O caos só pede um pouco de sensação de ordem

Quando se observa qualquer situação de caos, costuma-se ficar desesperado pelo emaranhado de confusão posto à nossa frente. Desespero, aliás, é a melhor palavra para isso: como não se sabe sequer a dimensão de um determinado problema, criar uma solução parece ser tão impossível quanto entender como chegamos até um determinado ponto.

Sim, sei que posso estar me perdendo na abstração do pensamento. Exemplifico, então.

Vamos à crise brasileira.

Por todo o primeiro semestre, ficamos colecionando números atrás de números que gritavam os efeitos catastróficos do desastroso governo Dilma.

  • Na economia, os dados foram tão estapafúrdios que esse nosso momento ímpar está sendo comparado à Grande Depressão que assolou o mundo no final da década de 20.
  • O desemprego, filho mais velho da crise, atingiu níveis comparáveis aos de países em guerra. Só a região metropolitana de Salvador, por exemplo, registrou 23% no índice que mede a desocupação. 23%!
  • Na saúde, epidemias que sequer conhecíamos no passado recente vieram sublinhar a ineficiência do sistema brasileiro.
  • Na educação, pequenas implosões generalizadas nas esferas municipal, estadual e federal apontaram para o mais puro colapso.
  • Finalmente (e digo finalmente não por ter chegado ao fim de todos os pontos problemáticos, mas sim para evitar que esse post vire um livro à parte), a inépcia política do então governo petista somada à divulgação apartidária da praga da corrupção eliminou do imaginário popular a mera existência de uma figura de líder capaz de nos fazer atravessar mares tão revoltos.

Como caos é insustentável por natureza, o governo inteiro caiu. Foi-se a Era PT.

Tudo mudou? Basta olhar as quedas dos ministros e ler nomes já conhecidos como Alves, Jucá e Geddel para se entender que, nesse aspecto, tudo permaneceu igual. Os mesmos criminosos que trouxeram o país para onde ele chegou permanecem no poder: eles apenas mudaram de ideologia.

E, aparentemente, isso funcionou. Com a mudança na condução ideológica das finanças, veio a até então inexistente perspectiva de melhora. Perspectiva, ressalto: até o momento, as grandes medidas apenas foram para o papel e nem tiveram como surtir efeitos de ordem técnica, prática, efetiva.

É aqui que entra a magia de se aniquilar o caos: o remédio para um problema, a solução definitiva, nunca é essencial em um primeiro momento.

Caos é a consequência febril, estomacal, emocional, de um desarranjo prático qualquer. Caos é o desespero que transforma adultos racionais em pequenas crianças que se perderam de seus pais.

E como eliminá-lo? Basta o dedo indicador apontando para alguma direção. Da mesma maneira que uma criança perdida se acalma imediatamente quando alguém aponta para o lugar em que seus pais estiverem mesmo antes de os enxergar, populações inteiras diminuem suas palpitações cardíacas quando conseguem crer na proximidade de uma mudança, de uma melhora.

Hoje, pouco mais de um mês se passou desde a posse de Michel Temer como presidente interino. Sabe o que aconteceu?

  • A previsão da queda do PIB de 2016 passou de 4% para 3,5%.
  • A queda na venda de alimentos passou de 4,08% para 3,73%.
  • Especialistas já consideram que a SELIC deva cair de 14,25% para 10% em um horizonte próximo.
  • Para 2017, a projeção de crescimento do PIB feita pelo BNP Paribas foi de zero para 2%.
  • E, indo além de qualquer projeção estatísticas, já se sente no próprio mercado um crescimento de demandas que estavam represadas pela absoluta falta de definição quanto aos rumos do país.

Como explicar tanta mudança e perspectiva em tão pouco tempo – menos tempo, reforço, que o necessário para se colocar qualquer medida de ordem prática em vigor?

Confiança.

O que define a economia do mundo não é um conjunto de resultados: é a confiança pelos agentes do mercado de que determinadas medidas levarão a um resultado. É, portanto, a mera perspectiva de resultado.

Nesse aspecto, o Governo Temer conseguiu iniciar um processo claro de ordenação do caos mesmo desafiando toda a lógica e formando uma equipe ministerial tão escandalosamente enlameada.

