O que o processo de impeachment está nos ensinando sobre os millennials?

Uma das maiores dificuldades políticas que tenho hoje é entender como, dada a situação catastrófica que o Brasil está, alguém consegue se erguer a favor da presidente afastada chamar de golpe um processo de impeachment previsto na constituição e seguindo todos os trâmites estabelecidos por todos os três poderes da república que compõem a nossa democracia. 

Essa dificuldade não vem de ideologias políticas ou nada do gênero – vem de uma das mais básicas características do ser humano moderno: a interpretação de textos.  

Sendo extremamente prático: independentemente de qualquer viés político que, obviamente, sempre existirá em qualquer processo traumático de troca de governo, o que se questiona é a legitimidade ou não do impeachment. Certo? 

A constituição diz o seguinte (e tiro um print da tela para evitar qualquer acusação de parcialidade): 


Apenas reforçando: o artigo IV deixa claro, no item VI, que atentar contra a lei orçamentária é um crime de responsabilidade. Não há nada insinuado aqui: isso é claro, objetivo. 

Vamos então à lei orçamentária, com novo print: 

Nesse caso, basta ler os itens 4 a 12. Todos foram descumpridos inclusive de acordo com a perícia realizada pelo TCU. 
O resultado desse descumprimento é patente: basta olhar os níveis de desemprego e o tamanho da crise. 

E qual a pena para isso? De acordo com a constituição, a perda de cargo.  

Recapitulando: 

  1. A Constituição tem regras cristalinamente claras e expressas sobre o que não pode ser feito sob pena de impeachment
  2. A Presidente descumpriu essas regras
  3. O descumprimento originou a maior crise econômica da história do Brasil
  4. A Presidente está afastada e deve ser destituída do cargo com julgamento que inclui o Congresso e seguindo ritos estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal – exatamente como manda a Constituição
  5. Há ainda milhares de pessoas nas ruas dizendo que tudo isso é um “golpe”

A pergunta que fica é: como? Isso é a tal cegueira deliberativa? 

Não. 

Cegueira deliberativa pode até atingir uma parcela mais velha da população – aquela que já carrega a paciência e o estilo de raciocínio da Geração X. Muitos destes são os “órfãos da esquerda”: cresceram defendendo ideais próximos do socialismo e do modelo de bem-estar social, são ideologicamente irmãos do bolivarianismo, acreditam que os inimigos são os Estados Unidos (e não os nossos esdrúxulos governantes) e, deparados com os resultados desastrosos da economia somados às quantias assombrosas de corrupção de uma era dominada pelo partido que melhor representava seus pensamentos, o PT, preferiram tomar o atalho fictício de cerrar os olhos para o óbvio e culpar o resto do mundo. 

Não é isso que acontece com as novas gerações, os millennials, muitos dos quais seguem bradando críticas contra “o golpe” e ignorando que as medidas impopulares que precisam ser tomadas para se combater a crise (como corte de investimentos em áreas sociais, por exemplo) não são causa do novo governo que não está no poder sequer a 2 meses, e sim consequência do antigo que lá ficou por 13 anos.

E aqui entra o “x” da questão, o motivo pelo qual este post está sendo feito em um blog sobre caos, inovação e estratégia como um todo: o entendimento de como funcionam os millennials. 

Vamos a alguns dados interessantes que refletem seus comportamentos – primeiro, de acordo com a Eventbrite (jul/2015):

  • 78% dos millennials escolheriam gastar dinheiro com experiências ao invés de com objetos
  • 77% afirmam que suas melhores experiências foram obtidas em eventos ao vivo
  • 69% dizem se sentir mais conectados ao mundo e à comunidade pelo simples ato de se engajar e participar ativamente em algo
  • 69% dos millennials afirmam ter FOMO (Fear of Missing Out), uma fobia de perder alguma experiência qualquer que poderia vir a ser memorável

Para fechar, de acordo com o Wall Street Journal (mar/ 2014):

  • 61% dos millennials se informam por acidente, via opiniões de amigos em redes sociais, em grande parte com o objetivo de terem assunto para poderem se expressar e se manter sociáveis 

O que isso tudo quer dizer? 

Que exigir de um millennial que ele leia a Constituição Brasileira antes de sair gritando “golpe” é, na melhor das hipóteses, estupidez. Millennials querem se engajar – e discursos inflamados propiciam isso com uma qualidade muito, mas muito maior do que qualquer texto chato escrito em juridiquês (como a constituição). 

Chamo atenção para um ponto importante deste texto – possivelmente o mais importante de todos: os errados não são os millennials e a “nova” forma de se interagir com o mundo. Não se pode culpar uma geração inteira por ela não pensar da mesma forma que as gerações passadas. Os errados são justamente os comunicadores que insistem em usar racionalidade enfadonha contra emotividade pulsante. 

Isto posto, a possibilidade do processo de impeachment como um todo ser considerado como constitucional pela quase totalidade da população brasileira é, em minha opinião, nula – mesmo se tratando de um processo que segue rigorosamente todas as regras jurídicas. 

Isso também nos ensina algo importantíssimo: o abismo de comunicação entre as gerações que estão no poder (seja do governo ou nas grandes corporações) e as que estão formando o novo mercado de trabalho e de consumo é gigante. 

Quem nasceu, portanto, antes de 1980, tem uma missão fundamental se quiser continuar ativo no mercado: reaprender a se comunicar e a pautar seus argumentos mais pelo estômago do que pelo cérebro.

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