Uma nova era: a seleção artificial e a divindade humana

Até o ponto em que o homo sapiens começou a entender de biologia e ciência, a evolução era ditada por uma única palavra: contexto. Explico: não houve nenhuma inteligência suprema que falou, do alto das nuvens, que girafas teriam pescoços alongados. Por gerações, essa espécie acabou evoluindo com um pescoço maior para conseguir alcançar galhos mais altos e, portanto, ter menos competição para comer e sobreviver.

Não vou aqui ficar “defendendo” a teoria da evolução com um exemplo atrás do outro mesmo porque, a esta altura, é inconcebível a mera existência de alguém que duvide de Darwin.

Mas voltemos ao ponto: a vida de hoje é resultado direto de um contexto de caos formado por três grandes fatores:

  1. Disrupções naturais, como choques de meteoros, grandes terremotos ou erupções que devastaram espécies inteiras em uma questão de minutos
  2. Competições externas, colocando espécies inteiras em guerra umas com as outras em ambientes sem espaços de sobrevivência para todas
  3. Competições internas, gerando um tipo de expurgação dos membros mais fracos de determinados grupos ou clãs e, consequentemente, fazendo os genes mais fortes ou adaptáveis continuarem circulando e ditando o futuro das espécies

Cruze esses três elementos em um caldo caótico e facilmente se conclui que o grande arquiteto da vida em nosso planeta tem um só nome: o acaso. Foi o acaso que fez com que espécies evoluíssem de determinada maneira, que fez corpos celestiais impulsionarem extinções em massa, que fez com que mudanças climáticas radicais moldassem os organismos com maior capacidade de sobrevivência.

Até agora.

No começo deste ano, alguns cientistas anunciaram uma pesquisa que terá como resultado a “ressuscitação” do mamute. Como? Eles conseguiram mapear o DNA de uma espécie extinta há milhares de anos e, a partir daí, planejam inseminar artificialmente uma elefante. Muita atenção neste momento: será a primeira vez em toda a história da Vida que uma espécie ganhará vida não pela seleção natural, mas pela decisão consciente de uma outra espécie: a humana.

Entra em curso a seleção artificial.

O mamute não estará sozinho: cientistas também já anunciaram interesse em ressuscitar o homem neandertal a partir da inseminação em uma mulher humana. (A propósito: há uma fila de mulheres dispostas a servir de barriga de aluguel.)

Dá para ir além: na medida em que se pesquisa manipulações genéticas – como a escolha de determinadas características em bebês ainda não nascidos – o homem está definindo também a evolução da sua própria espécie.

Resumo da ópera: estamos inaugurando a primeira era na história do mundo em que a seleção natural deixa de ser o fator determinante da evolução, sendo substituída pela seleção artificial, consciente, planejada, projetada.

A humanidade passou boa parte da sua existência pesquisando e teorizando sobre a existência de um ou vários Deuses. No mundo persa, Ahura Mazda guerreava com Angra Manyu; no panteão grego, Zeus coordenava todo um conjunto de divindades eternas como Atena, Apolo e Hermes; no mundo árabe, Allah reina supremo; no cristianismo, Deus e seus santos comandam o universo; e assim por diante. Em todos os casos, populações inteiras garantem que apenas os seus deuses são os verdadeiros; em todos os casos, a fé serviu e continua servindo de substituto para uma falta de provas concretas de suas existências e norteando atos de tenebrosa violência.

Mas, ironicamente, parece que Deus – no sentido de criador efetivo de espécies, de arquiteto consciente da Vida – nunca esteve nos céus: Deus é a própria espécie humana.

Se isso é bom ou não para as demais espécies ou para o planeta como um todo, no entanto, já é outra história.

mamute-3(1)

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