Aliás, paradoxalmente, a própria demissão imediata de alguns dos ministros por suspeitas de corrupção, se grifou a evidência de que a podridão permanece presente no governo, também sublinhou a disposição do mesmo governo em tomar atitudes concretas para “se limpar”. Seria melhor se os nomeados não fossem vilões célebres? É óbvio. Mas o fato de estarem caindo, um a um, já marca uma diferença do governo Dilma que, em seus melancólicos atos finais, tentou fazer o exato oposto ao nomear o ex-presidente Lula como ministro apenas para ajudá-lo a fugir das grades.

No final das contas, o remédio para o caos não nasce de soluções práticas: nasce de promessas emocionais que abrem viabilidade para a tomada de decisões práticas.

Ou alguém questiona a genialidade da escolha do novo slogan, “Ordem e Progresso”, para um país que, hoje, se enxerga perdido, diminuído, envergonhado e francamente desesperado?

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Vale conferir: Roberto Jefferson, o Macunaíma da política, no Roda Viva

Mário de Andrade escreveu, em uma semana, a obra que melhor expressa o que podemos considerar como brasileirismo. Em uma época em que o ideal cultural de qualquer povo era imitar os ares europeus, ele escreveu uma ode à falta de honradez e excesso de fisiologismo do nosso povo.

Eis Macunaíma: herói sem caráter, que sempre coloca as suas próprias necessidades em primeiro plano, que ignora qualquer outro e que, assim, encarna a verdade em sua forma mais crua, árida e, por consequência, pura.

Roberto Jefferson, político que estourou o Mensalão em que estava envolvido até o pescoço, é uma versão moderna de Macunaíma. Ele fala o que pensa, acusa quem quer, desfaz discursos na medida da própria vontade.

E por que estou postando esse vídeo aqui? Porque, justamente por ser um “insider”, Roberto Jefferson consegue fazer uma análise estratégica incrível sobre tudo o que aconteceu e está acontecendo no Brasil.

Confira abaixo – tendo em mente que essa entrevista foi ao ar em 11 de abril de 2016, quase uma semana antes da votação do impeachment pelo congresso.

 

O outro lado: os 5 passos de Dilma rumo ao Impeachment

No post de ontem, comentei aqui sobre a estratégia que Temer vem articulando (com óbvio sucesso) para chegar ao poder.

Vale também analisar o outro lado.

No caso da Presidente Dilma, no entanto, a análise não precisa ser tão racional. Ao contrário: basta conferir o vídeo abaixo, do primeiro pronunciamento feito por ela depois do congresso autorizar o encaminhamento do pedido de impeachment.

Pontos importantes a se observar:

1. Isolamento: Em todos os pronunciamentos – este sendo apenas mais um exemplo – ela aparece isolada. Em alguns casos ela aparece apenas acompanhada de um punhado de ministros – sempre os mesmos – que buscam aparentar algum tipo de amparo.

2. Vitimização: Desde que o impeachment começou a tomar corpo e passou a integrar o discurso petista, Dilma sempre se colocou como vítima. Vítimas podem até ganhar a simpatia do público – mas, em crises graves como a que estamos, esse mesmo público costuma preferir apoiar alguém com ares de vencedor (e não de perdedor).

3. Repetição de argumentos periféricos, auto-ataque: Quando se é acusado por algo, o único caminho é confrontar a acusação com fatos que comprovem a inocência. Em quase todos os discursos, a presidente ataca seus opositores, culpa o planeta inteiro pela crise e até repete que não cometeu crime uma vez que outros governantes fizeram o mesmo e saíram impunes. A saída para ela aqui é difícil pelo simples fato de que ela cometeu um crime, ao menos de acordo com o texto da constituição brasileira. Só que, ao evocar o argumento de que “se outros erraram, também posso errar”, ela acaba adotando uma estranhíssima estratégia de defesa que começa pelo auto-ataque.

4. Desconsideração com o outro lado: O problema de repetir xingamentos e acusações a opositores poderosos – principalmente quando se tem a população majoritariamente contrária a si – é que se ignora que não há um monopólio da mídia. Basta a presidente tecer um argumento mais estomacal que juristas e cidadãos aparecem, com igual poder de mídia, para responder de maneira mais racional.

5. Falta de articulação verbal: Não saber se comunicar é como uma doença autoimune para quem está na política. Nem preciso falar muito aqui: basta ver o vídeo abaixo para entender o quão difícil é para alguém com tão pouca capacidade de articular palavras conseguir se defender de um processo público dessa magnitude.

