Sobre o que nos faz humanos

Excluindo-se os entediantes detalhes práticos da genética, o que nos diferencia dos demais animais é a nossa habilidade de inventar histórias. 

Toda a nossa sociedade, aliás, é baseada nisso. Dou três exemplos práticos: 

  1. Você conseguiria convencer um cachorro esfomeado de dar um pote de comida que acabou de achar para um outro cachorro, mais fraco e totalmente desconhecido, permanecendo assim com fome, apenas para fazer um ato de caridade e, assim, cair nas boas graças de uma divindade que ele nunca viu mas que a tudo observa dos céus? Não. Para um cachorro, o céu é apenas um troço azul de onde, as vezes, cai água.
  2. Você conseguiria convencer um macaco a não roubar uma banana de um outro macaco desatento usando o argumento de que isso seria eticamente errado? Não. Para um macaco há apenas a oportunidade.
  3. Você conseguiria argumentar com um parasita mortal que, se ele não parar de saciar a sua fome, acabará matando o hospedeiro e, consequentemente, a si mesmo? Não. Para um parasita há apenas a fome.

Ética, religião, justiça e todas as demais bases de sustentação da sociedade humana são conceito anômalos a outros seres vivos. Para eles, só o que existe é a necessidade básica de sobrevivência. A vida é mais simples.

Nós, por outro lado, temos conceitos mais sofisticados. Ao conseguir imaginar situações que atravessam o campo da observação e chegam até a dedução, ampliamos o nosso alcance social de maneira dramática. Ao verbalizar as nossas deduções, verdadeiras ou não, a outros membros, criamos crenças comuns baseadas no intangível. 

Ao espalhar as nossas crenças, atravessamos territórios e criamos as primeiras sociedades do mundo feitas de seres que nunca tiveram contato entre si, mas que passaram a compartilhar os mesmos sensos de ética impulsionados por sensações como, por exemplo, o temor de uma mítica justiça divina. 

Na medida em que nossa sociedade foi atravessando o tempo, as leis dos clãs se casaram com as leis dos deuses míticos, criados para explicar o inexplicável para qualquer humano e irrelevante para qualquer outro ser vivo. Esse casamento gerou frutos: a quebra da relação direta entre hierarquia e força física; a constituição de países demarcados por fronteiras imaginadas, a transformação de tribos de dezenas de membros em sociedades de milhões de cidadãos. 

Pare para pensar: hoje, nós vivemos em um mundo absolutamente mítico, desconectado das leis da física e da natureza onde a mais pura fantasia impera sobre a realidade.

Quer um exemplo? 
A lei imaginária

Imagine que você seja um advogado defendendo um criminoso.

Comecemos pelo crime: desobedecer uma determinada lei, qualquer que seja. O que é uma lei senão uma criação humana, uma espécie de regra documentada? Há algum tipo de penalização natural que acontece quando se descumpre a lei? Quando se rouba algo, por exemplo, o braço do ladrão é contaminado por alguma bactéria e se desprende do corpo? Claro que não. Infrigir uma lei é um conceito desconhecido do mundo natural – mesmo porque leis sociais foram criadas, inventadas pelo homem. 

Ainda assim, o criminoso está em julgamento. E o advogado? Ele estudou por anos, lendo textos e mais textos para conhecer as leis imaginárias e suas brechas. Provavelmente pagou pela sua educação com muito dinheiro – uma outra invenção social. Entregue uma nota de R$ 100 a um coelho e ele provavelmente a mordiscará para ver se tem algum valor, ignorando-a em seguida; para um homem, a “invenção” dinheiro pode abrir praticamente todas as portas sociais existentes. Dinheiro, aliás, é a invenção mais efetiva da humanidade, a única capaz de unir os bilhões de habitantes humanos da Terra. 

A defesa do advogado será apreciada por um juiz, outro especialista em leis e que tem uma posição hierárquica maior. A palavra do juiz vale mais do que a do advogado, mesmo que o advogado seja mais forte que ele – algo impensável se fôssemos uma outra espécie. Cabe, portanto, ao juiz dar a palavra final sobre o destino do criminoso, que pode ser condenado a pagar uma multa – outra invenção humana – a ir para a cadeia ou a sair livre. 

Qualquer que seja o resultado, o criminoso provavemente recorrerá a Deus – um outro ser que ele nunca viu pessoalmente e que, portanto, faz parte do seu imaginário – para pedir misericórdia ou agradecer. 

Tudo isso, todas essas regras sociais, são invenções fruto da mente dedutiva e fantasiosa do homem. Nada é natural, fruto unicamente da observação direta ou experiência empírica. 

No entanto, já pensou em que pé estaria a humanidade não fossem essas regras, essas nossas leis? Provavelmente no mesmo patamar que “espécies inferiores” como cachorros, macacos, pulgas ou bactérias. 

Nós devemos a nossa evolução à nossa imaginação. 

Pode parecer ridículo, mas é justamente a nossa capacidade de criar explicações e regras sem nenhuma base lógica concreta que consegue dar ordem ao mundo em que vivemos. 

Há maior lição de vida do que essa? 

  

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