistem do seu país por falta de infraestrutura de oportunidades, emigrando para os Estados Unidos ou Europa e implementando por lá ideias que poderiam facilmente mudar a cara da nossa economia. 

Uma dinâmica de desenvolvimento menos dinâmica do que quereríamos

É um cenário triste e pessimista para o futuro de países em desenvolvimento, quase todos no mesmo estágio de luta contra as suas próprias culturas intervencionistas e corruptas que colocam a busca do lucro como grande vilã, como responsável externa por todos os males impostos às suas populações pela própria ineficiência do governo.

É um cenário que deixa clara uma espécie de ordem mundial mais estabelecida e imutável do que queremos: há países (como o Brasil) especialistas em impor o caos às suas populações, forçando parte delas a emigrar em busca de oxigênio; e há países competentíssimos em receber e transformar essa nata intelectual externa em verdadeiras fábricas de inovações multibilionárias. 

E sabe o pior? Boa parte dessas inovações são revendidas justamente para os mesmos países que não foram capazes de manter as mentes por trás delas em seus territórios. 

Em um cenário assim, historicamente imutável, é mesmo realista considerar que, um dia, países em desenvolvimento realmente vão sair do gerúndio e tornar-se desenvolvidos?