[Algoritmos & Robôs: Os novos públicos-alvo das marcas] A Era da Densidade

Se formar opinião é o objetivo primordial de cada indivíduo humano, é natural se supor que toda sociedade seja um amontoado difuso de ideias e ideais, cada um com seus árduos defensores buscando desesperadamente a conquista de seguidores.

Mas o que faz uma ideia ganhar de outra? O que, em suma, forma a opinião?

No passado, pelo menos, a resposta era óbvia: qualidade.

A palavra qualidade, aqui, não deve ser entendida como um punhado de argumentos “corretos”, claro: mais do que isso, ela era fruto de argumentos aprofundados – fossem eles corretos ou não.

Era essa densidade de raciocínio, indo buscar amparo em teses semelhantes e relatos comprobatórios, mergulhando a fundo na dialética hegeliana e no método científico, que dava mais peso a uma determinada ideia.

A Revolução Russa do começo do século XX, que deu origem à União Soviética, não teria existido sem o embasamento garantido por Marx em O Capital. Da mesma forma, todo o capitalismo tal qual o conhecemos não teria nascido sem A Riqueza das Nações, de Adam Smith.

Ambos os pensamentos são praticamente opostos, mas garantem ser o caminho único para a prosperidade por meio de centenas e centenas de páginas.

Há outros exemplos, claro: não haveria Revolução Francesa sem os textos de Rousseau, Revolução Americana sem as teorias de Thomas Paine ou mesmo a independência do Brasil sem os iluministas europeus cujos pensamentos acabaram chegando às nossas praias.

Mesmo se pegarmos a religião é possível isolar pouquíssimos formadores de opinião que, com base em suas capacidades incríveis de narrativa, mudaram o mundo. Acredita-se, por exemplo, que os cinco livros que compõem o Torah – base do judaísmo e início do Velho Testamento – tenham sido escritos por um único autor, Moisés. David, por sua vez, foi o principal autor dos Salmos; seu filho, Salomão, dos livros de Provérbios e Eclesiastes; e assim por diante. No todo, aliás, o Velho e o Novo Testamento somam apenas 40 autores.

Ainda assim, esses 40 autores formaram ou pelo menos influenciaram decisivamente a crença de mais da metade da população atual da Terra.

Seja via crenças religiosas ou revoluções seculares, contorções sociais dramáticas acabavam sempre sendo postas em prática a partir de correntes de pensamento iniciadas por poucos indivíduos com teorias de alta densidade.

À época, boas histórias eram histórias bem amarradas, densas, poderosas o suficiente para convencer seus leitores ou ouvintes de que eram a mais incontestável realidade.

Cabe lembrar também que estamos falando de uma era onde o conteúdo era escasso: a falta de opções culturais era tamanha que, em alguns casos, uma determinada religião tinha sucesso por ser a única explicação para os fenômenos naturais como um todo.

Em outros casos, até havia mais opções – mas em número tão pequeno que era possível, em um punhado de meses ou mesmo semanas, se aprofundar em todas as teorias disponíveis sobre religião ou modelo social para escolher a preferida.

Tempos com menos conteúdo eram tempos mais simples – embora nem sempre mais fáceis – para se viver.

[Algoritmos & Robôs: Os novos públicos-alvo das marcas] Fé: A lógica explicando o ilógico

Pode-se argumentar, no entanto, que o exemplo do terremoto está ainda no limite do campo instintivo. Já se sabia da força de um terremoto a partir de registros históricos documentados por séculos, o que os transforma em um perigo dentro do campo da observação.

Fenômenos científicos, afinal, quase sempre encontram respaldo em números e em evidências deixadas do passado.

Mas e a religião?

Em 2010, um estudo demográfico[1] feito em 230 países com base em mais de 2.500 censos demográficos apontou que 84% dos 6,9 bilhões de humanos crêem em alguma religião.

Na quase totalidade, essas religiões incluem a crença em um ou mais seres supremos, que habitam uma dimensão além da observável, com poderes absolutos e capacidade de determinar o destino tanto das pessoas quanto da natureza.

Só que ninguém efetivamente “viu” um desses seres supremos em ação. Pior: se algum ser humano aparecer se dizendo testemunha de uma profecia ou milagre, é muito mais provável que ele seja mentalmente questionado e que termine seus dias internado em um hospício.

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A diferença na crença em religiões da crença na ciência está unicamente no tipo de evidência que embasa cada uma das duas.

Para a ciência, a profundidade da matemática aliada a registros passados serve para comprovar teses. Para a ciência, opiniões se formam pela densidade dos argumentos.

Para a religião, a tradição de histórias contadas é que assume esse papel. O cristianismo, afinal, existe há mais de 2000 anos, com histórias documentadas em livros que atravessaram séculos, incontáveis monumentos erguidos em nome de Deus e uma infinidade de relatos de sagas milagrosas. Como questionar dois mil anos de histórias imortalizadas pelas vozes de gerações de sábios famosos?

Para a religião, verdades são “criadas” com base na multiplicidade de relatos, histórias e testemunhos.

