A mentira da Volkswagen e a beleza do nosso sistema

Na semana passada, a Volkswagen admitiu que mentia quanto à emissão de poluentes em seus veículos a Diesel. O mecanismo era bem simples: um sistema inseridos nos automóveis detectava testes e, durante eles, calibrava o motor temporariamente para que tudo saísse da maneira mais “bonitinha” possível. 

Sabe o que aconteceu imediatamente depois? Isso:

  
As ações da empresa caíram, em um único dia, mais de 23% – ou US$ 18 bilhões. 

Há mais do que uma análise simplória de mercado financeiro a ser feita aqui: esse caso da Volkswagen ilustra bem uma das dinâmicas que mais funcionam no capitalismo moderno. 

O raciocínio completo é: 

  1. O mercado global hoje é, em uma única palavra, ultracompetitivo. 
  2. Em uma competição acirrada ganha quem conseguir inovar melhor – e inovação aqui pode ser considerada em processos que otimizem a produção (e permitam prazos e preços menores), em novos produtos ou serviços que despertem necessidade ou em modelos de comunicação que gerem desejo. 
  3. Inovação, por sua vez, demanda investimento em pesquisa e investimento. Dependendo do tamanho do mercado, esse investimento é maior do que as empresas por si só consigam garantir. 
  4. Em momentos assim elas recorrem ao público investidor. Faz-se uma promessa de retorno, vende-se credibilidade e nao se mede esforço para entregar o prometido ao acionista. 

É aqui que entra a palavra-chave: confiança. 

Todo o mercado capitalista se baseia na confiança que tanto o consumidor quanto o investidor tem em uma determinada empresa. É essa confiança que faz com que eles sigam entregando a ela dinheiro em troca de bens ou de participações; é essa confiança que garante o capital necessário a qualquer pesquisa mais aprifundada; é essa confiança que, em última instância, permite que se inove para melhorar a vida de todos os envolvidos. 

Quando uma empresa quebra essa confiança – por exemplo, admitindo que mentiu – os danos são muito maiores do que o fato em si, o alvo da mentira. Não que uma empresa gigante como a Volkswagen vá quebrar da noite para o dia – ela tem um ativo de credibilidade ainda grande demais para ser destroçado por um único fato. Mas, claro, a sua credibilidade sofreu um estrago de bilhões de dólares que certamente causarão danos irreperáveis, seja cortando novas linhas de investimento ou encerrando ciclos de muitos dos executivos envolvidos. 

E é precisamente essa a beleza do nosso sistema. Não precisamos confiar no que grandes grupos capitalistas vendem por eles se dizerem preocupados com o meio ambiente ou com o futuro da humanidade. Sejamos francos: isso seria de uma ingenuidade imperdoável. 

Mas podemos, sim, partir do princípio de que o preço de uma mentira pode ser tão grande, tão devastador, que, na grande maioria dos casos, a honestidade do marketing passa a ser uma questão muito mais financeira do que ideológica. 

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