Está na hora de parar de se enganar e começar a inovar

O brasileiro não é inovador por natureza. Nunca foi, a despeito do tanto que se inflam os peitos ufanistas ao bradar, arrogantes e orgulhosos, sobre a criatividade nacional.

Em todas as listas das mais disruptivas invenções da humanidade, do transístor à penicilina, passando pela lâmpada, pelo motor a combustão, pelo computador e pela Internet, apenas uma é creditada ao país: o avião. Ainda assim há ressalvas, como o embate sobre o detentor real da invenção (se os irmãos Wright ou Santos Dumont) e o fato deste último ter se educado e passado boa parte da vida na França (de onde, inclusive, decolou o 14-Bis).

O país das “adaptações”
De genuinamente brasileiras temos poucas criações – mas muitas “adaptações” que nos ajudaram a atravessar tempos mais difíceis. Se não inventamos o motor, inventamos o sistema biocombustível (ou pelo menos uma empresa alemã, a Volkswagen, o fez em nossas terras); se não descobrimos como explorar petróleo, avançamos na tecnologia de exploração em águas profundas; se não inventamos a democracia, sistematizamos o processo eleitoral por meio da urna eletrônica como maneira de minimizar fraudes.

Em outras palavras: se não criamos tantas coisas que mudam a mundo, somos especialistas em adaptar as grandes invenções do planeta para a nossa realidade. E mudar esse foco que há tanto tempo nos caracteriza é justamente maior desafio que temos na caminhada em direção a um horizonte melhor.

Afinal, adaptar invenções a nichos locais significa focar o nosso olhar para dentro, para o mercado brasileiro e todas as suas peculiaridades, dificuldades, regionalidades. Não que isso seja, necessariamente, um problema: temos um mercado indiscutivelmente gigante dentro do Brasil.

Só que esse “olhar para dentro” acaba trazendo, como efeito colateral, uma espécie de cegueira em relação a oportunidades além das nossas fronteiras. Explorar oportunidades no mercado nacional é um desafio tão sui generis, tão complexo e árido, que o empreendedor brasileiro acaba concentrando todas as suas energias em sobreviver localmente, ficando sem tempo de pensar globalmente.

Apenas para ilustrar: fora o casamento catastrófico entre uma carga tributária esdrúxula com uma taxa de juros trágica, há ainda uma inexplicável burocracia que, por exemplo, impõe um prazo médio de concessão de patentes para novas invenções de 9 anos (contra 3,5 nos EUA e 3 na Coreia do Sul).

Ao menos legalmente, é constrangedoramente mais fácil, portanto, exportar os nossos inovadores.

O olhar para dentro e a crise
Ainda assim, enquanto o mercado brasileiro estava crescendo continuamente, mesmo que em percentuais tímidos, essa oferta interna era naturalmente acomodada pela demanda. Só que, quando uma crise de maiores proporções mexe justamente na demanda, acabamos em uma espécie de beco sem saída, à mercê da capacidade do governo em contorná-la com alguma solução cujo horizonte, perdoem-me o pessimismo, parece extremamente distante.

O raciocínio chega a ser óbvio: se a maior parte dos nossos esforços foi focada em desenvolver soluções absolutamente customizadas para a nossa realidade, como sobreviver e crescer em um contexto onde essa mesma realidade deixa de demandar?

De colônia a metrópole
A resposta é igualmente óbvia: deixando de adaptar e passando a inovar. Perde destaque, portanto, o “jeitinho brasileiro”, que faz tanta coisa funcionar bem aqui, e ganha destaque o processo de criação de soluções efetivas, disruptivas, capazes de colocar empresas brasileiras na vanguarda de um mundo externo que, ao menos hoje, cresce (e compra) a ritmos invejáveis.

Pede destaque o investimento em pesquisa: no Brasil, investimento efetivo em Pesquisa & Desenvolvimento ainda gira em torno de 1,2% do PIB – metade da Alemanha, França, Japão e Coreia do Sul. Pede destaque a abertura de frentes mais palpáveis em regiões com grandes mercados como Estados Unidos e Europa, o estreitamento de acordos de transferência de conhecimento e todo o fomento de uma mentalidade de abertura de fronteiras de nossas empresas. Pede destaque a inversão da lógica a que estamos habituados desde sempre, partindo do princípio óbvio de que há mercados mais pulsantes (e muito mais fáceis de serem trabalhados) do que o interno.

Pede destaque a inserção do Brasil no cenário da inovação e empreendedorismo mundial em todos os níveis, das grandes ideias de pequenas empresas às pequenas (porém altamente impactantes) ideias de grandes empresas.

É preciso tirar de cena, já com muito atraso, a mentalidade de colônia (que adapta, de forma impositiva, as empreitadas dos mais desenvolvidos à sua realidade) e trocá-la pela mentalidade de metrópole, ajudando a ditar os rumos efetivos do mundo.

E isso não depende só do governo: depende de cada uma das empresas e de cada um dos profissionais que pulsam dentro delas.

Empreendedorismo, inovação e crise

Podemos comemorar: a crise na qual o Brasil está mergulhado até o último fio dos cabelos pode ser uma das melhores coisas que já aconteceram em sua história recente.

Só em 2014, a indústria fechou 216 mil postos de trabalho, segundo a FIESP. Os impostos sobre a folha de pagamento cresceram 150%, a inflação acumulada está perigosamente acima da meta, o dólar está quase na altura da órbita terrestre, os níveis de corrupção ultrapassaram os limites do tragicômico e o governo parece tão acéfalo na sua capacidade de corrigir os problemas que ele mesmo criou que nem os mais otimistas dos cidadãos conseguem abrir um sorriso quando perguntados sobre o Brasil.

E o que se há de comemorar com um cenário tão dantesco como esse?

A reação natural a crises
Na vida, nem tudo pode (ou deve) ser visto com olhares funestos: a iniciativa privada brasileira, afinal, sempre sobreviveu e cresceu a despeito de governos que, historicamente, parecem se dedicar com afinco a atrapalhar qualquer tipo de ação empreendedora. Em outras palavras: empresários de todos os portes já desenvolveram uma espécie de couraça que os faz resistentes a pessimismos econômicos. Mais que resistentes: crises sempre foram encaradas como desafios a serem transpostos para que a mera sobrevivência fosse garantida.

