A pílula do exercício e a busca pela perfeição instantânea

Há duas maneiras de se encarar o exercício: como problema ou como solução.

Quando atividades físicas são vistas como solução, elas também são uma espécie de válvula de escape de cotidianos turbulentos: permitem que passemos horas a fio ensimesmados, passeando por entre pensamentos e normalizando a mente. Ou, colocando em outros termos, ordenando e anulando, nem que seja por algum tempo, o caos que circunda a vida moderna. Considerando que o simples ato de se ordenar o caos gera um novo caos, todo um outro leque de questões se abre. O esporte é a corrida? Então há que se evitar lesões, achar tênis ou equipamentos adequados, se inscrever em provas instigantes ao redor do mundo. Futebol? Há que se organizar times, alugar quadras, definir papeis; e assim por diante.

Mas, sejam lá quais forem os novos caos surgidos com isso, pelo menos a ordenação primária – se exercitar – carrega todo um conjunto de boas notícias para a saúde que apenas ela pode trazer.

Ou não.

Recentemente, notícias sobre uma “pílula do exercício” tem rodado a Internet. Em síntese, trata-se de um comprimido que consegue atuar nos níveis biológicos exatos que sentem os efeitos do exercício físico.

Para quem detesta manter o corpo em forma, afinal, o problema não é a escolha do tênis ou da quadra – é o exercício em si. Como consequência, é também o risco de sobrepeso, de maus hábitos e de toda uma série de doenças a eles vinculada. Claro: a solução óbvia para tudo poderia ser apenas sair de casa e dar uma volta de meia hora pelo parque mais próximo… Mas a humanidade costuma se dedicar intensamente aos “caminhos mais fáceis”.

A melhor solução para quem carrega todo o caos problemático de não cuidar do corpo, afinal, poderia ser apenas engolir um comprimido por dia. Certo?

Esse é um dos paradigmas da ciência moderna que enfrenta uma série de resistências em todos os níveis, do emocional ao ético. Afinal, os efeitos de cuidar da saúde seriam mesmo apenas físicos? E o cultivo de uma competitividade saudável, algo intrínseco ao esporte, que inclui saber ganhar e saber perder? E o sentimento de auto-superação? E os laços sociais novos formados?

Há uma corrente de pensadores que afirma, a todo instante, que o maior problema dos nossos tempos é que a ciência tem evoluído a ritmos significativamente mais ágeis do que a ética. Ou seja: é mais provável que a pílula do exercício seja devidamente testada e liberada pelos órgãos competentes antes que qualquer discussão mais densa sobre a sua viabilidade emocional sequer ganhe quórum.

Nesse sentido, a humanidade como um todo parece estar em um caminho perigosamente sem volta: o da perfeição instantânea. Afinal, se já estamos experimentando controlar desde as nossas memórias ao nosso corpo dentro de laboratórios, sem precisar suar uma única gota, para que perder um tempo valioso colecionando experiências reais e, em suma, aprendendo?

Mas… sem o tempo de aprendizado, teremos a maturidade emocional para lidar, de maneira humana – em qualquer que seja o sentido da palavra – com as características dessa nova espécie na qual estamos nos transformando?

Dificilmente.

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