E esses são apenas alguns dos argumentos. Não dá para dizer que vencer uma guerra pelo poder de uma presidente em exercício, com toda a força que a caneta executiva a outorga, seja algo fácil. Mas para políticos mais experientes, dá sim para dizer que, de todos os presidentes que o país já teve, Dilma provavelmente foi o alvo mais fácil.

Não se ganha, afinal, apenas colecionando vitórias; é preciso contar com a capacidade do adversário de errar, impondo derrotas a si mesmo.

 

 

O estrategista: os 7 passos de Temer até o Planalto

Tenho para mim que, quando se quer tomar poder para si, em qualquer circunstância, não basta aproveitar uma oportunidade: é fundamental gerá-la.

Traduzindo: a melhor maneira de vender uma solução perfeita é criando (ou pelo menos ampliando ainda mais) um problema sem tamanho.

Não digo que o Temer ou o PMDB – alvos deste post – sejam os principais culpados da crise que o país vive. Tenho, aliás, dificuldade de entender como alguém pode não enxergar a culpabilidade do PT e da quase-ex-presidente Dilma dada a maneira publicamente desastrosa com que tocaram a economia e a protagonização absoluta nos esquemas de corrupção que implodiram os nossos cofres.

Mas, ainda assim, é sempre válido lembrar que o PMDB faz parte do governo desde a era Lula – e que teve o presidente do partido como vice-presidente do Brasil durante o governo Dilma.

A genialidade do Michel Temer em lidar com isso, que faz com que Frank Underwood pareça um ingênuo seminarista, é outra história. Vamos a uma breve recapitulação de seus sete passos rumo ao Planalto:

1. Usando a imagem de uma presidente arrogante

Não é segredo para ninguém que Dilma emanava arrogância. Sua interlocução política era tão frágil, perdia tanto espaço para a sua postura de ditadura em um país sem ditadura, que poucos foram os parlamentares que criaram algum elo confiável com ela.

Detalhe: essa arrogância era nítida para todo o país por meio de entrevistas ou declarações públicas dadas, quase todas sob olhos apertados e uma boca impaciente que teimava em deixar escapar absurdos como “mulher sapiens” e “homem-mandioca”.

Temer usou isso a seu favor: começou a disseminar, desde o começo do segundo mandato, quando ficou claro que a crise só pioraria, que estava isolado das decisões do executivo. Chegou até a contar com o apoio público do ex-neo-presidente Lula que, em uma ingenuidade incompatível com sua história, deu força ao argumento do pemedebista.

2. Criando recados que se viralizem

Faltava, no entanto, algo mais público, mais notório. Algo que deixasse claro à população brasileira que ele estava magoado com a maneira que era excluído das principais decisões. Nasceu a carta de dezembro que, justamente por ter sido ridicularizada nas redes sociais, acabou sendo conhecida por todos.

Perceba a quantidade de mensagens que a carta continha:

  1. Era ele que mantinha o PMDB unido em torno ao governo: ele colocava o seu poder à disposição dela
  2. Ela, por outro, ignorava tanto a ele quanto ao partido
  3. A culpa pela condução da política econômica era integralmente do governo do PT uma vez que ele e seu partido eram excluídos de todas as decisões
  4. Os indicados dele para ministérios foram os que mais geraram resultados
  5. Era ele quem nutria amizade por líderes de outras nações, e não ela
  6. Ainda assim, ele não estava rompendo com o governo – estava atestando, mais uma vez, a sua lealdade, ainda que sob protestos

Sim: o conteúdo era puro mimimi. Mas justamente por isso acabou dando recados claros para toda a população, ainda que de maneira pseudo-subliminar. Veja a íntegra da carta aqui.

3. Articulando em silêncio

Temer é conhecido por ser um profundo conhecedor da constituição e um excelente articulador. Polvilhando cuidadosamente declarações e frases, foi construindo uma narrativa de poder factível junto a seu partido e às duas bases no congresso: a oposição e a aliada, esta já farta da postura da presidente.

Quem melhor, aliás, do que um vice-presidente irritado para juntar apoio dos dois lados? Sua face governista atraía a atenção da situação; sua face indignada, da oposição. A ambos, seu conhecimento da carta magna brasileira e sua influência serviam de base para qualquer  tomada de decisão.

