A riqueza da confusão de idiomas e a pobreza do Brasil monolinguístico

Se você estivesse caminhando pela Europa medieval, certamente teria dificuldades absurdas em se comunicar: a cada punhado de quilômetros, afinal, se depararia com povos falando idiomas tão diferentes que a tarefa de entendê-los, por natureza, seria quase impossível.

Não conseguir se comunicar é ruim – obviamente. Mas isso não significa que um mundo com apenas um idioma seria melhor.

Explico: idiomas, por natureza, são o resultado de toda uma mescla que bagagens culturais de um povo. Para ficar em três exemplos claros:

  1. Quase todo o árabe tradicional se flexiona com base em gênero. Em uma sociedade em que a diferença de sexos é tão importante, seria de se esperar que frases inteiras de sua gramática refletisse esses valores culturais.
  2. O inglês, por outro lado, é essencialmente simples, direto. São pouquíssimas as “burocracias linguísticas” existentes, o que acabou fazendo com que o idioma se tornasse o mais próximo de uma língua universal que temos no mundo. Isso também reflete as características do próprio povo que, dentre outras coisas, foi responsável pela Revolução Industrial, massificando a produção e revolucionando o conceito de oferta e demanda.
  3. E o português? Somos um dos idiomas mais complexos que existe, com um mar de regras por vezes contraditórias que faz da tarefa de dominar a língua algo quase hercúleo. Reflexo também, diga-se de passagem, de um povo que até hoje vive de acordo com legislações confusas, cartoriais e burocráticas ao nível do ridículo. Não fosse o tamanho da população brasileira, aliás, o idioma inteiro possivelmente estaria quase morto.

E até onde quero chegar com isso?

Simples: independentemente dos pontos fortes e fracos de qualquer que seja o idioma, o fato deles representarem culturas inteiras permite a consolidação de um caldo caótico perfeito para se inovar.

Em geral, ambientes que facilitam o convívio de diferentes culturas acabam gerando, naturalmente, situações de troca de experiência entre povos. E essa troca de experiências, por sua vez, se traduz em enriquecer todo status quo mental com doses perfeitas de disrupção, inspirando novas ideias que dependem desses “momentos eureka”.

Quem leva a melhor com isso? A resposta é óbvia: países que se esforçaram para absorver culturas diferentes de qualquer que seja a maneira. Caminhe pelas ruas de Nova York ou de Londres e, em segundos, você passará por vozes ecoadas em inglês, francês, espanhol, alemão, português, árabe, japonês, chinês e outros idiomas.

Há troca nesses ambientes. Trocas de culturas, de linhas de pensamentos, de conceitos e preconceitos, de visões de mundo.

Em cada troca, há experiências sendo sedimentadas e intelectos sendo desenvolvidos.

Há, portanto, inovação nascendo a partir do caos linguístico dos países que são o centro do mundo.

Olhe agora para o Brasil. Mesmo se você sair às ruas turísticas da nossa principal metrópole, São Paulo, dificilmente encontrará mais do que 2 ou 3 idiomas. Aqui, impera, absoluto, o português. Aqui, até mesmo a presença de estrangeiros em nossas empresas é muito, muito menor que nos casos dos outros países. Somos um mundo inteiro em um país e, portanto, acabamos nos isolando dos elementos inoperacionais que giram livres por outros países.

O nosso isolamento linguístico é uma das nossas maiores barreiras para a inovação.

 

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