O otimismo engolido pela realidade

Há quase um ano, durante a Flip de 2015, o Clube de Autores promoveu uma série de palestras focada no mercado editorial brasileiro. Uma delas, proferida por Susanna Florissi – uma das maiores especialistas no segmento – intitulava-se “crise ou oportunidade?”.

Estamos em 2016. Nesses meses que se passaram, um boom de novas editoras realmente foi testemunhado – assim como o melancólico fechamento de livrarias tradicionais e marcas emblemáticas como a Cosac-Naify.

Depois de mais algum tempo, o boom de pequenas editoras também cessou, muitas das quais encerrando suas atividades ou encaixando-se naquela faixa de funcionamento pautada pela base da pirâmide de Maslow: persistiam em péssimas condições, já empurradas para a informalidade, e ainda assim exclusivamente por falta de opção melhor para seus idealizadores.

A temática da palestra da Susanna parece ter atravessado o ano fazendo de tudo para se fixar no imaginário esperançoso do empreendedorismo brasileiro. E faz um certo sentido: crises são situações em que o status quo se desmonta, em que velhos modelos se provam ineficazes, em que pitadas de caos abrem espaço para as pequenas inovações que fazem o mundo girar desde os tempos da peste bubônica. Crises geram questionamentos novos que, por sua vez, fazem brotar respostas novas.

Sob esse aspecto, crises eventuais devem até ser desejadas por uma sociedade que busque evoluir, se reestruturar, crescer. 

2008 foi assim para os Estados Unidos, da mesma forma que 2012 para os países Europeus. Hoje, todos estão melhores, em diversos aspectos, do que estavam antes. 

Mas há um problema com esse raciocínio: ele só funciona até o médio prazo. Sim, crises e caos são perfeitos para propiciar as tão fundamentais inovações em qualquer setor – mas há um ponto a partir do qual eles deixam de ser incentivadores da criatividade e passam a ser venenos letais para as suas sociedades. 

Há oportunidades em crises? Claro. Mas como aproveitá-las se não há dinheiro ou confiança de investidores, grandes ou pequenos, para colocar ideias de pé? Como vendê-las se não há consumidores minimamente dispostos a se arriscar experimentando produtos e serviços diferentes? Como nutrir uma iniciativa inovadora em um ambiente tão pessimista, em que mesmo a mais otimista visão enxerga pouca perspectiva de melhora no curto prazo?

A palestra de 2015 ficou em 2015, infelizmente. Ainda há espaço para inovações poderosas em 2016? É óbvio: sempre há. Mas o ecossistema de negócios está perigosamente estrangulado, impondo que essas mesmas inovações pautem-se mais pela necessidade de sobrevivência no mercado interno do que pela possibilidade de crescimento explosivo no mercado global. 

Por falta de fôlego, até as ambições dos inovadores brasileiros tem encolhido em um claro sinal de retrocesso como pouco se viu na nossa história.
Mudanças urgem para que o realismo não engula o pouco de otimismo que ainda resiste, embora já quase resignado, em nossos empreendedores. Realismo em uma recessão como a nossa, afinal, gera puro pessimismo – e pessimismo é o maior antagonista da inovação.

  

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