E, assim, aos poucos, ele foi somando deputado a deputado em silêncio.

4. Declarando guerra depois de ter disparado meia artilharia

Oficialmente, a ruptura do PMDB com o governo se deu no dia 29 de março – e por aclamação, passando a imagem a outros partidos de que havia uma união em torno dele.

Foi a declaração de guerra oficial, que acordou todo o planalto de uma só vez. Teria sido ele precipitado, como seu desafeto Renan Calheiros opinou? Dificilmente.

Com a ruptura ainda no mês de março, Temer conseguiu tempo para convencer quadros governistas do PMDB a ficarem do seu lado e conseguiu testar o almejado “efeito manada” dos partidos menores.

Se a ruptura tivesse esperado mais alguns dias, por exemplo, seria possível que o PP tivesse mantido o apoio ao governo e isso, por si só, teria enterrado o impeachment.

Não foi o que aconteceu. Em poucas semanas, a cada vez mais forte elite articuladora do PMDB entrou em cena para disputar com um cada vez mais fraco Lula o voto dos deputados.

5. Dando um recado claro a quem gosta de ficar ao lado dos vitoriosos

Ao mesmo estilo da carta de dezembro, Temer soltou uma outra bomba: a mensagem de Whatsapp em que ele lia um suposto discurso de posse no dia 11 de abril. Oficialmente, ele se enganou e enviou para um grupo errado; na prática, foi uma das táticas mais bem boladas de todo esse período.

Por quê? Em poucos minutos, ele:

  1. Deixou claro que confiava no impeachment ao ponto de treinar um discurso de vitória
  2. Deixou claro que a vitória do impeachment se daria por maioria considerável
  3. Deixou claro que estava preparado para um governo de união com todos os partidos para a “salvação nacional”
  4. Deixou claro que manteria os programas sociais
  5. Deixou claro que faria tudo diferente do PT

Era tudo o que todo mundo queria.

Além disso, ao alardear um discurso de vitória que contrasta com seu posicionamento sempre muito cauteloso, ele deixou claro aos deputados onde estaria o lado vitorioso. E o lado de quem ganham, sabemos, é o que todo deputado quer pertencer. Temer, presidente do PMDB, partido que fica no governo mesmo quando faz oposição, sabe bem disso.

Veja a íntegra aqui.

6. Administrando a vitória

A partir daí, bastou que ele mantivesse a sua articulação ativa, mas em fogo brando.

Resultado: no domingo, dia 17 de abril,a câmara dos deputados recomendou o impeachment por uma esmagadora maioria de 367 votos – apenas 1 voto de diferença para a previsão do próprio Michel Temer, diga-se de passagem.

Claro: há toda uma nova fase que se inicia agora no Senado – e certamente há mais articulação estratégica em franco andamento. O que muda agora é o inimigo: Dilma e Lula são carta fora do baralho.

A quase-ex-presidente, a julgar pelas suas recentes declarações, está vivendo a base de remédios; o ex-neo-presidente, por sua vez, está a poucos dias da cadeia.

Enquanto isso, Temer se mantem elegantemente calado, deixando seus inimigos espernearem, alardeando palavras como “golpe” e “injustiça” até que a população inteira fique exausta de ouvir sempre os mesmos argumentos.

7. Limpar o caminho

Hoje, restam dois no seu caminho: Renan Calheiros, desafeto político, e Eduardo Cunha, aliado fundamental na câmara. Ambos do PMDB, acrescente-se.

O primeiro pode até espernear, mas não terá opção que não deixar o jogo seguir e agir como uma espécie de motoboy do impeachment, como ele próprio se definiu.

O segundo precisará ser empurrado ao abismo por motivos óbvios: mais impopular ainda que Dilma Rousseff, a permanência de Eduardo Cunha no governo Temer será insustentável do ponto de vista do fundamental apoio da população brasileira. E, estrategista como é, o próximo presidente sabe bem disso.

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Moro, o messias?

Em uma crise de proporções como a que estamos vivendo, o maior problema não é o técnico. Rumos econômicos, políticas sociais etc. são apenas parte de um pacote de soluções necessárias para o país. 

