Moro, o messias?

Em uma crise de proporções como a que estamos vivendo, o maior problema não é o técnico. Rumos econômicos, políticas sociais etc. são apenas parte de um pacote de soluções necessárias para o país. 

O mais importante é – por mais que a palavra pareça piegas – o “líder” que tirará o país da tempestade. O motivo para isso é claro: por mais que tenha sido causada por uma gestão econômica absolutamente desastrada, é a crise política que impede o país de avançar neste momento. 

E crise política, por sua vez, é ao mesmo tempo resultante e resultado do descrédito público. 

Por que a presidente não consegue articular nada, deixando o país inteiro travado? Porque os níveis de desaprovação dela são tamanhos que as poucas pessoas no congresso que a apoiam estão lentamente desaparecendo em nome das suas próprias elegibilidades futuras. 

E quem entra para salvar? Michel Temer, atual vice-presidente – e, portanto, parte da mesma elite política que nos trouxe até esse ponto? Aécio Neves, já coberto de denúncias de corrupção? Lula, que já foi um quase santo e hoje está bem perto do demônio? 

A pior notícia para o Brasil é esta: não há nenhum nome na atual conjuntura que consiga chegar ao Planalto sob aclamação popular. Há, no entanto, nomes de transição, como mencionei no post de ontem, a começar por Michel Temer. 

E para a população em si? Sempre que o desespero chega a níveis cataclísmicos, ele arrasta para o abismo a capacidade de raciocínio lógico das pessoas. Ao invés de pensar friamente sobre como agir, passa-se a depositar as esperanças em um salvador messiânico, em um Antônio Conselheiro pós-moderno. E, na falta de alguém da classe política, quem surge? 

Hoje, há apenas um nome tido como sinônimo de ética e de luta incansável pelo futuro do país no imaginário popular: Sérgio Moro, juiz que puxou para si a responsabilidade de transportar os habitantes do Congresso (e do Planalto) para as carceragens da PF. 

Quer ver o quanto ele está sendo falado? A figura abaixo compara a quantidade de vezes que três palavras importantes: “Crise”, “Impeachment” e “Moro” foram pesquisadas no Google nos últimos 90 dias. 

  

Agora saia daqui e veja os vídeos com o juiz – como o que conclamou a população para as manifestações do último domingo. 

Alguém tem dúvida de que, se ele eventualmente se candidatasse a presidente, venceria com uma margem avassaladora? Eu, pelo menos, não tenho nenhuma. 

Mas dificilmente um juiz, por mais conhecimento e experiência que reuna sobre a sua área, teria o know-how para compor articulações no legislativo e deliberar sobre temas do executivo na medida da necessidade. 

O problema todo reside nisso: o vácuo de lideranças políticas somado ao desespero público gerado pela crise pode fazer com que a população acabe demandando (e, portanto, votando) muito mais com o estômago do que com o cérebro. 

E votos com o estômago, como mostra o nosso passado recente, dificilmente conseguem dar bons frutos.

Podemos já ter identificado muitas das origens dos problemas relacionados à gestão do nosso país – mas ainda estamos muito, muito distantes de achar a solução. 
 

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