Nossa tolerância ao caos

Uma rápida olhada na imagem abaixo suscita, infelizmente, uma sensação de temor reconhecido. Por dedução óbvia, enxerga-se um amontoado de refugiados buscando vidas melhores ao cruzar o Mediterrâneo, deixando as covas vivas do Oriente Médio ou norte da África rumo a promessas menos turbulentas na Alemanha, Bélgica, Holanda ou outros países. 

Ledo engano: a imagem retrata europeus fugindo do seu continente devastado pela II Guerra Mundial e se dirigindo-se justamente ao norte da África. 

Marés, ao que parece, se invertem ao soprar da ironia. Como humanos, carregamos em nós um sentimento de sobrevivência mais forte que o de qualquer patriotismo, e não nos furtamos a abandonar crenças em busca de ambientes mais seguros para que possamos fazer o que espécies fazem: crescer, reproduzir e morrer com a menor quantidade possível de contratempos. 

Nesse sentido, pouco importa a origem ou mesmo o destino: o que importa é a busca por algum tipo de paz, de calmaria, por algum contexto qualquer em que a nossa tolerância a desgraças não seja posta à prova a todo instante. 

Diferentemente de muitas outras espécies, o que caracteriza o impulso migratório humano não é a busca por um clima mais ameno, pelo retorno ao local exato em que nascemos ou coisas do gênero: migramos sem regra de origem ou destino, sem data para começar ou terminar, sem organização ordenada ou certezas mais nítidas. 

Migramos de maneira quase repentina, quando nossos limites de tolerância são extrapolados, para fugir de situações insustentáveis de caos em que a nossa existência acaba sendo resultado muito mais do acaso do que dos nossos próprios planos. 

Migramos para podermos ter um mínimo de controle sobre a execução dos nossos sonhos, do nosso futuro. 

E, nesse aspecto, somos todos – europeus, latinos, norte-americanos, asiáticos ou africanos – absolutamente iguais. O que nos difere é unicamente o ambiente em que vivemos. 
  

2 comentários sobre “Nossa tolerância ao caos

  1. Bom dia
    Ricardo
    O texto assim é muito bom, e nos chama para atenção dos refugiados e imigrantes, como no meu caso que vim da Europa.
    Mas as fotos não são da situação que você coloca, e sim de algumas poucas décadas atrás de Albaneses fugindo para a Itália, verifique o nome do navio, e veja que esse modelo de embarcação é bem mais recente que os existentes na segunda guerra.

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