A impossibilidade de se viver no passado

Dia desses li que, em algum lugar na Nova Guiné, havia uma tribo indígena que ainda praticava o canibalismo como maneira de exorcizar os demônios que estariam habitando a alma dos membros que acabariam servindo de jantar. 

Imaginei o cotidiano deles: vocabulários pequenos, raciocínios curtos e quase selvagens, acesso nulo a livros e outros compêndios de conhecimento explícito em qualquer formato. Perdoem-me os mais raivosos: sim, os raciocínios de tribos isoladas são sempre mais curtos pelo óbvio e quase físico motivo de que eles não tem ferramentas de transmissão de conhecimento mais sofisticadas com as quais exercitá-los. Vive-se, normalmente, de uma tradição oral que faz com que a memória coletiva não ultrapasse 2 ou 3 gerações. 

Há os que insistem em afirmar categoricamente que a humanidade está a caminho da perdição e que vida boa mesmo era aquela do passado, dos índios sem contato com tecnologia, que deixavam a natureza moldá-los ao invés do contrário. Nunca acreditei nisso. 

Os índios do século XV (ou os membros da tribo da Nova Guiné nos dias de hoje) nunca tiveram acesso a anestesia para dor de dente. Só esse argumento já me faz amar fazer parte de uma humanidade mais evoluída, por assim dizer. 

Mas há mais: a evolução não é um movimento anti-darwiniano, um suicídio coletivo da espécie como estes saudosistas de uma civilização que nunca viveram parecem querer crer. A evolução é, antes de mais nada, a única alternativa para a nossa sobrevivência. 

Como espécie, paramos de comer uns aos outros para evitar o contágio em massa de doenças e garantir maior efetividade da reprodução. Criamos livros (e a Internet) para perenizar o acúmulo de conhecimento, evitando cometer os erros dos nossos antepassados. Com base neles, criamos tratamentos e remédios que nos permitiram viver mais e melhor. Criamos regras sociais que, embora ainda imperfeitas, certamente são melhores do que eram há apenas poucos séculos, onde expressar um simples pensamento poderia ser o suficiente para queimarmos na fogueira. 

Não consigo enxergar outro futuro para a tribo de canibais que não a completa aniquilação, seja por fatores naturais ou por pressão do homem moderno. Eles provavelmente migrarão das suas selvas para os nossos livros de história por causa da incapacidade de interpretar os tantos problemas cercando o seu modo de vida e de se modernizar, de evoluir, de mudar. De inovar, seja proibindo o canibalismo ou se adaptando à nova era em que o mundo se encontra. 

Inovação, afinal, não é uma escolha: é resultado direto da evolução. 

Ou, como diria um Descartes moderno: inovamos, logo existimos. 

  

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s