O mais importante é – por mais que a palavra pareça piegas – o “líder” que tirará o país da tempestade. O motivo para isso é claro: por mais que tenha sido causada por uma gestão econômica absolutamente desastrada, é a crise política que impede o país de avançar neste momento. 

E crise política, por sua vez, é ao mesmo tempo resultante e resultado do descrédito público. 

Por que a presidente não consegue articular nada, deixando o país inteiro travado? Porque os níveis de desaprovação dela são tamanhos que as poucas pessoas no congresso que a apoiam estão lentamente desaparecendo em nome das suas próprias elegibilidades futuras. 

E quem entra para salvar? Michel Temer, atual vice-presidente – e, portanto, parte da mesma elite política que nos trouxe até esse ponto? Aécio Neves, já coberto de denúncias de corrupção? Lula, que já foi um quase santo e hoje está bem perto do demônio? 

A pior notícia para o Brasil é esta: não há nenhum nome na atual conjuntura que consiga chegar ao Planalto sob aclamação popular. Há, no entanto, nomes de transição, como mencionei no post de ontem, a começar por Michel Temer. 

E para a população em si? Sempre que o desespero chega a níveis cataclísmicos, ele arrasta para o abismo a capacidade de raciocínio lógico das pessoas. Ao invés de pensar friamente sobre como agir, passa-se a depositar as esperanças em um salvador messiânico, em um Antônio Conselheiro pós-moderno. E, na falta de alguém da classe política, quem surge? 

Hoje, há apenas um nome tido como sinônimo de ética e de luta incansável pelo futuro do país no imaginário popular: Sérgio Moro, juiz que puxou para si a responsabilidade de transportar os habitantes do Congresso (e do Planalto) para as carceragens da PF. 

Quer ver o quanto ele está sendo falado? A figura abaixo compara a quantidade de vezes que três palavras importantes: “Crise”, “Impeachment” e “Moro” foram pesquisadas no Google nos últimos 90 dias. 

  

Agora saia daqui e veja os vídeos com o juiz – como o que conclamou a população para as manifestações do último domingo. 

Alguém tem dúvida de que, se ele eventualmente se candidatasse a presidente, venceria com uma margem avassaladora? Eu, pelo menos, não tenho nenhuma. 

Mas dificilmente um juiz, por mais conhecimento e experiência que reuna sobre a sua área, teria o know-how para compor articulações no legislativo e deliberar sobre temas do executivo na medida da necessidade. 

O problema todo reside nisso: o vácuo de lideranças políticas somado ao desespero público gerado pela crise pode fazer com que a população acabe demandando (e, portanto, votando) muito mais com o estômago do que com o cérebro. 

E votos com o estômago, como mostra o nosso passado recente, dificilmente conseguem dar bons frutos.

Podemos já ter identificado muitas das origens dos problemas relacionados à gestão do nosso país – mas ainda estamos muito, muito distantes de achar a solução. 
 

O caos, a Revolução Brasileira e o nosso incerto futuro certo

Ante de qualquer coisa: perdoem o post longo. Este, no entanto, se faz necessário. 

A crise e o caos

Com uma avalanche de acusações e denúncias escalando a imagem criminosa da elite política brasileira com a mesma intensidade que a crise chafurda a população na desesperança, o inevitável acontece: o caos. 

E caos, aqui, pode ser interpretado como um conjunto disforme de forças atuando com plena energia para todos os lados diferentes. Há opiniões se radicalizando, cidadãos buscando alternativas de vida em outros países, desemprego levando profissionais a atos de desespero – seja abrindo suas próprias empresas ou tirando as suas vidas – e divergências assustadoras sobre uma visão de futuro para o país. Aliás, eu arriscaria dizer que as visões de futuro vão até um extremo curto prazo. Como será o Brasil em 2020? Ninguém palpita.

Isso não é novidade no mundo, claro. Já houve momentos, inclusive muito mais sangrentos, em que esse caos sócio-político-econômico gerou verdadeiras revoluções pela história da humanidade. Ou se imagina que a Revolução Francesa teria ocorrido se o então símbolo máximo da monarquia estivesse garantindo prosperidade plena a seus cidadãos? 

