Guerra de trincheiras

Há momentos em todas as guerras em que exércitos conseguem avançar, vitórias ou derrotas vem em ondas ágeis e toda a geopolítica parece mudar ao sabor da adrenalina. Impérios inteiros, de Roma Antiga aos mongois de Genghis Khan, souberam se erguer sobre esses momentos de prosperidade em campo aberto onde os rumos são ditados, quase aritmeticamente, pela surpresa ou superioridade numérica. 

O mesmo ocorre no tabuleiro moderno das guerras, o mercado. Quando os campos estão abertos – isto é, quando a economia cresce e a demanda parece sempre sedenta por soluções – crescer depende dos mesmos fatores: surpresa (traduzida aqui como inovação) ou superioridade numérica (nesse caso de dinheiro, não de exércitos). São tempos de adrenalina, de euforia, de excitação generalizada onde impérios surgem, crescem e caem aos montes.

Mas também há momentos diferentes em todas as guerras, quando os espaços para avanços parecem diminutos, as circunstâncias são desfavoráveis a todos os lados e ‘não perder’ fica mais sedutor do que ‘ganhar’. As duas primeiras guerras mundiais passaram a maior parte do tempo nesse momento, com soldados entrincheirados buscando vencer seus inimigos pelo cansaço.

Durante a primeira grande guerra, centenas de milhares de soldados morreram consistentemente por um longo ano na batalha de Galípoli, sem que nenhum avanço tivesse sido feito. De um lado, aliados britânicos e franceses; de outro, os turcos otomanos buscando manter suas posições para impedir o que seria um passo decisivo rumo à invasão e conquista da capital Istanbul. Ao longo do ano, fome, doença, loucura e pequenos mas constantes ataques noturnos foram massacrando vidas e ânimos. 

Não houve uma vitória decisiva de nenhum lado: houve a desistência de quem não aguentava mais a pressão. Após um ano, britânicos e franceses bateram em retirada cedendo aos turcos uma das mais emblemáticas vitórias que tiveram ao longo de toda a Grande Guerra. A exaustão era tamanha do lado deles, no entanto, que há relatos de soldados que, ao saber da vitória, simplesmente entraram em colapso e morreram.

Em nossos tempos, crises são guerras de trincheiras. Poucas oportunidades de crescimento acachapante aparecem para qualquer empresa – e, quando isso ocorre, são disputadas a tapa. Racionamentos são impostos às organizações por meio de cortes de custo e revisões de processos; esforços são redobrados na manutenção de clientes que, de seu lado, buscam renegociar contratos e diminuir as suas despesas. A munição – dinheiro, seja em novas captações ou guardado no caixa – vai diminuindo a cada dia. 

O jogo de adrenalina exaltada muda, virando um teste de paciência e persistência onde a execução tática vira tão importante quanto o planejamento estratégico.

Nas preces de todos, a esperança de ventos melhores da economia que abram novos mapas e oportunidades. Quando as preces terminam, o suspiro profundo de quem precisa encarar a realidade com maestria.

Em crises que não se consegue enxergar um fim no curto prazo – como a que estamos vivendo aqui no Brasil – ganha quem conseguir sobreviver melhor e com menos danos.

Ganha quem tiver mais capacidade tática e couraça dura para enfrentar o pior tipo de adversidade: aquele lento, constante e implacável; aquele que testa cada célula de paciência consciente de nosso corpo.

Que passemos no teste.

  

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