O caos inovador da NASA

Inovação e centralização são conceitos quase opostos. Inovação nasce do caos, da turbulência, do inesperado; centralização, por outro lado, é a ordem, o controle, a calmaria.

Governos, por natureza, buscam controle. Quanto mais as rédeas estiverem sob as suas duras mãos, mais eles sentem-se seguros por ditar os caminhos que julgarem melhores para si e para os seus povos. Tomemos uma das áreas mais sensíveis de qualquer governo: os militares. Se você fosse a Ucrânia, os EUA ou qualquer país do Oriente Médio, encararia as forças de guerra com importância absoluta: sem elas, a facilidade com que a sua nação poderia simplesmente se desintegrar seria catastroficamente alta. E qual a principal arma dos militares? O armazenamento da informação.

Em outras palavras: os segredos. Quanto mais informação eles acumularem e quanto menos eles deixarem escapar para outros povos, melhor se sentem.

Com o tempo, no entanto, alguns órgãos começaram a entender que simplesmente não reúnem a capacidade (financeira ou mental) para lidar com informações ao ponto de conseguir extrair inovação delas. O que fazer com esse novo dilema? Sentar em cima de minas de ouro em potencial, cientes da incapacidade de explorá-las, ou abri-las para que outros empreendedores possam tentar, dividindo os lucros?

Há alguns anos, a NASA fez um experimento com o projeto KSP, onde criou um game a partir de dificuldades reais para se lançar uma missão tripulada a Marte. O papel dos gamers: solucionar problemas que os engenheiros da agência espacial não conseguiam. Tive a oportunidade de ouvir uma palestra sobre o KSP no SXSW do ano passado e fiquei embasbacado com os avanços práticos da colaboração na viabilização dessa missão, ainda em fase de planejamento (veja post aqui).

Recentemente, eles deram um novo passo: abriram uma série de patentes para start-ups, convictos de que novas mentes conseguirão atrair mais capital privado e mais ideias para tirar projetos importantes do papel.

As regras são simples e bem compreensíveis, incluindo coisas como:

  1. O empreendedor precisa estar disposto a comercializar a tecnologia, pagando royalties para a NASA assim que conseguir;
  2. As patentes devem ser usadas em caráter de não-exclusividade

E que áreas são abrangidas? Muitas, como se pode ver na imagem abaixo.

TA1 Launch Propulsion Systems TA2 In-space propulsion technologies TA3 Space power and energy storage TA4 Robotics and autonomous systems TA5 Communications navigation and orbital debris tracking and characterization systems TA6 Human health life support and habitation systems TA7 Human exploration destination systems TA8 Science instruments observatories and sensor systems TA9 Entry descent and landing systems TA10 Nanotechnology TA11 Modeling simulations information technology and processing TA12 materials structures mechanical systems and manufacturing TA13 Ground and launch systems TA14 Thermal management systems TA15 Aeronautics

TA1 Launch Propulsion Systems TA2 In-space propulsion technologies TA3 Space power and energy storage TA4 Robotics and autonomous systems TA5 Communications navigation and orbital debris tracking and characterization systems TA6 Human health life support and habitation systems TA7 Human exploration destination systems TA8 Science instruments observatories and sensor systems TA9 Entry descent and landing systems TA10 Nanotechnology TA11 Modeling simulations information technology and processing TA12 materials structures mechanical systems and manufacturing TA13 Ground and launch systems TA14 Thermal management systems TA15 Aeronautics

A NASA tem sido um exemplo de como uma agência governamental pode buscar sucesso justamente fazendo o oposto que os seus “pares”: mergulhando no caos e buscando extrair dele inovações que, sozinha, ela jamais conseguiria estruturar.

Palmas para eles.

(Clique aqui para acessar o site do projeto de transferência de patentes e tecnologia)

Um comentário sobre “O caos inovador da NASA

  1. É a inovação, da descentralização, abrir mão do controle de pesquisa, com isso se tem novas alternativas de pensamento. Quando se tem uma equipe fechada, o pensamento passa a ser muito igual, e a lógica do programa não consegue enxergar outras alternativas.
    Ao se abrir, passamos a ter vários olhares sobre o mesmo problema, partindo de pontos diferentes e com lógicas diferentes.
    Seguindo o que está acima, um exemplo clássico de como se fica fechado nas especialidades dos técnicos, é o da equipe de foguetes alemães, os famosos V1, V2 e a V3 que estava em projeto. No final da guerra, boa parte da equipe se entregou aos americanos, e esta foi o que deu inicio a Nasa, mas os que se entregaram, tinham mais especialidades em eletrônicos, avionicos, sistema de lançamento, aerodinâmica. Os peritos nos motores e combustíveis se entregaram na sua maioria os soviéticos. Nas décadas seguintes vemos que o grande desenvolvimento soviético nesta área, que com isso faz que consigam por primeiro um satélite no espaço e o homem no espaço, mas não tem a conhecimento necessário nas outras áreas, que deram a Nasa a possibilidade de colocar o homem na Lua. Pois estas áreas de apoio tem mais aplicação na área civil, que contribui para o desenvolvimento tecnológico da sociedade como um todo.
    A descentralização do conhecimento e abertura para que novas inovações, foi amplamente utilizada na Segunda Guerra, pelos ingleses, americanos e alemães.

    Curtido por 1 pessoa

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