As duas linhas – ciência e religião – fogem do tipo de sabedoria instintiva à qual a natureza está mais habituada.

Em ambos os casos acredita-se piamente no que não se vê. Em ambos os casos há uma ponte subjetiva, abstrata, entre a observação e a crença em si: a fé.

Fé na precisão dos números – uma linguagem criada pelo homem para entender a natureza – ou na palavra dos sábios de tempos passados.

Em ambos os casos, acrescente-se, o humanidade não economizou sangue para formar a opinião de seus pares.

Dos cientistas que queimaram no fogo da inquisição por questionarem a fé religiosa a soldados que pereceram nas cruzadas cristãs ou jihads muçulmanas, passando ainda por militantes ideológicos comunistas versus capitalistas, é possível afirmar com pouca margem de erro que todas as grandes guerras da humanidade foram sempre travadas em nome de algum ideal tão subjetivo quanto incomprovável.

Não apenas vivemos para formar opinião: também morremos em nome dos ideais subjetivos que acreditamos, algo ainda mais ilógico sob a ótica simples, digamos, de um macaco ou de um pássaro.

[1] Pew Research Center’s Forum on Religion & Public Life

[Algoritmos & Robôs: Os novos públicos-alvo das marcas] Do instinto à pura dedução lógica

O que diferencia o ser humano de um outro animal qualquer é justamente a nossa intenção onipresente de “formar opinião”.

Entenda-se por “formar opinião”, claro, a capacidade de provarmos a terceiros que alguma ideia abstrata, fora do campo observacional, efetivamente exista. Pode não parecer, mas isso exige uma capacidade de raciocínio lógico, em cadeia, extremamente complexo e sofisticado.

Animais diferentes dos humanos, por exemplo, são “movidos” essencialmente por seus instintos. Não se convence um macaco esfomeado de que há bananas a quilômetros de distância: ou ele as vê ou já sabe da sua existência de maneira quase instantânea, seja por memória ou por uma dedução baseada muito mais nos instintos e na observação do que na lógica.

Vamos a outro caso: antes de tempestades se abaterem sobre algum território qualquer, pássaros sempre pressentem o perigo e saem em revoada buscando refúgios mais seguros. A questão chave aqui é o que os faz tomar a decisão de partir céus afora: instintos interligados às suas memórias. Para ficar em apenas um exemplo: toda grande tempestade é sempre precedida por mudanças bruscas na pressão atmosférica.

Pássaros sentem essas mudanças com o próprio corpo, usam as memórias para interligá-las a um sinal de perigo e, imediatamente, tomam a atitude de fugir.

Tudo é linear e, na falta de um termo melhor, automático.

E essa é a diferença entre os humanos e os demais animais com quem compartilhamos a terra.

Humanos tem também os seus instintos, claro – mas o raciocínio lógico, a dedução, acaba ganhando proporções sempre maiores na tomada de decisão.

Não há nenhuma evidência instintiva, por exemplo, que nos indique que em algum ponto do futuro terremotos avassaladores ceifarão as vidas de sociedades inteiras. No entanto, toda uma série de pequenas observações geológicas e análises históricas, traduzidas em matemática e interpretadas por gerações de cientistas que passaram décadas se especializando no assunto, garantem que essa possibilidade é altamente concreta.

O resultado dessa cadeia lógica transformada em conhecimento praticamente inconteste, por sua vez, foi toda a estruturação de um modelo de urbanização focado na prevenção de danos por terremotos.

Traduzindo em números que ilustram bem os efeitos dessa cadeia lógica: em fevereiro de 2010, um terremoto de magnitude 8,8 na Escala Richter que se abateu sobre o Chile matou “apenas” 0,1% das pessoas atingidas por ele. No mesmo ano, um terremoto mais fraco, de magnitude 7,0, destroçou o Haiti, país muito menos preparado: 11% das pessoas impactadas morreram.

Aqui, os cientistas chilenos tiveram sucesso maior em convencer a sua sociedade do perigo de um desastre natural, fazendo todos se prepararem melhor, por exemplo, por meio da adoção de códigos de urbanização muito mais sofisticados que os haitianos.

 

[Algoritmos & Robôs: Os novos públicos-alvo das marcas] Desmistificando a Inteligência Artificial

Temos o hábito de entender mecanismos de inteligência artificial como trecos futuristas, protagonistas de um cenário de ficção pura em que máquinas e humanos entrarão em embates militares pela dominação mundial.

E, se é certo que a ficção científica sempre teve papel fundamental na pesquisa tecnológica, puxando as barreiras do inimaginável para o alcançável e, portanto, viabilizando invenções fundamentais, é também certo que sua excessiva glamourização nos fez míopes quanto à realidade prostrada à nossa frente.

Invertamos a lógica um pouco, nem que seja pelo exercício do livre-pensar ou em nome do ócio criativo (conceitos que, aliás, sempre serão essencialmente humanos, além das possibilidades de qualquer robô). E se, ao invés de estarmos desenvolvendo as estruturas de inteligência artificial que eventualmente dominarão o mundo de maneira abrupta, já estivermos convivendo com elas sem sequer nos darmos conta?

