4 resultados do enriquecimento de grandes cidades

Até poucos anos, toda grande cidade brasileira era definida por uma área nobre pequena e relativamente central cercada por uma massa mais disforme de terrenos desvalorizados. Era a maneira antiga, a velha forma de se entender cidades que dependiam de muitos para gerar a riqueza de poucos.

Não que a desigualdade social tenha desaparecido no Brasil, é claro – mas é possível redimensioná-la a partir de uma análise simples, quase simplória, de valorização de metro quadrado.

Em nossos tempos, a mão de obra está tão mais mental do que braçal, com possibilidades espalhadas por territórios tão menos concentrados, que é como se mais de uma cidade convivesse no mesmo espaço.

Veja este mapa interativo da cidade de São Paulo, por exemplo, segmentado por uma escala de cores referentes à valorização imobiliária. Sim: o grosso da valorização ainda está no centro da cidade – mas o centro se expandiu consideravelmente. Perceba que esse centro vermelho escuro, quero passado foi restrito a uma meia dúzia de bairros, hoje vai dos confins de Santo Amaro até as margens nortes do Rio Tietê.

Perceba ainda que há outras manchas na periferia, como nas margens da represa Billings ou em bairros do extremo leste da capital paulista. Esses “novos centros”, em torno dos quais outras periferias se estendem comprimidas a outras zonas nobres, são exemplos claros de como a cidade está evoluindo e, inegavelmente, enriquecendo (ao menos frente às realidades de décadas atrás).

O que vai acontecer a partir daí? Bom… riqueza sempre tem como consequência uma maior demanda por conforto – e conforto passa longe de ficar horas e horas preso no trânsito necessário para se locomover de um extremo a outro da cidade.

Esse descolamento conceitual de riqueza e conforto acaba gerando uma situação de instabilidade caótica, insustentável no médio ou mesmo curto prazo. Os resultados óbvios? Vamos a quatro:

  1. As novas zonas ricas efetivamente devem se transformar em urbes próprias, ainda que não no sentido legal, gerando ofertas locais que supram as suas demandas práticas. A locomoção de “ponto a” a “ponto b” sempre vai existir, claro – mas o raio de distância até onde os cidadãos estarão dispostos a percorrer deve mudar uma vez que a qualidade de vida já está mais palpável. A preferência de trabalho sempre ficará nas proximidades de onde se mora, o que cria novos mercados.
  2. Mais zonas nobres significa também menos periferias, ao menos no sentido figurativo do termo. Se comparado ao passado, esse mapa é a prova do tradicional conceito capitalista de que riqueza gera riqueza.
  3. Tecnologias de trabalho a distância, que já vem ganhando muito terreno, só tem a crescer mais e mais e mais. Afinal, a própria necessidade de se locomover por distâncias tão grandes para desempenhar uma tarefa que pode ser facilmente feita via vídeo conferência deixa de fazer sentido.
  4. Na medida em que essas tecnologias vão evoluindo, a necessidade de se viver espremido em grandes centros também morre. Sob esse aspecto, ironicamente, o enriquecimento de metrópoles gigantes como São Paulo pode ter como consequência o esvaziamento da cidade, resultado direto da emigração de seus habitantes para zonas menos supervalorizadas e caóticas.

Tá: todas essas são hipóteses baseadas apenas em observações. Mas não são observações vãs: são lógicas e encontram subsídio na própria história. Se o caminho for realmente esse – e eu acredito que seja – já imaginou quantos mercados devem ser revolucionados nos próximos anos?

Screen Shot 2016-01-18 at 12.37.44 PM

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s