Como se reage a crises agudas como a que estamos vivendo – principalmente quando o desemprego bate à porta, deixando a capacitação técnica sem aplicação prática no mercado tradicional? A resposta chega a ser óbvia: empreendendo!

E como se empreende em um país com juros ridiculamente altos, crédito tão escasso e problemas sociopoliticos tão revoltantes? Inovando, claro!

De alguma maneira, por mais mal que uma crise poderosa possa impor sobre as vidas das pessoas, esta deve deixar um legado de longo prazo importantíssimo: a força de um perfil de empreendedor que usa a inovação como principal ferramenta de sobrevivência mercadológica – algo que, no futuro, tem potencial para fazer as empresas brasileiras alçarem voos muito mais altos no cenário mundial.

O brasileiro é um empreendedor de sucesso?
Mas antes de olhar para o futuro, cabe se quebrar alguns paradigmas importantes. Em quase todos os círculos de empresários, as qualidades do empreendedor brasileiro são enaltecidas: palavras como criatividade e flexibilidade, por exemplo, são sempre associadas ao perfil que vive no imaginário popular. Mas imaginário, às vezes, é apenas isso: fruto da imaginação.

Sim: a vontade de empreender, no Brasil, é muito forte. Em uma pesquisa recente feita pela Endeavor, 76% dos entrevistados disseram ter vontade de abrir seus próprios negócios – um número muito maior, por exemplo, que nos Estados Unidos (51%) e União Europeia (37%).

Querer, no entanto, não é poder. De acordo com estudo feito pela Fundação Dom Cabral, 1 em cada 2 startups brasileiras fecha as portas antes dos quatro anos de vida. Pode haver vários motivos para isso – incluindo, provavelmente com algum destaque, o clima de cangaço no qual profissionais são empurrados no instante em que decidem abrir os seus negócios. Mas há mais motivos por trás de tantos casos de insucesso.

Somos inovadores?
Na mania quase genética que o brasileiro tem colocar a culpa exclusiva por seus próprios fracassos em terceiros – neste caso, o governo – acaba-se esquecendo de se fazer uma autoanálise muito mais útil. Afinal, nós realmente sabemos inovar nos produtos e serviços que lançamos ao mercado? Somos mesmo bons assim quando comparados a outros países?

Aparentemente, não: de acordo com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), apenas 11% dos próprios empreendedores brasileiros consideram-se efetivamente inovadores.

Triste número que reflete uma situação de estagnação criativa fruto, ironicamente, de mais de uma década de crescimento econômico morno, porém contínuo. Afinal, se o país passou tanto tempo no mesmo ritmo independentemente de qualquer esforço que se fizesse, para quê se dar ao trabalho de fazer algum esforço a mais? Nos enterramos assim em uma mesmice tediosa, travada e, no fim, terrível para o próprio país.

É hora de acordar
Esse período que tanto beneficiou o comodismo empresarial, no entanto, acabou. Na nova realidade que temos adiante, enfrentamos a mesma infraestrutura paquidérmica de sempre – mas com menos dinheiro, mais competição, mais inflação e muita, muita incerteza.

Para sobreviver, a vontade de empreender agora precisará vir acrescida da noção de que não há como ter sucesso sem inovar – algo que os brasileiros parecem já entender. Uma análise de volume de buscas feitas no Google, por exemplo, mostra que há uma simbiose gritante entre pesquisas por “empreendedorismo” e “inovação”, como pode ser visto abaixo:

graficointeresse

E o que isso nos diz?

Que, no longo (ou mesmo médio) prazo, o Brasil tende a parir empresas, produtos e serviços muito mais inovadores do que os que estamos acostumados. Para o mercado interno, isso significa que se estará plantando as bases de uma economia criativa muito mais sólida, com geração de empregos de primeira linha, e instaurando um tipo de competição mais pautada pela inteligência do que pelas regras básicas (e já um tanto quanto retrógradas) de oferta e demanda.

Externamente, isso significa a entrada com muito mais força do mercado brasileiro em áreas que vão além das commodities, possivelmente posicionando o país em um ringue mais valioso para as forças que realmente movem a engrenagem socioeconômica: os pequenos e médios empresários.

Claro: quando se fala de Brasil, é sempre importante deixar uma ressalva quanto às constantes tentativas do governo de sufocar o setor criativo com impostos, burocracias e barreiras as mais diversas.

No entanto, considerando que nada de cataclísmico ocorra ao ponto de transformar uma crise aguda em uma falência geral, nós efetivamente temos tudo para sair desse momento com uma nova mentalidade e uma força competitiva que jamais tivemos no passado.

Que seja essa uma razão para sofrermos menos com o presente e olharmos para o futuro com um pouco mais de otimismo.

5 ideias que nos apontam para a autossuficiência pessoal

Gosto sempre de pensar que a melhor maneira de prever o futuro é olhar para o presente e, a partir daí, retirar tudo o que não fizer sentido.

Inovar, afinal, não é criar novas necessidades: é aprimorar a forma com que as mesmas necessidades de sempre são supridas em nosso cotidiano.

Mas isso não significa que a imaginação pura seja a única ferramenta que tenhamos para trabalhar e, portanto, criar novos produtos e serviços mais adequados às demandas de tempos que ainda estão por vir. Há também uma outra de igual importância: a simples observação do que empreendedores mundo afora estão fazendo.

Afinal, nunca estamos sós na tarefa de inovar: somos apenas parte de uma super competição por novos nichos que, todos os dias, inunda o mercado com ideias e propostas. É claro que sempre haverá ideias ruins e empreendimentos que naufragarão em seus primeiros meses de vida – mas, de uma maneira geral, uma análise simples dessa somatória generalizada de iniciativas consegue apontar, com um bom grau de confiança, os rumos do mercado.

E o mercado parece caminhar em direção a uma espécie de autossuficiência individual, eliminando ao máximo qualquer tipo de dependência entre duas ou mais pessoas que possa atrapalhar, de alguma forma, o nosso sagrado cotidiano.

Exemplos não faltam, mas selecionei 5 que estão chamando bastante atenção nos últimos dias:

Autossuficiência na moda
Quando o e-commerce surgiu, o mercado da moda (bem como muitos outros) entrou em uma espécie de pânico relacionado à quebra da cadeia tradicional formada por indústrias e suas revendas. Afinal, uma venda direta ao consumidor transformaria a intermediação em coisa do passado, deixando o cliente com a comodidade de comprar sem sair de casa e quebrando a própria essência do modelo de intermediação. O medo da obsolescência do modelo tradicional se mostrou coerente e, embora as previsões mais fatalistas não tenham se realizado, muita coisa mudou nesse mercado.

