Ideologia, dinheiro e cegueira deliberada

Certa vez, vi um podcast com um dos maiores investidores da área digital, Jason Calacanis, em que ele dizia que a melhor maneira de aniquilar uma rede social era remunerando os seus membros pela participação. 

A crítica dele foi em uma época em que muitas pequenas redes tentavam pagar os seus membros de acordo com níveis de engajamento e por meio de modelos de member-get-member. Quais redes estavam fazendo isso? Honestamente, não lembro: todas acabaram falindo, o que provou o ponto do Calacanis. 

Sua tese, que passei a encarar como um dogma, pregava que dificilmente qualquer quantia de dinheiro poderia se equivaler a uma ideologia, a um senso de comunidade, de orgulho de participação. Ou, em outras palavras: o bolso nunca ganhará do coração. 

Busquemos um exemplo bem prático diretamente no nosso país e no partido do governo, o PT. O PT é uma rede social. 

Ele pode não ter “funções” de curtir e compartilhar, pode ser muito mais tácita do que explícita, mas tem uma corrente ideológica poderosa que une seus partidários com uma força impressionante. 

Quando no poder, o PT tratou de articular um outro tipo de rede social, por assim dizer: a sua base de apoio no congresso. Esta, no entanto, não foi movida por ideologia e sim sustentada pelo dinheiro do Mensalão e do Petrolão. Por mais de uma década, essa rede funcionou viabilizando importantes aprovações que levaram o governo a níveis recorde de popularidade. Como pregava Calacanis, no entanto, redes que se estruturam pela remuneração de seus membros são pouco sustentáveis: com o tempo, as práticas de corrupção acabaram quebrando a Petrobrás e secando os cofres públicos na mesma medida em que o país acabou se afundando por uma política econômica desastrosa. 

Resultado: essa mesma basem até então de fidelidade inquestionável, começou a abandonar o barco com a mesma veemência que costumava defender o populismo petista. Acabou o dinheiro? Acabou também o apoio. Simples assim. 

Por outro lado, mesmo com tantas denúncias de corrupção e escândalos, a rede social de cidadãos partidários, principalmente com maior radicalidade ideológica, permanece firme como pedras. Há corrupção na Petrobrás? Certamente ela se iniciou no governo FHC. Há áudios da Presidente e do Lula conspirando para obstruir a justiça? Não se discute o conteúdo, mas sim um eventual crime do juiz em liberá-lo. 

Ou seja: ideologias radicais viabilizam uma cegueira deliberada que dificilmente o dinheiro consegue comprar. 

Que seja uma lição para todos os estrategistas.

  

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