A culpa social e o caos alimentando terrorismo

Em sua opinião, a atitude da maior parte dos países europeus de fechar as portas para os refugiados sírios está correta? Em uma rápida “pesquisa” informal, a maior parte das pessoas responde de pronto que não. Como pode, afinal, um país ser tão cruel ao ponto de proibir que seres humanos levados aos limites do sofrimento possam ter uma chance melhor em seus territórios – principalmente considerando que há, disponível, tanto espaço quanto dinheiro e oportunidade para isso?

O problema com esse raciocínio é que ele ignora que uma porta aberta é uma porta aberta – para quem quiser entrar. 
Desde o final do ano passado, materias tem circulado em sites como Deutsche Welle, BBC, CNN e outros abordando a maneira com que o Estado Islâmico tem transformado refugiados em alvos preferenciais de seu aliciamento. Faz sentido: são, afinal, pessoas no extremo da miséria, que batalharam duro para conseguir sair de seus lares destroçados e ser aceitos pelos europeus, alvo de preconceito generalizado e tendo que começar tudo de novo. 

E, quando se está no extremo da miséria, aceita-se mais facilmente qualquer caminho que seja pintado como um destino melhor. 

Só que esse contexto de miséria e sofrimento é tão cruel, desenhando um panorama tão caótico, que ele acaba se transformando no cenário ideal justamente para seus algozes. Perceba o “momentum” que a estratégia do EI acaba ganhando: 

  1. As tantas notícias circulando na mídia e nas redes sociais sobre o sofrimento dos refugiados acabam praticamente forçando a opinião pública a considerar como única alternativa humana a abertura de fronteiras pelos países ricos. 
  2. Abrir fronteiras significa causar uma disrupção no status quo, incluindo ampliar a oferta de mão de obra sem aumentar o mercado. O mesmo “bolo” que era dividido por uma população passa, agora, a considerar mais bocas.
  3. Expulsos pelas circunstâncias de seus lares,  os refugiados acabam portanto conhecendo um novo inimigo no seio de seus novos anfitriões: o preconceito. 

Agora imagine o resultado de tudo isso: um mar de pessoas sem perspectiva de futuro, com raiva do passado e dos seus anfitriões, mas com passaporte e livre trânsito pelas suas terras. 

Quer local melhor para que terroristas os aliciem e “eduquem”? Da mesma maneira perversa e desumana que caracteriza o Estado Islâmico como um todo, eles dependem do caos para crescer – e, com o movimento de refugiados, eles conseguiram levar o caos justamente para o “território inimigo”. 

A pergunta que abre o post, portanto, pode ser refeita da seguinte maneira: “a atitude da maior parte dos países europeus de fechar as portas para os refugiados sírios, muitos dos quais serão aliciados por uma rede terrorista, está correta?”

Agora considere as duas hipóteses:

  • Os países ricos fecham as suas fronteiras. Por um lado, isso certamente diminuiria o volume de refugiados aliciados em seus territórios, aumentando assim a sensação de segurança. Por outro, o ódio gerado contra eles cresceria brutalmente, radicalizando ainda mais os discursos. 
  • Os países ricos deixam as suas fronteiras abertas. A consequência é a já dita acima: aumenta-se assim o potencial de aliciamento. Para piorar, como nunca será possível receber todos de braços abertos por uma questão logística, sempre haverá um mar de críticas à disposição de quem quiser explorá-las.

Conclusão: seja qual for o caminho, haverá caos e sofrimento envolvidos como resultantes – e o simples fato deles existirem já coloca o EI em vantagem. 

Isto posto, há como vencer a guerra contra o terror? Ou trata-se apenas de escolher o “menos pior” dos caminhos?

Aparentemente, não há uma resposta definitiva para isso. Mas há a certeza de que, do contexto em que o debate tem acontecido, nada de efetivamente positivo sairá.

  

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