O próprio conceito de venda direta, aliás, deu gás a possibilidades até então impensáveis como a customização de produtos que vão, por exemplo, de tênis personalizados da Nike a criações colaborativas de estampas da Camisetaria.

O resultado foi óbvio: quanto mais opções se dava ao consumidor, mais ele se transformava em criador da sua própria moda.

Mas e se o próprio consumidor pudesse estampar o seu estilo em peças inteiras de criação própria, que levem a sua personalidade individual como marca? Isso até poderia ser algo complexo demais para os dias de hoje – mas já há investidas nessa área que merecem atenção.

A OpenKnit, por exemplo, soma impressão 3D a facilidades da Web e transforma cada consumidor em um designer de moda. Ainda há um longo caminho a ser trilhado? Sem dúvidas. Mas passos significativos já estão sendo dados.

Autossuficiência hídrica
A crise da água no sudeste brasileiro ainda está longe de terminar – e não são poucas as iniciativas, seja de marketing ou de serviços, para criar uma consciência de sustentabilidade no consumidor.

E se as próprias pessoas pudessem produzir o volume de água que consumissem, ficando independentes do governo ao menos em uma das suas necessidades mais básicas?

Em escala, o próprio conceito ainda está longe de ser viável – mas já há algumas ideias bem interessantes que abrem caminho para todo um novo mercado. É o caso da Fontus, projeto criado por um designer industrial austríaco e finalista do prestigiado James Dyson Award. Seu produto é disruptivo: uma garrafa que transforma a umidade do ar em água potável.

Já imaginou o que algo assim pode fazer pelo meio ambiente?

meioambiente

Autossuficiência em diagnósticos médicos
Doenças não costumam marcar hora – e, às vezes, os seus sintomas podem surgir depois de um tempo longo demais para que medidas mais importantes sejam tomadas.

E se uma ferramenta de bolso, do tamanho de um iPod, já existisse e permitisse a detecção de centenas de doenças – incluindo males como pneumonia, câncer e ebola? Ainda há um longo caminho para que o rHealth chegue ao mercado, mas a mera noção de que algo assim é possível beira o revolucionário.

Autosuficiência de baterias
Quem nunca ficou sem bateria no celular ou notebook justamente naquele momento mais crítico do dia? Normalmente, aliás, a Lei de Murphy garante que esse momento ocorra quando se está longe de tomadas ou outras opções de carga.

Um novo produto, o AMPY, financiado por meio do crowdfunding, muda isso. Basicamente, trata-se de um pequeno dispositivo que capta a energia gerada por cada movimento físico que seu portador fizer, garante o seu armazenamento e a “entrega”, via USB, diretamente para seu smartphone.

O AMPY se soma a toda uma série de ideias focadas em usar o corpo humano como gerador de energia para si mesmo e para a sociedade – a própria Maratona de Paris já usou pisos especiais em um trecho e conseguiu captar energia suficiente para iluminar toda uma pequena cidade por um dia inteiro.

Imagine onde iniciativas assim podem chegar.

Autossuficiência na detecção de comida estragada
O problema com comida estragada é que a certeza da (falta de) qualidade costuma vir tarde demais. Claro: pode-se fazer uma espécie de triagem mental pelo aspecto de um restaurante ou se basear em comentários de amigos – mas dificilmente essas abordagens podem ser consideradas infalíveis.

A não ser, claro, que você tenha talheres próprios munidos de sensores que, instantaneamente, detectem problemas na qualidade da comida. Eis os Smart

Chopsticks, da gigante chinesa Baidu, que abre caminho para uma nova revolução na higiene alimentar pessoal.

Se quiser que algo seja bem feito…
Os exemplos acima são apenas cinco dentre os tantos que aparecem todos os dias para resolver um dos maiores problemas que a humanidade já teve: depender da boa vontade, competência ou capacidade técnica dos seus pares. Pare e pense: praticamente todos os nossos maiores problemas são resultado direto de erros de interpretação ou incapacidade de execução, seja técnica, cultural ou política, de outras pessoas.

A partir do momento em que se diminui a dependência de fatores humanos externos e se insere no dia a dia ferramentas que permitem essa espécie de auto suficiência, no entanto, tudo muda.

De pequenas comodidades a grandes saltos na gestão da saúde, todas essas (e muitas outras) iniciativas parecem traduzir um só pensamento: a melhor maneira de exigir que algo seja bem feito é fazendo-o você mesmo.

Como o livro sobreviverá à Era da Informação?

Quando discutimos a Web e todo o mar de tendências que costuma pavimentar o caminho até o futuro, normalmente acabamos desconsiderando que estamos falando de conhecimento. Afinal, seja entrando em portais, trocando experiências em redes sociais ou mesmo comprando online, o fato é que o santo graal da era moderna é justamente o acesso, de alguma forma, a qualquer tipo de conhecimento que possa beneficiar as nossas vidas tanto no âmbito individual quanto coletivo.

E isso é especialmente curioso quando percebemos que, de todas as modalidades de conhecimento que tem a tecnologia como aliada, a que menos evoluiu foi justamente o livro.

Sim: há uma discussão já de longa data no mercado editorial sobre o embate entre livros impressos e livros digitais – sendo estes representados, ao menos em tese, por arquivos em aparelhos como o Kindle que fazem de tudo para emular a mesma sensação do seu predecessor analógico: o papel. E esse é o ponto mais irônico de todos: o ebook, tal qual o conhecemos, nada mais é do que uma digitalização monótona da palavra impressa, carregada de restrições a formatos e a usos mais concretos de tecnologia.

A pergunta que surge é simples: o futuro do livro realmente está em uma tediosa discussão sobre o seu formato?

Certamente que não.

Aliás, de imediato, já é possível citar três itens muito mais relevantes para todo esse debate:

1) O Kindle deve perder a sua hegemonia e o mundo dos ereaders deve ruir
Em um mercado tão dominado pela Amazon, uma previsão como essas corre o risco de ser confundida com um devaneio lunático. Mas pare e pense: o Kindle, bem como praticamente todos os ereaders, é focado em reproduzir, digitalmente, uma experiência absolutamente analógica de leitura. Ele não permite o uso de apps, a acoplagem de funções mais interativas, uma navegação mais em rede – e esses pontos são pre-requisitos, hoje, para qualquer nova experiência de leitura. Para sobreviver, o Kindle precisará se transformar em um tablet ou, eventualmente, abrir mão do hardware e se focar em sua própria app, que já roda (embora ainda cheia de limitações) em produtos como o iPad.

