[Algoritmos & Robôs: Os novos públicos-alvo das marcas] Desmistificando a Inteligência Artificial

Temos o hábito de entender mecanismos de inteligência artificial como trecos futuristas, protagonistas de um cenário de ficção pura em que máquinas e humanos entrarão em embates militares pela dominação mundial.

E, se é certo que a ficção científica sempre teve papel fundamental na pesquisa tecnológica, puxando as barreiras do inimaginável para o alcançável e, portanto, viabilizando invenções fundamentais, é também certo que sua excessiva glamourização nos fez míopes quanto à realidade prostrada à nossa frente.

Invertamos a lógica um pouco, nem que seja pelo exercício do livre-pensar ou em nome do ócio criativo (conceitos que, aliás, sempre serão essencialmente humanos, além das possibilidades de qualquer robô). E se, ao invés de estarmos desenvolvendo as estruturas de inteligência artificial que eventualmente dominarão o mundo de maneira abrupta, já estivermos convivendo com elas sem sequer nos darmos conta?

Vamos a alguns fatos simples:

  1. Você já fala com robôs. Quando você debate política nas redes sociais com anônimos radicais quaisquer, por exemplo, é bem possível que esteja inadvertidamente dialogando com robôs construídos com o único propósito de encher as redes de defesas de uma determinada ideologia, buscando manipular a opinião pública a partir de uma volumetria tão inflada que a faz tangenciar a inquestionabilidade.
  2. Você já pergunta a robôs. Quando você tem alguma dúvida qualquer sobre alguma coisa, não pergunta mais a algum amigo próximo por quem nutra confiança, mas sim ao Google ou a outros buscadores do gênero.
  3. Os robôs já te respondem diretamente. As respostas que eles dão em relação a uma determinada busca, por sua vez, não são fruto de uma triagem feita por milhares de mini-gênios: são selecionadas pelos próprios algoritmos dos buscadores. E, sim, você prioriza as respostas que aparecem primeiro mesmo sem se dar conta – o que significa que quem faz as escolhas sobre o que te mantém informado é um sistema.

Até aí, tudo parece meio óbvio.

O que não é tão óbvio é o “outro lado” dessa dinâmica.

Robôs, afinal, não se autoconstroem: eles são alimentados por nós, humanos.

Hoje, quando uma marca faz o seu planejamento de pauta para nutrir a sua presença nas redes sociais (e, consequentemente, entrar no ciclo de relacionamento com o seu público), ela já pensa de maneira algorítmica. Ela considera, por exemplo, uma escolha editorial com base no que os sistemas de buscadores apontam como assuntos de maior demanda; ela estrutura seus textos incluindo algumas repetições de termos e seleções de palavras-chave que ignoram a fluidez do conteúdo em si em detrimento de boas práticas para a otimização de presença em buscadores; ela escolhe títulos com base na compartilhabilidade de um determinado artigo, um dos itens cruciais para influenciar no preço a ser pago pelo impulsionamento publicitário de um conteúdo nas redes sociais.

Ou seja: hoje, toda a construção de conteúdos assinados por marcas que buscam atrair consumidores se baseia não apenas no perfil desses mesmos consumidores, mas também (e talvez principalmente) na capacidade de influenciar os algoritmos de buscadores e redes sociais com o objetivo de expandir as suas capacidades de entrega.

Colocando em outros termos: o foco de uma determinada marca na Internet não inclui mais apenas seres humanos que consomem os seus produtos ou serviços: os próprios sistemas, hoje, são parte do público-alvo final de qualquer campanha de marketing minimamente digital.

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