[Algoritmos & Robôs: Os novos públicos-alvo das marcas] Robôs dominarão o mundo?

Como será o futuro de um mundo com seres inanimados, artificiais, influenciando cada vez mais em nossas decisões? Haverá um momento em que algum robô desenvolverá a consciência e passará a operar por regras próprias, mais de acordo com as suas próprias crenças do que com a maneira com que foi programado?

Por mais que nos inclinemos a acreditar nesse apocalipse cibernético – a humanidade sempre teve um quê de masoquista quanto a si mesma – tenho sérias dúvidas.

O poder do erro

Robôs foram concebidos, mesmo nos filmes de ficção científica, para funcionar como entidades perfeitas e sem os defeitos inerentes à biologia humana. Até aí, nenhuma novidade.

Filmes mais fatalistas (como o Exterminador do Futuro ou Matrix) criaram toda uma visão de futuro em que robôs, dotados de inteligência lógica maior e mais poderosa que os humanos jamais teriam, acabaram concluindo que nós éramos a grande praga do mundo e buscaram destruir a nossa espécie.

A questão é que todo e qualquer sistema de inteligência artificial se baseia em uma espécie de lógica unidirecional: ao encontrar um problema, ele buscará resolvê-lo da maneira mais eficiente possível. Sim: parte das tentativas de resolução resultará em falhas, naturalmente – e sistemas inteligentes aprenderão a não repetir mais essas falhas enquanto engendram outras possibilidades de solução. Seja por matemática ou tentativa e erro, o objetivo de um robô sempre será resolver um problema colocado diante de si, algo que eventualmente ele conseguirá fazer com uma velocidade e qualidade muito maior que o mais genial dos humanos. Robôs são eficientes.

O problema é justamente este: sistemas de inteligência artificial estarão sempre atrelados a um objetivo (e, portanto, desconectados de um ambiente caótico como é o funcionamento do cérebro humano).

Recorro a um exemplo simples, quase simplório, para me explicar melhor: o Post-it. A criação deste que é um dos mais rentáveis produtos do mundo foi uma espécie de erro de cálculo, de falha. Na prática, os seus criadores estavam buscando desenvolver uma cola hiper-resistente, chegando, obviamente que por uma falha de percurso, no que se pode considerar uma pseudo-cola fraca o bastante para ser quase inútil.

Se o processo criativo estivesse sendo determinado por um robô, ele rapidamente aprenderia com o erro, descartaria a cola fraca e seguiria tentando criar a sua super-cola, provavelmente com um sucesso mais rápido que seus pares humanos. Seu objetivo seria esse, afinal – e robôs não mudam de rota.

O humano que viu essa pseudo-cola gerada por um erro, no entanto, acabou criando um novo produto, com um novo propósito, a partir de todo um conjunto caótico de sinapses que ocorreram no fundo do seu cérebro. Deve ter pensado em papéis soltos na sua mesa de trabalho; no quanto seria útil se ele conseguisse colar lembretes em seu mural; na necessidade desses lembretes serem descartados facilmente no instante em que fossem resolvidos; e assim por diante. Deve ter pensado em todo um conjunto de problemas humanos que computadores jamais teriam – e foi desse conjunto de pensamentos absolutamente desconectados do objetivo de desenvolver a super-cola que ele acabou concebendo o Post-it.

Ao invés de mudar a fórmula da invenção que buscava para atender ao desafio originalmente colocado diante de si, ele mudou o objetivo para encaixar a fórmula “falha” que criou por acidente de percurso. Inverteu-se a lógica em um processo que, sob a ótica do propósito original, foi absolutamente ineficiente.

O que o humano fez que um robô jamais faria? Ele mergulhou fundo no caos de seus pensamentos, ainda que de maneira inconsciente, e teve o estalo de se desconectar de seu objetivo primário e fugir de toda uma linha própria e estabelecida de raciocínio. Ele mudou de raia, por assim dizer, e preferiu adotar uma espécie de caminho ilogicamente mais longo, torto, quase conscientemente “errado”.

E é precisamente isso que robôs jamais conseguirão fazer por um motivo simples: eles não tem inconsciência e nem consciência, elementos fundamentais para que consigamos raciocinar de maneira livre e caótica.

Sim: sistemas de inteligência artificial são solucionadores de problemas muito, mas muito mais eficientes que os humanos (e precisamente pela mesma falta de consciência e inconsciência que nos caracteriza e nos faz “mudar de raias” de maneira tão fácil). Só que inovação não é pautada pela habilidade de se resolver problemas: ela é, antes de mais nada, pautada pela capacidade de se detectar os problemas.

E isso sim requer algo que vai muito além de um conjunto de fórmulas programadas em um computador.

Uma visão do futuro a partir do mapa de idiomas mais falados do mundo

Recentemente, o jornalista Alberto Lucas Lopez montou um “mapa-mundi” baseado não em fronteiras geográficas, mas sim no alcance das línguas nativas. Não dá para dizer que foi tarefa fácil: há, afinal, 7.102 línguas diferentes faladas por uma população de 7,2 bilhões. 

Os dados abaixo referem-se a uma parcela de 6,3 bilhões, sendo que 4,1 bilhões falam um dos 23 idiomas mais comuns (60% deles orientais). 

Dois dados curiosos saem dessa análise: 

  1. O mundo é muito mais oriental que ocidental, principalmente se colocarmos na balança os outros idiomas fora da lista dos “top 23”. Em uma estimativa simples, dá para considerar que algo entre 70% e 75% são “do lado de lá do mundo”. 
  2. Idioma oficial reflete mais o passado que o futuro: afinal, ele é resultado de uma soma de séculos de hábitos, conquistas, imposições e embasamentos culturais. O gráfico traz, em menos destaque, os idiomas mais aprendidos mundo afora. Dos 7 principais, apenas 2 são orientais: o chinês e o japonês, ocupando, respectivamente, terceiro e sétimo lugares. O inglês é indiscutivelmente dominante, com 1,5 bilhão de estudantes. Mas mesmo traçando um outro comparativo, há mais de 2 vezes mais pessoas aprendendo francês (82 milhões) do que a soma dos diferentes dialetos que podemos considerar como chinês (30 milhões). 

O que isso nos diz?   

Que a crença quase cega que temos de que o futuro pertence à China e que o ocidente está em uma espécie de processo de neo-colonização por eles não encontra respaldo cultural prático nas estatísticas. O chinês é um idioma importantíssimo? Óbvio que sim – mas em muito por conta da globalização que, subitamente, colocou um mercado de mais de um bilhão de pessoas no horizonte do Ocidente. 

Mas, se um idioma é a principal arma de dominação cultural, então esse infográfico deixa claro que o futuro pertence muito mais a países de língua inglesa – principalmente os Estados Unidos – do que qualquer outro.