Não dá para dizer qual o caminho que a Amazon escolherá – mas dá para afirmar que ela precisará escolher entre um deles.

(A propósito, desde o primeiro trimestre de 2013 já se começou a registrar queda – de expressivos 23% – no uso de ereaders como o Kindle em relação a tablets para a leitura de livros.)

2) Haverá cada vez menos best sellers no mundo
A autopublicação já é uma realidade incontestável no mercado tradicional. Apenas o Clube de Autores, com 5 anos de vida aqui no Brasil, já contabiliza 10% do volume anual de publicação de novos títulos em todo o país. O que isso significa?

Que o modelo tradicional de editoras selecionarem autores e livros a dedo, entregando ao mercado um volume parco de opções, chegou ao fim.

O resultado da era da informação é uma multiplicidade praticamente incontável de demandas por conteúdo de maneira desalinhada à capacidade de entrega do mercado tradicional. Exemplificando: há, hoje, pessoas interessadas em temas ultra específicos como “o impacto da física quântica nas nossas decisões cotidianas”. Só que o número de pessoas em um nicho como esse é mínimo, aquém do suficiente para viabilizar qualquer tipo de publicação de livro em alta escala. No passado, isso significaria que qualquer interessado no assunto ficaria a ver navios, tendo a sua demanda não correspondida por nenhuma oferta prática.

Hoje, no entanto, esse modelo mudou. Um livro sobre esse tópico pode ser publicado diretamente (e gratuitamente) pelo autor e comprado pelos que se interessarem, sendo entregue de forma física (impresso um a um) ou digital.

Mas o maior impacto desse modelo, que tem crescido no mundo todo, é justamente a “nichificação das demandas”. Cada vez mais, demandas mais peculiares encontrarão ofertas perfeitas para supri-las, ampliando uma cauda longa editorial que era ignorada até poucos anos.

Não é que nunca mais tenhamos obras como “50 Tons de Cinza”: sempre haverá algum tipo de oferta que consiga atender a demandas mais generalizadas, transformando-se em um best-seller. Mas, no mar de novas ofertas que chega para competir por um público cujo tamanho cresceu relativamente pouco, a oportunidade de vendas explosivas de um único título é certamente menor na medida em que nichos e micronichos encontrarem livros feitos sob medida para atendê-los.

3) O livro deixará de ser livro
Enquanto se debate sobre formatos (impresso vs. digital), o mercado caminha para uma mudança muito mais estrutural. Sim, ainda há uma predominância de mais de 90% na venda de impressos em relação ao digital. E, sim, é praticamente inconcebível desconsiderar que o futuro tende a ser digital. Mas até que ponto essa evolução deve manter as mesmas características de um livro tradicional? Até que ponto a diferença entre livro impresso e ebook será apenas a falta de papel e tinta e uma maior capacidade de armazenamento de conteúdo?

Pelo que temos visto, o livro do futuro deve permitir acesso a discussões praticamente em tempo real entre seus leitores, a entrevistas com autores ou especialistas no assunto, a novos artigos ou livros relacionados, a quizzes, testes, aplicativos. Ou seja: um livro será muito mais do que uma narrativa linear com começo, meio e fim: ele será uma espécie de árvore de conhecimento, ponto a partir do qual todo um tema se desenrolará de maneira pouco previsível, descontrolada.

Um livro, portanto, conseguirá de fato emular o conceito de conhecimento nos nossos dias atuais ao se transformar em algo mais denso, livre e absolutamente dinâmico.

E, com isso, ele deixará também de ser livro. Ao menos da maneira que o conhecemos.

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KSP: uma missão espacial real viabilizada por milhares de gamers

O lado mais interessante de um festival como o SXSW é a diversidade de assuntos.

Estava participando de um papo sobre storytelling e redes sociais, minutos depois fui para um debate com especialistas da NASA sobre um programa de caça a asteroides que tem como grande protagonista um game.

Como? O Kerbal Space Program (KSP) é um jogo desenvolvido em conjunto com a NASA que permite aos usuários criar naves e participar de missões ultra realistas envolvendo a exploração de asteroides. Todo tipo de problema é simulado no game: de ajustes técnicos em naves a treinamentos de tripulantes.

Até aí, é um game como qualquer outro. Mas a diferença está justamente no tipo de relacionamento entre a NASA e os jogadores por conta do realismo e do estilo dos desafios disponibilizados.

Por exemplo: uma das missões era resolver um problema técnico das naves envolvendo a manutenção da capacidade de seus painéis solares durante os momentos em que elas orbitavam distantes da luz do sol.

Esse era um problema real que a NASA estava buscando resolver há algum tempo sem sucesso – e crucial para a viabilidade de uma missão tripulada, por exemplo, a um asteroide.

O resultado? Em três semanas, a comunidade de gamers bolou uma solução extremamente criativa que acabou sendo testada, aprovada e implementada pela agência espacial.

Assim, de missão virtual em missão virtual, o governo americano espera conseguir inteligência e dados suficientes para viabilizar uma exploração real de um asteroide, por astronautas, agendada para 2022.

A pergunta que fica é: quem disse que boas ideias e soluções demandam um conhecimento aprofundado sobre uma determinada área? Se tem uma coisa que o KSP comprova é que excesso de conhecimento especializado pode inclusive gerar vícios que acabam atrapalhando um processo criativo eficiente.

Inovar, no final das contas, depende principalmente do casamento entre motivação e ocasião, esta última formada por um ambiente absolutamente heterogêneo, caótico e, acima de tudo, definido pela presença concentrada do máximo possível de áreas de conhecimento.

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Project Empire e a reinvenção do conceito de narrativa

A maior parte das histórias do mundo, sobre qualquer que seja o tema, é absolutamente tridimensional. Por mais que nos esforcemos para criar uma linha do tempo em nossas mentes, para estabelecer começo, meio e fim, tudo o que vemos tem impactos absolutamente caóticos que gera outras histórias periféricas a cada instante.

