O estrategista: os 7 passos de Temer até o Planalto

Tenho para mim que, quando se quer tomar poder para si, em qualquer circunstância, não basta aproveitar uma oportunidade: é fundamental gerá-la.

Traduzindo: a melhor maneira de vender uma solução perfeita é criando (ou pelo menos ampliando ainda mais) um problema sem tamanho.

Não digo que o Temer ou o PMDB – alvos deste post – sejam os principais culpados da crise que o país vive. Tenho, aliás, dificuldade de entender como alguém pode não enxergar a culpabilidade do PT e da quase-ex-presidente Dilma dada a maneira publicamente desastrosa com que tocaram a economia e a protagonização absoluta nos esquemas de corrupção que implodiram os nossos cofres.

Mas, ainda assim, é sempre válido lembrar que o PMDB faz parte do governo desde a era Lula – e que teve o presidente do partido como vice-presidente do Brasil durante o governo Dilma.

A genialidade do Michel Temer em lidar com isso, que faz com que Frank Underwood pareça um ingênuo seminarista, é outra história. Vamos a uma breve recapitulação de seus sete passos rumo ao Planalto:

1. Usando a imagem de uma presidente arrogante

Não é segredo para ninguém que Dilma emanava arrogância. Sua interlocução política era tão frágil, perdia tanto espaço para a sua postura de ditadura em um país sem ditadura, que poucos foram os parlamentares que criaram algum elo confiável com ela.

Detalhe: essa arrogância era nítida para todo o país por meio de entrevistas ou declarações públicas dadas, quase todas sob olhos apertados e uma boca impaciente que teimava em deixar escapar absurdos como “mulher sapiens” e “homem-mandioca”.

Temer usou isso a seu favor: começou a disseminar, desde o começo do segundo mandato, quando ficou claro que a crise só pioraria, que estava isolado das decisões do executivo. Chegou até a contar com o apoio público do ex-neo-presidente Lula que, em uma ingenuidade incompatível com sua história, deu força ao argumento do pemedebista.

2. Criando recados que se viralizem

Faltava, no entanto, algo mais público, mais notório. Algo que deixasse claro à população brasileira que ele estava magoado com a maneira que era excluído das principais decisões. Nasceu a carta de dezembro que, justamente por ter sido ridicularizada nas redes sociais, acabou sendo conhecida por todos.

Perceba a quantidade de mensagens que a carta continha:

  1. Era ele que mantinha o PMDB unido em torno ao governo: ele colocava o seu poder à disposição dela
  2. Ela, por outro, ignorava tanto a ele quanto ao partido
  3. A culpa pela condução da política econômica era integralmente do governo do PT uma vez que ele e seu partido eram excluídos de todas as decisões
  4. Os indicados dele para ministérios foram os que mais geraram resultados
  5. Era ele quem nutria amizade por líderes de outras nações, e não ela
  6. Ainda assim, ele não estava rompendo com o governo – estava atestando, mais uma vez, a sua lealdade, ainda que sob protestos

Sim: o conteúdo era puro mimimi. Mas justamente por isso acabou dando recados claros para toda a população, ainda que de maneira pseudo-subliminar. Veja a íntegra da carta aqui.

3. Articulando em silêncio

Temer é conhecido por ser um profundo conhecedor da constituição e um excelente articulador. Polvilhando cuidadosamente declarações e frases, foi construindo uma narrativa de poder factível junto a seu partido e às duas bases no congresso: a oposição e a aliada, esta já farta da postura da presidente.

Quem melhor, aliás, do que um vice-presidente irritado para juntar apoio dos dois lados? Sua face governista atraía a atenção da situação; sua face indignada, da oposição. A ambos, seu conhecimento da carta magna brasileira e sua influência serviam de base para qualquer  tomada de decisão.

E, assim, aos poucos, ele foi somando deputado a deputado em silêncio.

4. Declarando guerra depois de ter disparado meia artilharia

Oficialmente, a ruptura do PMDB com o governo se deu no dia 29 de março – e por aclamação, passando a imagem a outros partidos de que havia uma união em torno dele.

Foi a declaração de guerra oficial, que acordou todo o planalto de uma só vez. Teria sido ele precipitado, como seu desafeto Renan Calheiros opinou? Dificilmente.

Com a ruptura ainda no mês de março, Temer conseguiu tempo para convencer quadros governistas do PMDB a ficarem do seu lado e conseguiu testar o almejado “efeito manada” dos partidos menores.

Se a ruptura tivesse esperado mais alguns dias, por exemplo, seria possível que o PP tivesse mantido o apoio ao governo e isso, por si só, teria enterrado o impeachment.

Não foi o que aconteceu. Em poucas semanas, a cada vez mais forte elite articuladora do PMDB entrou em cena para disputar com um cada vez mais fraco Lula o voto dos deputados.

5. Dando um recado claro a quem gosta de ficar ao lado dos vitoriosos

Ao mesmo estilo da carta de dezembro, Temer soltou uma outra bomba: a mensagem de Whatsapp em que ele lia um suposto discurso de posse no dia 11 de abril. Oficialmente, ele se enganou e enviou para um grupo errado; na prática, foi uma das táticas mais bem boladas de todo esse período.

Por quê? Em poucos minutos, ele:

  1. Deixou claro que confiava no impeachment ao ponto de treinar um discurso de vitória
  2. Deixou claro que a vitória do impeachment se daria por maioria considerável
  3. Deixou claro que estava preparado para um governo de união com todos os partidos para a “salvação nacional”
  4. Deixou claro que manteria os programas sociais
  5. Deixou claro que faria tudo diferente do PT

Era tudo o que todo mundo queria.

Além disso, ao alardear um discurso de vitória que contrasta com seu posicionamento sempre muito cauteloso, ele deixou claro aos deputados onde estaria o lado vitorioso. E o lado de quem ganham, sabemos, é o que todo deputado quer pertencer. Temer, presidente do PMDB, partido que fica no governo mesmo quando faz oposição, sabe bem disso.

Veja a íntegra aqui.

6. Administrando a vitória

A partir daí, bastou que ele mantivesse a sua articulação ativa, mas em fogo brando.

Resultado: no domingo, dia 17 de abril,a câmara dos deputados recomendou o impeachment por uma esmagadora maioria de 367 votos – apenas 1 voto de diferença para a previsão do próprio Michel Temer, diga-se de passagem.

Claro: há toda uma nova fase que se inicia agora no Senado – e certamente há mais articulação estratégica em franco andamento. O que muda agora é o inimigo: Dilma e Lula são carta fora do baralho.

A quase-ex-presidente, a julgar pelas suas recentes declarações, está vivendo a base de remédios; o ex-neo-presidente, por sua vez, está a poucos dias da cadeia.

Enquanto isso, Temer se mantem elegantemente calado, deixando seus inimigos espernearem, alardeando palavras como “golpe” e “injustiça” até que a população inteira fique exausta de ouvir sempre os mesmos argumentos.

7. Limpar o caminho

Hoje, restam dois no seu caminho: Renan Calheiros, desafeto político, e Eduardo Cunha, aliado fundamental na câmara. Ambos do PMDB, acrescente-se.

O primeiro pode até espernear, mas não terá opção que não deixar o jogo seguir e agir como uma espécie de motoboy do impeachment, como ele próprio se definiu.

O segundo precisará ser empurrado ao abismo por motivos óbvios: mais impopular ainda que Dilma Rousseff, a permanência de Eduardo Cunha no governo Temer será insustentável do ponto de vista do fundamental apoio da população brasileira. E, estrategista como é, o próximo presidente sabe bem disso.

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