A nova Guerra Fria

Na medida em que a Internet cola culturas e transforma fronteiras geográficas em meros detalhes, o mundo certamente caminha para um tipo de unificação de povos. Certo? 

Em tese. 

Em primeiro lugar, não restam dúvidas de que diferenças culturais entre os tantos países que compõem o nosso planeta nunca foram menores. Há 2 mil anos, por exemplo, uma infinidade de religiões e deuses eram cultuados pelo globo; hoje, são pouquíssimos. Há 2 mil anos, o próprio conceito de dinheiro era anômalo em muitas regiões que ainda sobreviviam de trocas; hoje, dinheiro é um dos pilares de todo e qualquer país justamente por permitir o intercâmbio de bens entre as sociedades. 

Os dois primeiros impulsos da globalização: dinheiro e religião

Em um primeiro momento, esses dois elementos – dinheiro e religião – foram os grandes responsáveis pela globalização, pela união de povos e até mesmo por um processo de paz mais duradouro. Aos mais afoitos por chegar a conclusões precipitadas, antecipo-me: sim, há guerras sendo travadas hoje por diversas regiões do mundo – praticamente todas em nome da religião ou do dinheiro. Ainda assim, o nível de violência bélica em nossos tempos é ínfimo se compararmos à época das cruzadas ou dos grandes genocídios nas duas guerras mundiais (contra os armenos e judeus, respectivamente). 
Religiões uniram povos com crenças comuns; dinheiro uniu povos com crenças distintas, mas interessados na paz como ferramenta fundamental para o bom funcionamento dos mercados. União, no entanto, nao significa a eliminação completa das diferenças sociais.

O terceiro elemento da globalização

Em tese, um terceiro elemento entrou em cena na década de 90 para aniquilar muitas das diferenças mais áridas entre os povos: a Internet. Com sua estrutura anárquica de troca de informações e com redes sociais penetrando a fundo nas mais rígidas teias sociais, os grandes movimentos de liberação modernos nasceram e aconteceram na Web. Como seria a Tunísia hoje sem a Primavera Árabe? E o Egito? Os ditadores da velha guarda permaneceriam no poder? 

É impossível trabalhar com hipóteses quando o assunto é história – há simplesmente muito caos para se conseguir fazer previsões acertadas sobre qualquer coisa. No entanto, é também nítido que a comunicação digital quebrou muitas das diferenças entre sociedades que nem a religião e nem o dinheiro conseguiram. 

Se uma rede global de informação permite que ideias de uma sociedade passem para outra de maneira tão livre, então é plausível acreditar que o mundo caminha para uma era sem nações?

Muita calma nessa hora. 

Todos querem mesmo a mesma coisa?

Há uma palavra que sempre impera nos momentos de grandes mudanças como este que vivemos hoje: equilíbrio. 

Toda grande revolução busca sempre o equilíbrio, seja do ponto de vista político ou social. O problema é que quem mais quer este equilíbrio é quem está no lado menos privilegiado, quem está buscando poder ou crescimento de alguma forma para conseguir se igualar à elite. Esta, por sua vez, nunca quer perder os seus direitos e as suas conquistas. Revolução americana, francesa, independência do Brasil, dos países africanos no século XX, enfim: todas as grandes rupturas institucionais foram fruto de momentos em que o desequilíbrio se tornou caoticamente insustentável.

Ao longo da história da humanidade, no entanto, testemunhamos apenas revoluções dentro de nações ou no seio de povos com crenças similares – todo o nosso mapa mundo foi definido e redefinido com base nisso. 

Mas e agora? O que acontece quando massas migratórias gigantes saindo de um Oriente Médio em colapso invadem uma Europa rica e absolutamente normalizada, ordenada? Há como exigir que um alemão aceite pagar de seu bolso, por meio de impostos, para que cidadãos de outros cantos do mundo e sem nenhum laço cultural, social ou histórico, possam ter uma melhor chance de vida? Como lidar com temores locais de que isso impactaria em aumento de desemprego e criminalidade? Há como o humanismo superar o nacionalismo na prática?

Aliás, há como exigir que um povo se “sacrifique” por outro, acolhendo-o em nome da “humanidade” e recebendo em troca uma disrupção social caótica? 

O futuro ainda indefinido

Em nosso novo mundo, há. Acolher refugiados e garantir uma chance de sobrevivência é hoje parte dos pilares de um mundo interconectado – o que não significa que todos concordem com isso. 

Em maio, por exemplo, a África do Sul teve ondas de violência xenofóbica extrema contra imigrantes que vieram de países mais devastados do continente; nos Estados Unidos, o pre-candidato republicano que lidera as pesquisas, o magnata Donald Trump, já deixou claro que considera imigrantes ilegais como inimigos de estado; na Alemanha, mais de 20 mil pessoas foram às ruas na semana passada para exigir a deportação imediata dos refugiados; no Brasil, também na semana passada, um haitiano foi agredido até a morte por ser acusado de estar “roubando oportunidades” de brasileiros no mercado de trabalho; e assim por diante.

Há uma guerra tácita, muda, sendo travada no front da nova sociedade globalizada: viveremos como uma sociedade unida, se ajudando mutuamente, ou explodiremos em surtos xenofóbicos encarando os menos favorecidos como inimigos pelo simples medo deles alterarem a nossa fábrica social estabelecida – por menos “justa” que ela seja? 

Dizer quem vencerá é quase impossível – mas não se pode ignorar que esta é, possivelmente, uma das guerras frias mais importantes para o futuro da humanidade.

  

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