Por exemplo: enquanto profissionais de mercado palestram aqui no SXSW, todos os indivíduos da plateia assumem comportamentos diferentes: uns assistem, mudos; outros fazem anotações; outros escrevem artigos; e outros simplesmente pensam na vida. Para cada um dos participantes há um efeito único gerado pela palestra – o que significa que contar a sua história de verdade inclui, de alguma maneira, captar todos esses efeitos.

Embora isso seja um conceito ainda complexo demais para ser adotado por muitas das marcas, um projeto específico – o Empire – fez uma tentativa absolutamente válida,  lançada recentemente.

O tema central era o impacto da colonização holandesa em todo o mundo – desde os locais mais remotos, como o Sri Lanka, até a própria cidade de Amsterdam.

Mas como responder a uma questão tão ampla como os efeitos atuais do imperialismo daquela que foi uma das maiores potências ultramarinas do planeta? E transmitindo isso de maneira adequada, completa, para uma audiência igualmente distribuída pelo globo?

A resposta encontrada pelos diretores foi inusitada: trabalhar as narrativas simultaneamente sob um ponto de vista artístico, efetivamente permitindo que a plateia fosse bombardeada por conteúdo a ponto de forçá-la a mergulhar a fundo no universo cinematográfico.

O “filme” foi dividido em quatro camadas:

1) Instalações artísticas
Nada de cinema: para ver o filme em sua forma originalmente concebida, o usuário precisaria entrar em uma das quatro caixas pretas espalhadas pelo mundo (infelizmente, sem incluir o Brasil no roteiro). Na prática, eram ambientes fechados, com monitores por todos os lados rodando histórias de maneira simultânea, tendo apenas o áudio intercalado para viabilizar o entendimento.

Por exemplo: enquanto um morador de Ghana contava um pouco da sua vida em um monitor, uma pernambucana falava sobre o dia a dia no sertão. O elo entre ambos estava no passado, por serem fruto de ex-colônias holandesas – e esse tipo de narrativa multifacetada acabou permitindo que a própria plateia ligasse um ao outro por meio dos seus hábitos, costumes e crenças, entendendo mais a fundo os detalhes e sutilezas do legado colonial. Do ponto de vista de arte, poucas coisas poderiam ser mais revolucionárias para o cinema.


2) Adaptação online

O problema com instalações físicas, no entanto, é que elas são limitadas, demandando espaço e exigindo que o usuário se locomova para poder assistir. Foi desse problema que nasceu a segunda camada do projeto: a versão online, no www.empireproject.eu. Nele, o próprio usuário consegue reproduzir a sensação das narrativas simultâneas em seu computador por meio de uma UX absolutamente inusitada, inovadora. Vale a pena navegar, nem que seja para passar pela experiência diferenciada em um site feito para contar diversas histórias (que compartilham apenas a base original) simultaneamente.

3) Livro
Todo o projeto, da idealização às histórias, foram registradas em um livro. O objetivo foi claro: documentar o documentário da maneira mais linear possível, deixando um legado mais prático para todos os que quiserem entendê-lo melhor. Nas palavras dos diretores, o livro é a história do projeto deixada à disposição de gerações futuras que quiserem entendê-lo. É curiosa a forma com que diversas tecnologias de última geração foram utilizadas para realizar o projeto – mas que o bom e velho livro foi escolhido como meio para imortalizá-la no tempo.

4) Materiais complementares
Cada vez que um projeto diferente como esse sai, uma tonelada de reportagens, artigos (como esse), fotos e filmes do making-of é gerada. Para os idealizadores, todo esse material também compõe a narrativa por um princípio óbvio mas, não obstante, ignorado por quase todos os diretores de cinema ou autores: uma história inteira só pode ser contada de verdade quando se soma sua linha temática central a todos os efeitos que ela gerou em quem assistiu.

Todo o caos iniciado pela ideia de se criar uma história feita pela soma de narrativas simultâneas, acaba fazendo parte dessa mesma história, fechando um ciclo poderoso que pode ajudar a desenhar as novas fronteiras do storytelling.

E, se storytelling é o grande tema da SXSW, olhar mais atentamente iniciativas que fogem do lugar comum é certamente algo que deve ser feito por todos os profissionais de comunicação. Pode ser que um modelo como o do Empire fracasse no longo prazo pela sua complexidade? Sim, pode. Mas, ainda assim, não se deve esquecer que inovação é também gerada a partir de uma multiplicidade de tentativas e erros – e que apenas conhecê-los já é um grande passo.

O que fazer agora? Abrir uma outra janela no browser e mergulhar no universo dowww.empireproject.eu. Boa viagem!

Storytelling: 5 dicas para o uso corporativo do Instagram

O uso que as mais variadas empresas fazem do Instagram é quase igual: tirar (ou usar) algumas fotos semanais que fortaleçam, ao menos teoricamente, a imagem ditada pelos seus manuais de marca, integrar tudo ao Facebook e ponto final. São raros e louváveis os exemplos de quem faz algo diferente.

Fazendo uma comparação direta, é como criar um post no Facebook apenas citando, aleatoriamente, palavras-chave corporativas relevantes. O impacto prático que isso teria no usuário? Mínimo.


Talvez a marca consiga um punhado de seguidores pela qualidade das imagens; talvez gere alguns comentários úteis na integração da rede com o Facebook; talvez algum esforço de mídia consiga uma arrancada enganosa da rede em meio a seu mix social. Mas, em qualquer que seja a situação, essa estratégia tende ao fracasso certo por um simples motivo: a falta de enredo.

O Instagram não é uma rede de outro universo, que se guia por leis diferentes das que regem o relacionamento entre empresas, usuários e amigos. É apenas mais uma rede com o diferencial de ter o seu modelo unicamente focado em mídias visuais – principalmente fotos.

E o que está ocorrendo com todas as marcas, em todos os outros meios e em outras redes? Cases de sucesso se amontoam na medida em que elas passam a adotar uma estratégia de contar e compartilhar histórias. Na medida em que elas passam a narrar casos ao invés de “cuspir” cenas.

Vamos a exemplos práticos:

– Se você é uma empresa de bebidas, por que não usar o Instagram para narrar festas ou eventos, nos mais variados e curiosos detalhes, que estão ocorrendo sob a sua marca?
– Se é uma construtora, porque não narrar a construção de um empreendimento, incluindo uma mescla de histórias dos operários, dos planos, das expectativas dos primeiros compradores em receber as chaves?
– Se é um time de futebol, por que não narrar jogos inteiros a partir de imagens?
– Se é um veículo, por que não utilizar a rede de maneira ultra intensiva para contar todas as suas notícias mais importantes, empacotadas em “especiais visuais”?

