A palavra, o momento e uma previsão triste para o futuro próximo

Não acredito que os tempos que vivemos hoje sejam particularmente diferentes do passado, ao menos do ponto de vista de tumultos e conturbações sócio-políticas.

Sim: temos toda uma crise de imigrantes deixando o Oriente Médio rumo à Europa, temos grupos terroristas poderosíssimos e alguns insanos soltos por aí se explodindo e ceifando dezenas ou centenas de vidas inocentes. Não quero menosprezar nada disso, mas o fato é que o foco no presente costuma deixar o passado turvo.

Desgraça por desgraça, passamos anos em uma Guerra Fria que, apenas para citar dois dos seus efeitos oficiais – as Guerras do Vietnã e do Afeganistão – foi muito mais assassina do que qualquer evento da última década.

Não que estejamos vivendo em uma era necessariamente melhor – nossos tempos são apenas mais claros, transparentes, informatizados. O efeito disso é duplo: por um lado, conseguimos saber mais do que sabíamos antes – e em tempo real; por outro, o excesso de informação nos faz interpretar como mais intenso qualquer fato que se depare perante nossos olhos.

Excesso de realidade é perigosa.

Tomemos a questão dos imigrantes: a falta de capacidade do mundo em absorver milhões de refugiados de países em colapso gerou todo um movimento de “defesa” por parte dos cidadãos europeus ao ponto de ter rachado o próprio conceito de União Europeia.

O “queremos continuar prósperos” rapidamente se transformou em “os imigrantes são os nossos inimigos” que, por sua vez, se metamorfoseou no mesmo instante no mais puro preconceito.

Preconceito pode ser algo burro por natureza – mas, se há algo que a história da humanidade já comprovou, é que ele sempre encontra quórum. A partir do momento em que um perfil de humanos é considerado como fator de risco para a prosperidade, o conceito do preconceito ganha uma força inimaginável.

Em nossos tempos de comunicação instantânea, princípios segregacionistas conseguem ser mais fortes do que o próprio alvo da segregação. Quer um exemplo prático?

Um dos principais efeitos da crise de refugiados árabes está se desenhando a milhares de quilômetros de distância da Europa, no continente norteamericano.

É lá que o clima de ódio mais tem se instaurado, tomando forma oficial nas palavras do pre-candidato republicano Donald Trump.  Populista perigosamente habilidoso, ele tem culpado o que define como “raças específicas” (no caso, latinos) por boa parte dos problemas econômicos de seu país – e pregado a segregação como remédio. A mesma segregação pregada, às claras ou às escuras, na Europa, embora mirando outras vítimas – e que ganha a força que apenas as ideias mais abstratas tem.

O resultado disso?

O discurso de culpabilização racial de Trump ganhou rapidamente contornos próprios e desenhou cisões ainda mais fortes nos Estados Unidos, país que já convivia faz séculos com   problemas raciais graves.

Na semana passada, em Dallas, um negro (que, lá, não pode ser chamado de negro, e sim de “afro-americano”) disparou contra diversos policiais brancos (que, a propósito, podem ser chamados de brancos)  alegando estar cansado de ver injustiças raciais.

Foi apenas mais um dos casos de crime racial – nada perto de uma notícia discretamente publicada aqui pelo Globo (clique aqui para ver): o ressurgimento da Ku Klux Klan, grupo que ficou célebre na primeira metade do século XX por queimar negros vivos no sul dos Estados Unidos.

O perigo maior mora justamente nesse ponto: quando ideias abstratas começam a dar margem a grupos organizados. Um mau presságio.

Em resumo: o caos, como sempre comento por aqui, pede ordem – e ordem, do ponto de vista de uma sociedade, é traduzida pelo surgimento de organizações com propósitos bem definidos.

No futuro próximo, provavelmente nos depararemos com uma série de grupos organizados escalando o discurso de ódio e disseminando o conceito de terrorismo para muito além do oriente médio da Jihad tradicional.

Teremos, infelizmente, dias sangrentos pela frente.

The-Klan-at-150

 

 

 

 

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