A Grécia e a arte de enganar

Há que se entender um povo – ou pelo menos a cultura de seu interlocutor – antes de tentar negociar com ele.

Vejamos os gregos.

Desde a antigüidade clássica eles se especializaram na arte de blefar, de enganar – algo que consideraram nobre ao ponto de consagrar um Deus, Hermes, como protetor dos ladrões e dos mais “especializados” em estratagemas do gênero.

A mitologia grega é repleta de casos em que enganar era talvez a mais heróica das artes. Jasão e seus Argonautas cruzaram o mundo para roubar o Velocino de Ouro; Prometeu roubou o fogo dos Deuses; Ulísses passou toda a sua complicada jornada de volta de Tróia enganando todos ao seu redor, chegando ao ponto de se disfarçar de mendigo na própria corte para “sentir o clima” e detectar eventuais traidores antes de se revelar.

A Batalha de Maratona

Uma das mais famosas batalhas travadas em seu solo foi um exemplo perfeito de como enganar seus inimigos: o então poderosíssimo Império Persa estava pronto para invadir Atenas pelo mar, a partir da baía de Maratona, quando os atenienses, com um pequeno exército, se enfileiraram no topo das colinas e fizeram os inimigos acreditarem que estavam em número surpreendentemente maior que o imaginado. O choque os fez mudar de planos: depois de dias de ponderação, o exército persa se dividiu e uma parte foi direto a Atenas por outro caminho, também pelo mar, na crença de que não haveria um único soldado grego lá uma vez que todos estariam em Maratona.

Resultado: os atenienses rapidamente dizimaram a metade do exército persa que restou e voltaram correndo para Atenas, percorrendo os famosos 42km por terra, imprimindo uma velocidade maior que os barcos dos inimigos que ainda estavam a caminho com o objetivo de fazer um novo “teatro” para eles. Quando as primeiras embarcações persas apareceram no horizonte, elas se depararam com batalhões inteiros enfileirados à sua frente, o que os fez acreditar que se tratavam de reforços ou que haviam calculado errado o tamanho das forças gregas. Claro: o exército, em realidade, estava em frangalhos, e provavelmente seria derrotado com um único sopro – mas os inimigos não tinham como saber disso e, receosos, acabaram desistindo e voltando para casa.

A pequena ilha de Creta

Até na Segunda Guerra Mundial a Grécia teve um papel de destaque raras vezes reconhecido. A pequena ilha de Creta, encravada em um dos locais mais estratégicos do Mediterrâneo, era considerada por Hitler como seu principal alvo por ser um ponto intermediário perfeito entre as tropas nazistas e Stalingrado, local onde a mais decisiva das batalhas estava sendo travada. E Hitler eventualmente conquistou a ilha – mas a resistência grega foi tão imprevisivelmente intensa, incluindo o único sequestro de um alto general em toda a história recente da humanidade, que todos os planos alemães foram atrasados até que as tropas lá em solo russo foram perdendo força e espaço, eventualmente sendo derrotadas pelos soviéticos. Não fosse essa pequena ilha grega, talvez todo o destino da humanidade tivesse sido diferente.

Os gregos são – e sempre foram – mestres na arte de enganar. Por que haveria de ser diferente agora, no auge de sua crise econômica?

Em plena crise…

Em meio ao caos absoluto, o primeiro ministro Aléxis Tsípras tinha duas opções à mão: aceitar uma proposta da União Europeia cujos termos seriam por demais severos para seu país ou apostar todas as fichas em um blefe tipicamente grego. Foi o que fez.

Às pressas, Tsípras convocou um plebiscito de última hora e, depois de uma campanha intensa que beirou o terrorismo psicológico, conseguiu um forte apoio popular para negar a oferta da União Europeia. E, de repente, tudo se inverteu.

Da noite para o dia, a Grécia deixou de ser a única realmente desesperada: Alemanha, França e demais países ricos da zona do Euro ressuscitaram um temor gritante por mergulhar de volta em uma crise de alta profundidade.

No mesmo dia, todos disseram que não mediriam esforços para conseguir uma negociação de sucesso já no curtíssimo prazo.

É claro que a Grécia continua em situação de catástrofe – mas, no momento em que as urnas foram contadas, a possibilidade de um acordo melhor para os gregos cresceu na mesma medida em que as angústias passaram a ser mais compartilhadas com todo o bloco.

Apenas a chance mais concreta de se ter parte da dívida perdoada, diga-se de passagem, já valeu o esforço. E se, na pior das hipóteses, a Grécia acabar forçada a sair da Comunidade Europeia, pelo menos Tsípras terá o apoio popular democraticamente reconhecido para conduzir o país rumo a um futuro diferente (enquanto seus pares europeus carregarão o prejuízo político de ter conduzido o bloco inteiro para a crise e o precipício).

Merkel, Hollande e demais executivos europeus deveriam ter estudado melhor os gregos antes de tratá-los como um povo “comum”, por assim dizer. Não os tivessem subestimado, os resultados para a União Europeia poderiam ter sido bem mais suaves.

Tsípras, como não haveria de ser diferente, parece ter seguido o exemplo de todos os heróis sobre os quais tanto lemos e tão pouco aprendemos. E deve também estar fazendo oferendas de agradecimento ao Deus que certamente é o seu patrono: Hermes.

 

Um comentário sobre “A Grécia e a arte de enganar

  1. Falar que essa “dívida” que a Grécia tem é pq ao invés de receber dinheiro quando pediu empréstimo a UE a Grécia, recebeu títulos podres da crise de 2008 ngm fala né?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s