Contar histórias interessantes pode não ser uma tarefa simples, mas é certamente facilitada quando se tem à disposição imagens quentes, filtros que profissionalizam qualquer foto e uma comunidade de seguidores interessados. No entanto, o formato de narrativa utilizado em tantas redes parece ser ignorado no Instagram por algum motivo qualquer – para o prejuízo tanto de empresas quanto de seus seguidores.

E, mesmo sem haver uma receita de bolo única, existe um conjunto de (pelo menos) cinco dicas importantes que, se seguidas, podem mudar decisivamente a presença de marcas no Instagram e nas suas comunidades de usuários como um todo. Vamos a elas:

1 – Histórias tem começo, meio e fim. Uma boa estratégia para o Instagram deve incluir uma somatória de casos, de enredos a serem explorados pelos fotógrafos (ou contadores de histórias visuais) da marca. Monte um cronograma de histórias relativamente curtas com base em ações da empresa e administre uma estratégia de campo.

2 – Histórias se desenrolam, fluem em seu próprio ritmo. Não se prenda a uma regra de volume de postagens diários: deixe o próprio enredo ditar o ritmo. Contar uma história por meio de fotos significa clicar todo o processo: lugares, pessoas, sorrisos, lágrimas, cenas. E, embora caiba às fotos a responsabilidade de contar a história de verdade, pequenos textos de apoio e hashtags ajudarão o usuário a entender o que estão vendo e a se posicionar cronologicamente no “conto”.

3 – Narrativas tem personalidade. Se você quer se engajar com o seu usuário, então é fundamental falar a mesma língua que ele – o que inclui, normalmente, uma informalidade natural, respostas ágeis e hashtags práticas que ajudem a contextualizá-lo.

4 – Fuja de bancos de imagens. Pessoas sorrindo em panos de fundo perfeitos podem funcionar em comerciais de margarina, mas não convencem ou engajam usuários em redes sociais. Não há como criar histórias originais sem usar imagens próprias, ideais justamente pelas suas imperfeições técnicas.

5 – Aproveite a integração social. Por pertencer ao Facebook, a integração do Instagram com a maior rede social do mundo – e a mais fácil de se somar hordas de fãs – é plena. Conecte uma com a outra sem medo de repetição de conteúdo. O que importa, afinal, é a história como um todo – não uma ou outra foto isolada. Usar o Facebook é o mesmo que aproveitar um excelente canal de distribuição.

A palavra-chave na construção de engajamento com usuários, dita e repetida incontáveis vezes aqui no SXSW, é narrativa.

E, se é mesmo verdade que uma imagem vale mais do que mil palavras, o Instagram pode ser a rede ideal para engajar os usuários em uma estratégia de storytelling simples, direta e, acima de tudo, absolutamente viciante.

Como prever o futuro sem blábláblá

Eventos relacionados ao mercado interativo têm sempre a palavra “tendência” permeando praticamente todas as palestras.

Se informação é a moeda mais valiosa que existe, então prevê-la passa a ser uma espécie de bilhete premiado de loteria. E não faltam estudos e esforços para isso, de análises empíricas de casos isolados a avaliações de estatísticas comportamentais com alta densidade.

O curioso, no entanto, é que todos os estudos – alguns demonstrados aprofundadamente aqui no SXSW – parecem mais focados em comprovar uma hipótese pré-formatada do que em chegar a hipóteses novas.

O livro impresso deve acabar? Pergunte a uma gráfica e a resposta será não; pergunte a uma fabricante de tablets e a resposta será sim. Ambas, aliás, devidamente municiadas de pilhas e mais pilhas de pesquisas.

A imprensa tradicional está com os dias contados? Pergunte a um portal de conteúdo – ou mesmo a um jornal – e eles dirão que não. Pergunte a uma das grandes redes sociais, habituadas a ver conteúdo jorrar nas telas por milhões de usuários anônimos, e elas não terão dúvidas. Aqui, também, há evidências para todos os lados (menos para jornais, claro).

Como escolher um caminho, portanto, quando se está preso em um cruzamento com indicações consistentes para ambos os lados?


Preveja o futuro você mesmo

A resposta pode ser mais simples do que parece. Faça um exercício simples: ignore pesquisas, ignore suas próprias crenças semi-religiosas relacionadas a preferências pessoais, e formule a mesma pergunta para qualquer situação: o que não faz sentido na forma com que as coisas estão hoje?

Traduzindo e, exemplificando:

O livro impresso deve acabar? Sim, deve – pelo simples motivo de que não faz sentido algum dependermos de algo físico, frágil de difícil distribuição para absorver conhecimento. Isso não significa que ele acabe amanhã, mas significa que passará por um processo consistente de mutação, digitalizando-se cada vez mais e incorporando pelo caminho outros elementos como vídeos e animações interativas. Por quê? Porque faz sentido.

A imprensa tradicional está com os dias contados? Sim, sem dúvidas – o que não significa que ela deva ser subitamente extinta. O seu papel, no entanto, é que mudará abruptamente: ao invés de produtora de notícias, ela virará agregadora e curadora de conteúdo gerado por usuários. Por quê? Porque há uma abundância de conteúdo na mesma medida que há carência de crivos editoriais, de credibilidade em cada post sendo feito em redes, blogs ou site.

Redes sociais devem acabar? Da forma que estamos acostumados a ver, sim. Não faz sentido irmos a um endereço Web para nos relacionarmos com quem já conhecemos. Ao contrário: é muito mais óbvio montarmos (e desmontarmos) nossas redes sociais próprias com quem quisermos e pelo tempo que desejarmos. E há inclusive uma prova bem concreta de que isso já começou a acontecer: o WhatsApp.

Apps devem acabar? Sim, já que é absolutamente ridícula a mera necessidade de fazer o download de uma versão mais encapsulada de um site. Em uma era conectada, com wi-fi de qualidade em todos os lados como deve ser o futuro próximo, apenas acessar um link e tê-lo funcionando perfeitamente bem (como uma app) deve bastar.

Carros autônomos? Claro. Novos tipos de devices como foram os tablets há alguns anos? Falta necessidade prática. Revistas? Só caso se transformem em agregadores sociais segmentados como, por exemplo, o Flipboard. Longos cursos de especialização como MBAs e pós-graduação? No modelo atual, dificilmente sobreviverão uma vez que o conhecimento de alunos e professores está cada vez mais nivelado – e que há uma abundância muito maior de informação útil fora do que dentro das salas de aula.

