O ponto sem retorno

No passado, os grandes estúdios gravavam pilotos – o primeiro episódio de uma então promessa de série de TV – lançavam-nos e esperavam a repercussão do público. Se fosse positiva, continuavam gravando novos episódios; se fosse negativo, engavetavam o projeto no mesmo instante. 

Por anos essa estratégia foi a regra. Por anos ela funcionou. 

Mas como esperar que a mesma receita usada em tempos de escassez de opções para os consumidores funcionasse na Era da Informação, em que TVs concorrem ativamente com a toda poderosa e onipresente Internet? 

Não dá. E não foi por outro motivo que empresas como a Netflix apareceram para revolucionar o mercado. A sua fórmula incluía parar de transmitir o que os estúdios julgavam como promissor e começar a produzir ela mesma suas séries. 

Para nós, meros espectadores, essa mudança pode parecer irrelevante. Quem se importa, afinal, com a empresa que produz um determinado produto? 

Basta ver séries como House of Cards para entender. No caso dele, aliás, foram necessários 3 episódios para fisgar o público. Tivesse ficado no piloto, possivelmente ele jamais sairia do papel. E onde esse mesmo raciocínio levou? 

À estratégia de lançar todos os episódios da mesma temporada de uma só vez, deixando o espectador escolher quando assistir, ao invés de se pautar por uma audiência forçosamente ao vivo com 1 episódio por semana. 

Disrupção total. 

A “ordem”, o status quo plenamente organizado dos estúdios, foi bagunçado de uma só vez. Essa bagunça permitiu que se reinterpretasse o ponto de vício do consumidor em um determinado produto a partir de uma releitura dos seus hábitos. Permitiu que novos produtos ganhassem corpo, que novos talentos fossem revelados e que velhos hábitos fossem lentamente virando coisa do passado. 

Tem dúvida disso? Veja alguns exemplos divulgados pelo próprio Netflix abaixo, incluindo os episódios exatos que efetivamente viciaram os espectadores. Reforçando: tivessem mantido a estratégia de julgamento a partir do piloto, do primeiro episódio, provavelmente nenhuma dessas séries teria sobrevivido: 

  • Arrow — Episódio 8
  • Bates Motel — Episódio 2
  • Better Call Saul — Episódio 4
  • Bloodline — Episódio 4
  • BoJack Horseman — Episódio 5
  • Breaking Bad — Episódio 2
  • Dexter — Episódio 3
  • Gossip Girl — Episódio 3
  • Grace & Frankie — Episódio 4
  • House of Cards — Episódio 3
  • How I Met Your Mother — Episódio 8
  • Mad Men — Episódio 6
  • Marco Polo — Episódio 3
  • Marvel”s Daredevil — Episódio 5
  • Once Upon a Time — Episódio 6
  • Orange is the New Black — Episódio 3
  • Pretty Little Liars — Episódio 4
  • Scandal — Episódio 2
  • Sense8 — Episódio 3
  • Sons of Anarchy — Episódio 2
  • Suits — Episódio 2
  • The Blacklist — Episódio 6
  • The Killing — Episódio 2
  • The Walking Dead — Episódio 2
  • Unbreakable Kimmy Schmidt — Episódio 4

  

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