O novo mito grego que sai do acordo com a União Europeia

O blefe funcionou – como já era de se esperar. 

Houve uma maratona de 17 horas de negociações, ameaças de todos os lados, nervos destroçados mas, finalmente, o óbvio aconteceu: a União Europeia aceitou um novo acordo com a Grécia, incluindo um empréstimo de impressionantes € 86 bilhões. 

Claro, há condições. Dentre elas, destaca-se a necessidade do congresso grego de aprovar, ainda esta semana, uma série de medidas de austeridade, e de ainda contar com um “inspetor” vinculado à UE que garantirá que as promessas estarão sendo cumpridas (algo visto como humilhante por muita gente). 

Para a Grécia, haverá duas consequências importantes: 

  1. O país conseguirá caixa para voltar a funcionar, saindo do limbo sócio-econômico em que estava nos últimos dias
  2. O governo será forçado, em todas as suas instâncias e apartidariamente, a ficar no azul

Convenhamos: operar no azul não é ruim para ninguém – mesmo no caso do Syriza, partido de esquerda que venceu as eleições pregando contra a austeridade. É sempre mais realista prometer bem-estar social com dinheiro em caixa, algo que não era feito até o momento.

Se o primeiro ministro grego tivesse aceito os termos originais do acordo, há semanas, sem fazer o plebiscito-blefe para mostrar o apoio popular a seu lado, ele estaria contrariando o seu eleitorado, se posicionando como “vendido” e conseguido menos do que o que conseguiu. Isso, claro, sem contar com batalhas mais áridas dentro de casa, no contrariado e confuso parlamento ateniense, que precisaria aprovar tudo. Ele sairia da crise como “entreguista” e “fraco”, para dizer o mínimo.

Sua estratégia foi outra. 

Foi parecer lutar até a última gota pelo povo grego, inclusive se indispondo duramente – e em público – com as maiores potências mundiais. Essas potências, aliás, foram as que saíram como grandes vilãs: o volume de hashtags e trending topics contra a Alemanha, apenas para exemplificar, foi avassalador. Merkel foi a bruxa, a representante de um “Quarto Reich” neo-fascista; Tsípras, o herói resistente. O Ulísses voltando para Ítaca.  

Aos olhos do povo grego ele terá que ceder em pontos que não cederia no passado por pura falta de alternativa – não por “entreguismo”. 

O parlamento grego terá que aprovar medidas de austeridade que jamais passariam no passado, colocando a culpa (e a responsabilidade) nos países ricos da comunidade. 

As finanças do país acabarão entrando nos eixos por meio de ajustes dolorosos no curto e no médio prazo – mas que eventualmente mostrarão o seu óbvio valor, permitindo que Tsípras colha os louros da vitória. 

Não que não haja uma situação de catástrofe econômica ainda a ser administrada: com mais de 26% de desemprego, alta em impostos e diminuição de benefícios sociais, os próximos meses serão difíceis. Mas dificuldade é sempre uma questão de parâmetro – e mesmo submeter a sua população a dias sem acesso a banco e com saques limitadíssimos foi também uma maneira de Tsípras estabelecer um contraponto básico e tangível ao novo caminho para o qual ele estaria conduzindo o país. 

A partir de agora, nada que aconteça será pior do que os sofridos últimos dias. 

É claro que há ainda muita história a se desenrolar. Mas, ao menos por enquanto, Tsípras tem se mostrado um mago ao conseguir manipular à perfeição os líderes da esquerda e da direita, os chefes dos maiores estados do globo e, claro, toda a população que o elegeu.

  

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