E assim, de mercado em mercado, consegue-se arriscar previsões futuristas com uma relativa margem de segurança gerada pelo mais simples raciocínio lógico.

Quer prever o futuro? Basta observar o presente e, despido de qualquer crença cega ou viés pessoal, tirar dele tudo o que não fizer sentido. Simples assim.

A era do super cérebro e a nova fronteira

Talvez uma das principais mudanças na comunicação digital não parta de novas apps, devices ou mesmo software desenvolvidos por Apple, Google ou qualquer grande player desse mercado.

Sendo prático, o caminho que está sendo aberto por todos eles (e todos nós que, de certa forma, participamos desse pioneirismo) já está meio óbvio e desembocando na “internetização das coisas” – um tema bastante falado aqui na SXSW e que se define pela interconectividade de praticamente tudo o que temos ao nosso alcance.

Mas o grande problema é que tudo que temos ao nosso alcance são justamente “coisas” – sejam elas xícaras de café ou smartphones de última geração. E coisas, por natureza, intermediam demanda e oferta.

Uma app de geolocalização é sempre funcional – mas depende de um computador ou smartphone para  existir; marcar um evento com milhares de amigos é absolutamente empolgante – mas impossível se não utilizar o Facebook ou qualquer outra rede social; e assim por diante. O problema da internetização das coisas é que sempre acabamos nos focando nas “coisas” e nunca no que realmente importa: as conexões buscadas por meio delas.

E, considerando que onde há miopia mercadológica, há oportunidade, qual seria a nova fronteira? De acordo com um dos painéis ocorridos no SXSW neste domingo, 09/03, ela vem da medicina e da neurociência.

Já há alguns anos pesquisadores estão navegando de maneira absolutamente fascinante pelo cérebro humano, mapeando indicadores claros, estatísticas precisas e traçando uma espécie de “demografia da responsividade cerebral” como nunca antes. Em outras palavras: o cérebro humano está sendo escaneado de maneira muito, muito aprofundada.

Qual o futuro óbvio disso?
Com um mapeamento claro, conseguiremos entender melhor quais os mecanismos que “ligam” (ou turbinam) a criatividade e/ ou geram respostas mais negativas a qualquer estímulo externo.

Ao entender melhor esses mecanismos, tratamentos que otimizem a performance humana – sejam com remédios ou com práticas psicoativas como yoga ou mesmo a boa e velha corrida – podem ser melhor operados.

Doenças psicossomáticas – como tantas as que existem – podem ser melhor controladas.

Etc. Etc.

Ok. Tudo isso é óbvio. Mas e o lado menos comentado (e mais fascinante) de toda essa revolução na neurociência?


O super cérebro

Quando se entende melhor qualquer coisa – seja um sistema operacional ou a mente humana – consegue-se trabalhar alguma forma de otimizá-la. Em alguns momentos, por exemplo, computadores podem estar tão sobrecarregados (e lentos) que é necessário usar algum programa para reorganizar a sua memória, alocando mais espaço para umas tarefas e menos para outras. Ou seja: reorganiza-se os blocos de memória de uma maneira mais ajustada às necessidades de cada usuário.

Com o cérebro – que, afinal, não passa de um supercomputador ultra complexo – isso não precisa ser diferente.

A partir do momento em que a mente humana for mais entendida, se conseguirá trabalhá-la – seja com tratamentos complexos, com manipulações genéticas ainda eticamente questionáveis ou com pílulas de balcão de farmácias – para que ela se torne um computador muito, muito mais poderoso do que já é. Alguns exemplos práticos e bastante revolucionários:

1) Um esporte de Endurance – como uma maratona – requer de atletas um tipo de resistência a dor e cansaço fora do normal. Se os mecanismos referentes a esses sentimentos fossem reprogramados, mesmo em detrimento de outros (como habilidades sociais menos relevantes) – teríamos uma geração inteira de super atletas.

2) Pesquisadores são, por natureza, colecionadores de conhecimento e transformadores de dados em estudos que moldam o pensamento humano. Da mesma forma que no caso acima, seus cérebros poderiam ter os “blocos” responsáveis pela memória turbinados – mesmo em detrimento de habilidades atléticas menos utilizadas.

Mas a revolução mesmo vem na maneira de aprender. Com toda essa otimização, poderes cerebrais que variam de conversar pelo pensamento (ou ler mentes) e absorver conhecimento por uma espécie de osmose podem ser simplesmente destrancados, transformando a realidade em um filme de ficção científica.

E estudos que já estão sendo feitos nesse sentido – alguns apresentados aqui no SXSW – indicam que esse futuro está mais perto do que se imagina.

Para onde tudo isso aponta? Para uma guinada abrupta no rumo atual do mercado. Em vez de se falar sobre a “internetização das coisas”, se falará sobre o fim da necessidade de “coisas conectadas” uma vez que todos nós estaremos neurologicamente plugados uns nos outros. Será a era da “internetização das pessoas”.

Para que celulares se poderemos nos conectar diretamente ao cérebro de terceiros – e à distância?

Para que sistemas operacionais de computadores ou nuvens de armazenamento de dados se nosso cérebro será capaz de armazenar, organizadamente e sem o risco de esquecimento, um volume incalculável de conhecimento?

Para que carros, aviões e meios de transporte de forma geral se, ao menos mentalmente, poderemos nos teletransportar e estar em outros locais, nos conectando com outras pessoas em tempo real, sem sair do lugar?

Ou, exagerando um pouco no raciocínio, para que corpo se nossa mente será tão poderosa ao ponto de nos levar a qualquer lugar sem que precisemos sequer nos mexer?

Está certo: é possível que todo esse futuro ocorra ainda em um prazo longe demais para que a nossa geração consiga testemunhar. O senso comum, aliás, nos diz que nem os nossos netos chegarão a viver em uma era como essa rabiscada acima.

Mas não nos esqueçamos de uma coisa: há 20 anos, a Internet praticamente inexistia, smartphones faziam parte do imaginário e redes sociais eram traduzidas por encontros meia dúzia de amigos em bares.

Há 40 anos, boa parte do Brasil sequer tinha TV em casa – e os que tinham precisavam escolher entre 4 ou 5 canais com programação pobre e para uma massa única. Segmentação não fazia sequer parte do vocabulário dos marqueteiros.

