O caos só pede um pouco de sensação de ordem

Quando se observa qualquer situação de caos, costuma-se ficar desesperado pelo emaranhado de confusão posto à nossa frente. Desespero, aliás, é a melhor palavra para isso: como não se sabe sequer a dimensão de um determinado problema, criar uma solução parece ser tão impossível quanto entender como chegamos até um determinado ponto.

Sim, sei que posso estar me perdendo na abstração do pensamento. Exemplifico, então.

Vamos à crise brasileira.

Por todo o primeiro semestre, ficamos colecionando números atrás de números que gritavam os efeitos catastróficos do desastroso governo Dilma.

  • Na economia, os dados foram tão estapafúrdios que esse nosso momento ímpar está sendo comparado à Grande Depressão que assolou o mundo no final da década de 20.
  • O desemprego, filho mais velho da crise, atingiu níveis comparáveis aos de países em guerra. Só a região metropolitana de Salvador, por exemplo, registrou 23% no índice que mede a desocupação. 23%!
  • Na saúde, epidemias que sequer conhecíamos no passado recente vieram sublinhar a ineficiência do sistema brasileiro.
  • Na educação, pequenas implosões generalizadas nas esferas municipal, estadual e federal apontaram para o mais puro colapso.
  • Finalmente (e digo finalmente não por ter chegado ao fim de todos os pontos problemáticos, mas sim para evitar que esse post vire um livro à parte), a inépcia política do então governo petista somada à divulgação apartidária da praga da corrupção eliminou do imaginário popular a mera existência de uma figura de líder capaz de nos fazer atravessar mares tão revoltos.

Como caos é insustentável por natureza, o governo inteiro caiu. Foi-se a Era PT.

Tudo mudou? Basta olhar as quedas dos ministros e ler nomes já conhecidos como Alves, Jucá e Geddel para se entender que, nesse aspecto, tudo permaneceu igual. Os mesmos criminosos que trouxeram o país para onde ele chegou permanecem no poder: eles apenas mudaram de ideologia.

E, aparentemente, isso funcionou. Com a mudança na condução ideológica das finanças, veio a até então inexistente perspectiva de melhora. Perspectiva, ressalto: até o momento, as grandes medidas apenas foram para o papel e nem tiveram como surtir efeitos de ordem técnica, prática, efetiva.

É aqui que entra a magia de se aniquilar o caos: o remédio para um problema, a solução definitiva, nunca é essencial em um primeiro momento.

Caos é a consequência febril, estomacal, emocional, de um desarranjo prático qualquer. Caos é o desespero que transforma adultos racionais em pequenas crianças que se perderam de seus pais.

E como eliminá-lo? Basta o dedo indicador apontando para alguma direção. Da mesma maneira que uma criança perdida se acalma imediatamente quando alguém aponta para o lugar em que seus pais estiverem mesmo antes de os enxergar, populações inteiras diminuem suas palpitações cardíacas quando conseguem crer na proximidade de uma mudança, de uma melhora.

Hoje, pouco mais de um mês se passou desde a posse de Michel Temer como presidente interino. Sabe o que aconteceu?

  • A previsão da queda do PIB de 2016 passou de 4% para 3,5%.
  • A queda na venda de alimentos passou de 4,08% para 3,73%.
  • Especialistas já consideram que a SELIC deva cair de 14,25% para 10% em um horizonte próximo.
  • Para 2017, a projeção de crescimento do PIB feita pelo BNP Paribas foi de zero para 2%.
  • E, indo além de qualquer projeção estatísticas, já se sente no próprio mercado um crescimento de demandas que estavam represadas pela absoluta falta de definição quanto aos rumos do país.

Como explicar tanta mudança e perspectiva em tão pouco tempo – menos tempo, reforço, que o necessário para se colocar qualquer medida de ordem prática em vigor?

Confiança.

O que define a economia do mundo não é um conjunto de resultados: é a confiança pelos agentes do mercado de que determinadas medidas levarão a um resultado. É, portanto, a mera perspectiva de resultado.

Nesse aspecto, o Governo Temer conseguiu iniciar um processo claro de ordenação do caos mesmo desafiando toda a lógica e formando uma equipe ministerial tão escandalosamente enlameada.

Aliás, paradoxalmente, a própria demissão imediata de alguns dos ministros por suspeitas de corrupção, se grifou a evidência de que a podridão permanece presente no governo, também sublinhou a disposição do mesmo governo em tomar atitudes concretas para “se limpar”. Seria melhor se os nomeados não fossem vilões célebres? É óbvio. Mas o fato de estarem caindo, um a um, já marca uma diferença do governo Dilma que, em seus melancólicos atos finais, tentou fazer o exato oposto ao nomear o ex-presidente Lula como ministro apenas para ajudá-lo a fugir das grades.

No final das contas, o remédio para o caos não nasce de soluções práticas: nasce de promessas emocionais que abrem viabilidade para a tomada de decisões práticas.

Ou alguém questiona a genialidade da escolha do novo slogan, “Ordem e Progresso”, para um país que, hoje, se enxerga perdido, diminuído, envergonhado e francamente desesperado?

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