A verdade inexistente, parte 1

Graciliano Ramos costumava dizer que, ao escrever um livro, ele extraía dos acontecimentos pequenas parcelas e jogava o resto fora.

Isso é até meio óbvio: a verdade dos fatos, quaisquer que sejam eles, nunca será realmente conhecida uma vez que sempre dependerá do entendimento de quem os testemunhou ou protagonizou. Em outras palavras: na vida real, a linha que separa realidade da ficção é absolutamente inexistente – e nós só conhecemos a ficção.

O que está acontecendo com o Brasil em meio a essa crise? Pergunte a um petista e ele responderá: “uma tentativa de golpe”; pergunte a um oposicionista e ele responderá: “a deposição constitucional de uma presidente que praticou atos de ilegalidade”.

Vá a uma livraria e você encontrará a história deste nosso momento político contado em obras distintas e com versões opostas. E é até provável que, no futuro, apenas uma versão acabe se impondo como “a verdade” – mas dificilmente ela será uma fotografia perfeita do que efetivamente aconteceu, nos mínimos e mais precisos detalhes.

Fatos, afinal, nunca sobrevivem às suas próprias versões – e versões são enviesadas por natureza, por definição. O viés é o inimigo que sempre briga, derrota e assassina, sem maiores pudores, a “verdade”.

 

Esse exemplo sobre o Brasil chegou a este post por obra do puro acaso: em verdade, tudo o que conhecemos, da vida dos nossos presidentes, da história dos grandes herois da humanidade, das origens das religiões… tudo, claro, chegou e chega até nós a partir de histórias contadas por terceiros com a mesma “receita” explicitada pelo Graciliano Ramos.

Ironicamente, a única verdade que podemos confiar é que não conhecemos e jamais conheceremos o que realmente aconteceu em nosso passado: sabemos apenas o que nos contam.

O mundo, portanto, tem a sua história e o seu destino definidos não pelos grandes personagens – alguns dos quais podem sequer ter existido – mas sim pelos seus grandes historiadores agindo em causa própria.

Quer mudar o mundo? Aprenda a contar histórias.

Prisma-430

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