Crises costumam sempre ter uma causa – dinheiro – que pode ser traduzida de maneiras diferentes (impostos excessivos, enriquecimentos descaradamente ilícitos, concentrações de riqueza exageradas, equívocos em políticas econômicas que acabem gerando um desbalanceamento generalizado na máquina e assim por diante). Até aí, elas não são novidade em nenhum lugar. Mas a própria economia tem esse teimoso hábito de se auto-ajustar garantindo uma estabilidade macro, em grande parte por conta dos esforços da iniciativa privada que, afinal, enxerga nas crises oportunidades claras de inovação – e na inovação generalizada, um novo gás para a retomada de crescimento.

O que ocorre é que, quando todos esses fatores explodem simultaneamente, a situação acaba ficando insustentável. É o que está acontecendo conosco. 

No Brasil, anos de decisões econômicas equivocadas nos catapultaram para a pior recessão da história; a recessão acabou jogando milhões de cidadãos de volta para a pobreza; e o escancaramento da corrupção nos mais altos níveis políticos e empresariais salpicou ódio em todas as camadas da população. 

O resultado: de um lado, o governo está isolado, só, sem margem de manobra. Quem fica eternamente fiel ao lado de alguém publicamente considerado como o responsável por todos os desastres dos últimos anos, afinal? Na outra ponta – ponta que cresce a cada dia – hordas de políticos sem ideologia alguma buscam se colar às massas que clamam por mudança. Aliás, o caos é tamanho que o poder até então mais distante do público – o judiciário, conhecido por ser lento, plutocrático e burocrático – está mais próximo dos cidadãos do que em qualquer outro período da história brasileira.

O que deve acontecer? 
O futuro e um tipo moderno de revolução

A esta altura, instabilidade é tamanha que considerar que Dilma permanecerá no cargo até 2018 chega a ser ingênuo. Abandonada, seu destino certamente será o ostracismo breve ou as grades da Papuda uma vez que, legalmente, ela tem responsabilidade por muitos dos escândalos que impulsionaram sua carreira desde que foi presidente do conselho da Petrobrás. E, se seu cargo de líder do executivo a garantiu imunidade e apoio político até então, dificilmente sua deposição não virá com o distanciamento completo dos então aliados que desejarem se manter politicamente vivos neste jogo que nunca termina. 

A queda da presidente parece inevitável a este ponto. A questão é: o que virá depois?

Aos modos do século XXI, o Brasil está diante de uma revolução. É uma revolução que, sem dúvidas, ocorrerá sem guilhotinas, sem mudanças abruptas e dentro da constitucionalidade – mas ainda assim uma revolução. 

E, como toda a revolução, ela tem data de início – mas não de término. 

Vejamos: em primeiro lugar, haverá a queda da elite governante. Queda retumbante, já cantada, esfacelando junto um partido que por décadas simbolizou a “luta pelo povo”. 

Uma nova elite política assumirá – mas a questão é que ela não é tão nova assim. Ou alguém sério considera que o vice-presidente e o seu partido, o PMDB, tem algum tipo de blindagem ética maior que o PT? Há uma troca de ideologia por pragmatismo – mas, tanto em um lado quanto em outro, os beneficiários exclusivos são sempre os mesmos.

É provável que, em um primeiro momento, Temer consiga alguma margem de manobra para retomar a economia e articular mudanças importantes para o país. Ainda assim, será necessário a ele uma habilidade política inimaginável para se manter no poder frente a uma crise que ainda se arrastará por muito tempo e a uma população já exausta da maneira atual de se fazer política. 

Fazendo uma comparação simples: durante a Revolução Francesa, Danton assumiu um posto de imenso prestígio representando “o povo” – mas acabou guilhotinado, vítima, em grande parte, da sua própria arrogância e embriaguez pelo poder. Com isso, outra figura, Robespierre alçou-se a uma posição de liderança inconteste. Sabe quanto tempo durou? 3 meses. Depois disso, ele também acabou guilhotinado.

Os tempos, claro, são outros. Não se espera que Temer perca a cabeça – mas há outras formas de se cair. 

E se Temer cair, seja por uma deposição formal ou pelo pleito de 2018, considerando que chegue até lá e que lance-se como candidato? Quem assume? Aécio Neves, segundo colocado em 2014 e que já está coberto de suspeitas de corrupção? 

Sobra alguém no panorama político brasileiro que tenha a competência técnica para se tocar um país e a lisura moral para ganhar o apoio público? 

Hoje, não – e esse talvez seja o maior risco da revolução brasileira que está em curso. 