Ler dependia da existência de bibliotecas físicas e de livrarias próximas.

Éramos uma cultura de massa que, em menos de uma geração, se transformou em uma cultura de indivíduos por conta de mudanças radicais na tecnologia de comunicação.

Hoje, essa mesma força do desbravamento tecnológico está mergulhada na nova fronteira que é transformar o cérebro humano em um super cérebro. E eu não me surpreenderia se essa revolução viesse a galope, a tempo ainda de testemunharmos, em nossas vidas, um mundo absolutamente novo.

E que mudasse absolutamente todo o nosso mundo. De novo.

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Qual o futuro dos 6 Graus de Separação? Nem Kevin Bacon sabe a resposta

Há quase duas décadas, nascia um dos maiores fenômenos do mundo digital: os 6 graus de separação de Kevin Bacon. No começo, era uma brincadeira simples que ditava que todo ser humano estaria a, no máximo, 6 graus de separação do ator Kevin Bacon. Depois – principalmente com as redes sociais – isso acabou virando uma lei generalizada: todo ser humano estaria a, no máximo, 6 graus (ou pessoas conhecidas) de separação de qualquer outro ser humano.

De 1994 até 2014, muita coisa mudou no mundo. Principalmente no mundo digital, que passou a contar com um zilhão de novas redes e ambientes colaborativos aproximando mais (ao menos em tese) as pessoas.

Mas isso de fato aconteceu? Como está a Lei dos 6 Graus hoje?


No SXSW, o próprio Kevin Bacon apareceu para discuti-la com jornalistas, atores e profissionais de comunicação de maneira geral. Curiosamente, o painel em si não chegou a nenhuma grande conclusão – mas a soma de outros eventos parte do festival certamente deram algumas pistas importantes.

O que era apenas uma brincadeira virou verdade
Não há, exatamente, uma pesquisa científica que comprove que todas as pessoas estão, de fato, a até 6 graus de separação umas das outras. Mas há o sempre importante e infalível teste. Escolha qualquer pessoa, de qualquer lugar, e mergulhe nas conexões sociais suas e de seus amigos. Uma a uma. Dará trabalho, mas você certamente comprovará a lei.

Os graus estão diminuindo
Com Facebook, Twitter, LinkedIn, Pinterest e um universo em expansão de redes sociais, é provável que apenas um ermitão perdido nos Himalaias esteja a 6 graus de separação de você. Na imensa maior parte dos casos, os graus são menores – muito menores.

Hoje, afinal, qualquer pessoa minimamente plugada soma mais “amigos” em suas redes sociais do que qualquer outra que vivia na longínqua década de 90.

O que isso nos diz? Que conhecemos – muito embora não necessariamente convivamos com – muito mais gente. E, ao conhecê-los, temos contato direto com suas opiniões e pensamentos despejados a cada instante em todas as redes em que participam.

Há mais competição para formar as nossas opiniões da mesma forma que há menos tempo para que elas sejam formadas. O resultado? Uma espécie de metamorfose da era da informação na era da desinformação. Demandamos menos embasamento para acreditar em algo ou em alguém e não pensamos duas vezes em transmitir a opinião de terceiros com a mesma força que ela teria se tivesse partido de nós mesmos.

Não precisamos mais saber para ensinar – e, com isso, nos tornamos um povo extremamente superficial. Não que isso seja ruim ou bom: é apenas a realidade.

O problema é que não aparentamos estar exatamente satisfeitos com essa realidade – o que nos leva ao terceiro ponto.

A volta ao passado vs. o supercérebro
A cada uma das dezenas de casos contados por empresas sobre como elas se engajam com os usuários por meio de storytelling e relacionamento social aprofundado, uma coisa não saía da minha mente: nos transformamos em um povo tão solitário ao ponto de escolher uma marca para desabafar – ao invés de um amigo real?

Aparentemente, sim. Mas, partindo do princípio básico de que todas as coisas que não fazem sentido acabam desaparecendo mais cedo ou mais tarde, isso tende a mudar.

Não que marcas e usuários deixarão de se relacionar nas redes: as pessoas em si é que devem voltar a se relacionar como seres humanos de verdade. Aos poucos, a palavra “relacionamento” deve ganhar contornos mais óbvios, deixando de ser sinônimo de ter um seguidor ou ganhar um like. Por quê? Porque desabafar, expor as suas verdades mais íntimas, nunca deixou de ser algo fundamental para o ser humano – e fazer isso apenas com empresas por meio de seus sites ou redes jamais conseguirá satisfazer plenamente esse desejo.

Só que uma coisa é ter um relacionamento real com 5, 10, 50 pessoas; outra é com uma média de 500 amigos em redes sociais que todos tem.

Como conseguir tempo e poder de processamento cerebral para efetivamente se envolver em relacionamentos aprofundados em escala?

Há (pelo menos) duas hipóteses, ambas que serão validadas (ou não) apenas no futuro próximo.

@ Hipótese 1: Diminuiremos o número de “amigos virtuais” em nossas redes – algo que, de fato, está já acontecendo a passos lentos em diversas faixas demográficas. Não que uma raiva coletiva domine o mundo e faça todos excluírem as suas amizades sociais – mas uma espécie de cansaço de ter tantos amigos anônimos e irrelevantes aos poucos gerará um filtro social pessoal que, hoje, praticamente inexiste. Diminuindo o volume de amigos, conseguiremos um equilíbrio maior entre a nossa necessidade de amizades reais e a nossa ansiedade por reconhecimento quantitativo, de culto ao ego.

@ Hipótese 2: Evoluiremos como raça humana, ampliando o nosso poder de processamento cerebral nas novas gerações – algo que também já está ocorrendo – de forma a conseguir cultivar mais relações com mais aprofundamento. Quantidade e qualidade, nesse caso, virarão sinônimos por meio da mais pura evolução darwiniana.

Seja qual for a hipótese que prevalecerá, o fato é que estamos hoje em plena era da transformação e ainda sem um direcionamento claro de onde vamos parar enquanto raça humana.

E talvez só consigamos saber mesmo daqui a mais 20 anos ao conferir se os 6 graus viraram 3 ou 2 (comprovando a evolução de um super cérebro) ou se eles foram ampliados, o que significaria uma volta nostálgica a um passado do qual poucos, hoje, ainda se lembram.

Que venha o futuro incerto!

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