[Algoritmos & Robôs: Os novos públicos-alvo das marcas] Fé: A lógica explicando o ilógico

Pode-se argumentar, no entanto, que o exemplo do terremoto está ainda no limite do campo instintivo. Já se sabia da força de um terremoto a partir de registros históricos documentados por séculos, o que os transforma em um perigo dentro do campo da observação.

Fenômenos científicos, afinal, quase sempre encontram respaldo em números e em evidências deixadas do passado.

Mas e a religião?

Em 2010, um estudo demográfico[1] feito em 230 países com base em mais de 2.500 censos demográficos apontou que 84% dos 6,9 bilhões de humanos crêem em alguma religião.

Na quase totalidade, essas religiões incluem a crença em um ou mais seres supremos, que habitam uma dimensão além da observável, com poderes absolutos e capacidade de determinar o destino tanto das pessoas quanto da natureza.

Só que ninguém efetivamente “viu” um desses seres supremos em ação. Pior: se algum ser humano aparecer se dizendo testemunha de uma profecia ou milagre, é muito mais provável que ele seja mentalmente questionado e que termine seus dias internado em um hospício.

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A diferença na crença em religiões da crença na ciência está unicamente no tipo de evidência que embasa cada uma das duas.

Para a ciência, a profundidade da matemática aliada a registros passados serve para comprovar teses. Para a ciência, opiniões se formam pela densidade dos argumentos.

Para a religião, a tradição de histórias contadas é que assume esse papel. O cristianismo, afinal, existe há mais de 2000 anos, com histórias documentadas em livros que atravessaram séculos, incontáveis monumentos erguidos em nome de Deus e uma infinidade de relatos de sagas milagrosas. Como questionar dois mil anos de histórias imortalizadas pelas vozes de gerações de sábios famosos?

Para a religião, verdades são “criadas” com base na multiplicidade de relatos, histórias e testemunhos.

As duas linhas – ciência e religião – fogem do tipo de sabedoria instintiva à qual a natureza está mais habituada.

Em ambos os casos acredita-se piamente no que não se vê. Em ambos os casos há uma ponte subjetiva, abstrata, entre a observação e a crença em si: a fé.

Fé na precisão dos números – uma linguagem criada pelo homem para entender a natureza – ou na palavra dos sábios de tempos passados.

Em ambos os casos, acrescente-se, o humanidade não economizou sangue para formar a opinião de seus pares.

Dos cientistas que queimaram no fogo da inquisição por questionarem a fé religiosa a soldados que pereceram nas cruzadas cristãs ou jihads muçulmanas, passando ainda por militantes ideológicos comunistas versus capitalistas, é possível afirmar com pouca margem de erro que todas as grandes guerras da humanidade foram sempre travadas em nome de algum ideal tão subjetivo quanto incomprovável.

Não apenas vivemos para formar opinião: também morremos em nome dos ideais subjetivos que acreditamos, algo ainda mais ilógico sob a ótica simples, digamos, de um macaco ou de um pássaro.

[1] Pew Research Center’s Forum on Religion & Public Life

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