Mas líderes, às vezes, são como ideias inovadoras: surgem de onde menos se espera. 

Também foi assim na França do século XVIII: quem, no final das contas, acabou surgindo do nada e pondo um fim ao clima de caos, pelo bem ou pelo mal, foi Napoleão Bonaparte.

Neste momento, o que se sabe é que estamos no centro do mais completo caos social – e que sair dele incluirá ainda muito sangue de muito político. 

É mais do que óbvio que, dado tudo o que está acontecendo, um Brasil diferente deve sair desse caos. Mas países, assim como empresas, precisam de líderes respeitados pelos seus seguidores e que saibam o que estão fazendo. 

Que achemos o nosso logo.

  

Talvez estejamos sendo pessimistas demais com a economia

Crises trazem pessimismo. Acreditar que o mundo vai acabar, afinal, é no mínimo natural quando se vê todas as instituições a nosso redor ruírem.

Mas o que costuma nos salvar do pessimismo é a estatística – e esta, aliada a um pouco de racionalidade e projeção no longo prazo, pode realmente mudar a ótica.

Achei este artigo fantástico do Ricardo Amorim (clique aqui) que – pasme – entende este já tão amaldiçoado ano de 2016 como uma virada positiva para o país.

Vale MUITO a leitura – como vale também terminar com a pergunta que ele faz ao final de seu texto: Você e sua empresa estão prontos para as surpresas que vêm por aí?

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Inflação, desemprego e um gráfico muito louco

Veja o gráfico abaixo:

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Ele foi tirado do site Nexo e tem como principal benefício nos permitir enxergar a relação entre inflação e desemprego por uma ótica mais… digamos… tridimensional.

Comecemos pelo final do segundo governo FHC: no instante em que o mercado entendeu como possível a vitória de Lula, uma crise de confiança instantânea se consolidou e a inflação saltou de 8 para 14%. Perceba que se tratava de algo muito mais especulativo: o desemprego em si acabou até caindo no período.

Lula, por sua vez, levou um ano para fazer o mercado entender que ele não seria um louco esquerdista fanático a la Chavez e fechou seu primeiro ano de governo com uma inflação de volta o controle (embora com um desemprego levemente maior).

A partir daí houve uma crise mundial concreta, mas que acabou sendo superada por uma política de expansão de crédito/ incentivo à produção e beneficiada por todo um conjunto de fatores externos.

O problema foi que grande parte desse crescimento dependia de fatores demais para continuar funcionando bem. Quando Dilma assumiu, o cenário já era outro – mas ela continuou reforçando medidas de incentivo à produção, desonerações e manutenção artificial de preços administrados (como conta de luz e preço da gasolina).

Em um determinado momento, essa gestão artificial essencialmente populista tinha que mostrar os seus efeitos – o que aconteceu de maneira acentuada no instante em que ela venceu as eleições para o segundo mandato.

No espaço de 1 único ano, o Brasil regrediu 12 anos em relação à inflação e 6 em relação ao desemprego – com uma infeliz tendência de piora para 2016.

Gráficos assim nos ensinam lições importantes:

  1. Cada tempo é um contexto em si próprio e, portanto, pede métodos diferentes de gestão – seja para governos ou para empresas
  2. Também para governos ou empresas, usar mecanismos artificiais pode maquiar a realidade por algum tempo – mas não a muda. Eventualmente a verdade acaba aparecendo e o custo de evitar enxergá-la a tempo é alto.
  3. Não há fórmulas mágicas. Quando o cenário permitir e o clima estiver positivo, vale se aproveitar de cada instante; quando ele estiver ruim, o ideal mesmo é segurar as pontas, economizar e ser absolutamente ortodoxo.

Reforço: gráficos diferentes nos ajudam a entender melhor os erros do passado – algo essencial  se quisermos evitar repeti-los no futuro.

 

Campanha eleitoral

O título deste post é o nome da escultura na foto, feita por Isaac Cordal e exibida em Berlin. Só o contraste, o contrasenso, o ridículo e realismo irônico já explicam muito do nosso mundo.

Nem precisa dizer mais nada.

  

A propósito, essa instalação é parte de uma série inteira chamada “Siga os Líderes” (ou “Eclipses de Cimento”. 

Vale MUITO a pena conferir no link http://issuu.com/cmnteclps/docs/cmnt_berlin?e=2018665%2F5820042