Terra reinventada

Não estou falando do planeta aqui. Ou estou?

No último dia 6 de agosto, o portal Terra anunciou uma das mais dramáticas mudanças de todo o mercado de portais de conteúdo ao demitir 80% de seu quadro de jornalistas e fechar diversas sucursais. Crise? Segundo o CEO, Paulo Castro, não: a mudança não tem a ver com o delicadíssimo momento econômico do Brasil e sim com um ajuste a novos rumos do mercado.

Cabe a óbvia ressalva: ninguém mexe em time que está ganhando, o que deixa claro que o Terra estava perdendo. Além disso, uma crise econômica grave como a do Brasil pode até não ser a causa primária das decisões corporativas mais dramáticas – mas, no mínimo, é uma bela aceleradora de guinadas que incluem cortes de custo.

Isto posto, a alegação de Castro realmente faz sentido. Afinal, em um mundo com tanto conteúdo sendo gerado por todos os lados, até que ponto faz sentido para uma empresa contratar e manter uma equipe focada justamente em gerar mais conteúdo (ao invés de aproveitar a abundância que já existe)? Por que não mudar e, ao invés disso, focar o time na curadoria de vídeos, textos, animações, imagens e infográficos efetivamente produzidos tanto pela comunidade de usuários quanto por outros sites parceiros?

Medindo prós e contras, o primeiro ganha de longe: consegue-se operar com maior volume, maior agilidade e com uma concentração justamente na maior demanda (que, obviamente, terá atrelada a ela uma maior oferta de conteúdo). Tudo com um quadro menor e mais facilmente administrável de pessoas, diga-se de passagem.

Tire agora o foco do Terra e olhe para o mercado. E se todo mundo seguisse o seu exemplo – o que já está ocorrendo?

Uma mudança assim reinventa de forma dramática toda a dinâmica de mercado ao qual estamos habituados. Ou melhor: ajuda a concluir, de forma decisiva, uma mudança que começou com a troca do primeiro email, há décadas. 

Aos poucos, profissionais de jornalismo, publicidade ou qualquer outro segmento acabarão tendo que se adaptar a mundos feitos de mais empresas menores, enxutas, práticas, interconectadas por meio de buscadores e marketplaces online. 

Ao invés de buscar o colo de mães corporativas multibilionárias com seus antiquados planos de carreira e ambientes de trabalho burocráticos, a busca por um modelo de empreendedorismo pessoal (ou de freelancer profissional) será cada vez mais parte da nossa realidade. Exceto talvez por setores relacionados a infraestrutura, o mercado como um todo deixará de ser feito por poucas gigantes e passará a ser composto por incontáveis micro e pequenas empresas, boa parte delas com apenas um profissional ultra-especializado vivendo do que mais amam. Quer coisa melhor do que isso?

Claro: haverá gente reclamando, criticando os novos tempos e condenando o mercado inteiro: mudanças sempre trazem críticas dos que estavam confortavelmente habituados ao status quo.

Mas haverá também uma explosão de pequenas inovações feitas para acomodar essas novas relações de trabalho que já estão nascendo e que certamente transformarão tudo.

Afinal, se você pudesse trabalhar de qualquer canto do mundo, bastando ter acesso a Internet, escolheria mesmo ficar enfurnado no trânsito de grandes metrópoles? Se não pudesse contar com estabilidade por anos e anos, não acabaria se esforçando para ganhar mais em menos tempo, acelerando seu pé de meia ao entregar mais qualidade para o mercado? Se tivesse mais tempo para seus próprios projetos, não acabaria se dedicando mais ao que gosta (ao invés de se arrastar por décadas fazendo o que não gosta)?

A mudança da era das grandes corporações para a era do eupreendedorismo traz à tona todas essas questões – juntamente com as suas óbvias respostas. 

O Terra foi apenas um dos primeiros exemplos de grandes empresas se adaptando aos novos tempos.

Em um futuro menos distante do que imaginamos, creio, o resto da Terra deverá também se adaptar. 
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