Vamos a alguns fatos simples:

  1. Você já fala com robôs. Quando você debate política nas redes sociais com anônimos radicais quaisquer, por exemplo, é bem possível que esteja inadvertidamente dialogando com robôs construídos com o único propósito de encher as redes de defesas de uma determinada ideologia, buscando manipular a opinião pública a partir de uma volumetria tão inflada que a faz tangenciar a inquestionabilidade.
  2. Você já pergunta a robôs. Quando você tem alguma dúvida qualquer sobre alguma coisa, não pergunta mais a algum amigo próximo por quem nutra confiança, mas sim ao Google ou a outros buscadores do gênero.
  3. Os robôs já te respondem diretamente. As respostas que eles dão em relação a uma determinada busca, por sua vez, não são fruto de uma triagem feita por milhares de mini-gênios: são selecionadas pelos próprios algoritmos dos buscadores. E, sim, você prioriza as respostas que aparecem primeiro mesmo sem se dar conta – o que significa que quem faz as escolhas sobre o que te mantém informado é um sistema.

Até aí, tudo parece meio óbvio.

O que não é tão óbvio é o “outro lado” dessa dinâmica.

Robôs, afinal, não se autoconstroem: eles são alimentados por nós, humanos.

Hoje, quando uma marca faz o seu planejamento de pauta para nutrir a sua presença nas redes sociais (e, consequentemente, entrar no ciclo de relacionamento com o seu público), ela já pensa de maneira algorítmica. Ela considera, por exemplo, uma escolha editorial com base no que os sistemas de buscadores apontam como assuntos de maior demanda; ela estrutura seus textos incluindo algumas repetições de termos e seleções de palavras-chave que ignoram a fluidez do conteúdo em si em detrimento de boas práticas para a otimização de presença em buscadores; ela escolhe títulos com base na compartilhabilidade de um determinado artigo, um dos itens cruciais para influenciar no preço a ser pago pelo impulsionamento publicitário de um conteúdo nas redes sociais.

Ou seja: hoje, toda a construção de conteúdos assinados por marcas que buscam atrair consumidores se baseia não apenas no perfil desses mesmos consumidores, mas também (e talvez principalmente) na capacidade de influenciar os algoritmos de buscadores e redes sociais com o objetivo de expandir as suas capacidades de entrega.

Colocando em outros termos: o foco de uma determinada marca na Internet não inclui mais apenas seres humanos que consomem os seus produtos ou serviços: os próprios sistemas, hoje, são parte do público-alvo final de qualquer campanha de marketing minimamente digital.

As gracinhas da tecnologia

Tá: “gracinha” pode ser uma palavra meio descabida se você estivesse nadando em um oceano repleto de tubarões famintos. E sim: sei que humanos não estão no cardápio natural desses reis dos mares e que eles provavelmente matam menos do que cadarços desamarrados… mas, ainda assim, eles são um perigo.

Principalmente se você gosta de desafiar a sinalização e surfar nos mares de Recife ou se mora na Austrália onde, aparentemente, tudo é mortal.

Para situações assim, uma invenção nova (e que custa a bagatela de US$ 65) foi lançada com o objetivo de emitir sinais eletromagnéticos que funcionam como repelentes de tubarão. O vídeo explicativo está abaixo – mas o importante não é o produto em si.

O importante é que ele serve para comprovar que para todo e qualquer problema sempre há alguma inovação simples a ser concebida.

E, claro, para toda boa inovação, sempre há um bom mercado esperando para ser cultivado.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Ffuturism%2Fvideos%2F589390434573493%2F&show_text=0&width=400

 

 

Um novo estilo de filme?

Dizem que um livro ou filme depende muito mais do seu leitor ou espectador do que do criador.

Concordo. A interpretação é essencialmente algo individual, dependente muito mais do histórico de quem absorve o conhecimento do que de quem o compartilha.

Em tempos que tem na palavra “compartilhamento” algo muito mais literal, no entanto, o próprio conceito de se contar histórias muda.

E se, ao invés de ver um filme, pudéssemos vivê-lo, caminhando entre seus personagens e cenas? Nesse caso, cada espectador teria invariavelmente uma experiência única: veríamos apenas na direção que nossas pupilas estivessem apontando, ignorando o que estivesse se passando atrás ou mesmo ao nosso lado. 

Vi uma experiência desse conceito recentemente em um filme 360 graus sobre tubarões feito com uma GoPro por Jeb Corliss. 

Recomendo fortemente a todos que cliquem no link abaixo: é uma maneira simplesmente diferente de se contar histórias.

Dica: esse vídeo funcionará apenas se visto a partir de um IPhone.

Dica 2: quando ele começar, gire o IPhone para todos os lados para viver melhor a experiência.

https://www.facebook.com/gopro/videos/10153908208786919/ 

https://www.facebook.com/gopro/videos/10153908208786919/