Os grandes feitos e o destino solitário dos heróis

Todos temos as nossas conquistas, as pequenas ou grandes vitórias do cotidiano que enchem os nossos peitos de orgulho. Pode ser a entrada em uma faculdade, a conquista de uma suada independência financeira, casamento, filhos e toda uma lista de realizações que costumam pontuar as expectativas de qualquer ser humano.

Mas há, claro, aquelas conquistas que fogem do comum, do esperado. Não quero desmerecer nada aqui – mas sempre há aquele punhado de sonhos que são considerados praticamente inatingíveis pela grande maior parte das pessoas. 

Esses sonhos eu chamo de grandes feitos. 

Sim: conseguir o primeiro emprego certamente é algo digno de muita comemoração – mas, em linhas gerais, todos eventualmente acabarão chegando lá. Atravessar a Antártida a pé, servir nos Médicos sem Fronteiras em algum país devastado pela guerra, cruzar o Atlântico a remo, nadar de uma ponta a outra do Canal da Mancha… bom, esses itens, sim, são “diferentes”, são verdadeiramente excepcionais. 

E nem falo aqui de fazer coisas que tragam algum tipo de benefício à sociedade como um todo. Um grande feito, qualquer que seja ele, pode ter origens as mais egoístas do mundo: mas o fato de terem sido concluídos é, por si só, inspirador o suficiente para todo um mundo de pessoas que passa a encarar o impossível como possível. 

Tomemos um exemplo bem prático que testemunhei pessoalmente, já por duas ocasiões, na África: o Unogwaja Challenge

Um pouco de background: anualmente, as cidades de Pietarmaritzburg e Durban recebem a mais famosa e antiga ultramaratona do mundo, a Comrades, com 90km de percurso acumulando intermináveis subidas e descidas que devem ser feitos em, no máximo, 12 horas. Isso por si só já é algo diferente o suficiente para ser inspirador, certo? 

Pois é: já fa alguns anos que um grupo de atletas amadores acrescenta uma pimenta a mais nesse desafio: eles saem da Cidade do Cabo pedalando até a largada da Comrades para só então largar. Para dar uma contextualizada: essa “pedalada” significa atravessar todo o país de oeste a leste, somando quase 1.700km em apenas 10 dias, correndo os 90km da ultra no décimo primeiro dia. 

O caminho, inteiramente documentado, serve para arrecadar fundos para instituições com o objetivo de melhorar a vida dos tantos miseráveis que perambulam pelo mais velho dos continentes. 

Esse sim é um grande feito, indiscutivelmente – e um dos documentários sobre a jornada pode ser visto abaixo: 

<p><a href=”https://vimeo.com/70033694″>Unogwaja Challenge 2013 Short Film – &quot;Go with your heart&quot;</a> from <a href=”https://vimeo.com/andrewgiking”>Andrew King</a> on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

Mas o objetivo deste post não é discuti-lo em si, e sim abordar o que acontece depois. O que acontece depois que somamos em nosso currículo algo tão inesquecivelmente grandioso assim? Nos filmes, conquistas monumentais costumam encerrar as histórias, deixando no ar todo um clímax perfeito formado por lágrimas e endorfinas. A história chega ao seu fim. 

Na vida real, ela continua – como a vida de qualquer um. O dia seguinte de uma conquista como este desafio africano, o Unogwaja? Voltar para casa, tomar um banho, descansar por alguns dias e retomar o trabalho normal em alguma empresa qualquer. 

Desconcertante, não? 

Esses heróis da vida real acabam ficando reféns de seus próprios feitos, uma posição dificílima de lidar. No caso do Unogwaja, esse desafio em 2015 terminou no dia 31 de maio – há pouco mais de um mês. Dois brasileiros completaram: Nato Amaral, pela segunda vez, e Rodrigo João, pela primeira. 

O grau de orfandade deles, por assim dizer, pode ser visto em suas timelines do Facebook: embora tantos dias já tenham se passado, elas permanecem recheadas, diariamente, com fotos e relatos daqueles 11 dias que seus corações suaram em solo africano. O Rodrigo, inclusive, tatuou o logo do desafio na perna para marcar, literalmente, a conquista:

  
Mas e agora? Como lidar com o dia seguinte? 

Há dois caminhos quando se conquista feitos realmente grandes: buscar novos desafios e igual ou maior dificuldade, se transformando quase que em um mito vivo, ou mergulhar eternamente no passado e viver, saudosamente, de um tempo que já passou. 

Qualquer que seja a opção (que, verdade seja dita, é feita mais pelo coração do que pela mente), a linha de chegada costuma ser bem parecida: a solidão. 

Na medida em que feitos cada vez maiores são alcançados, começa-se a sair da esfera de compreensão do resto das pessoas. Os círculos de amigos verdadeiramente próximos diminuem; os assuntos começam a ficar mais escassos (até porque tende-se a considerar qualquer pequena vitória alheia como algo quase minúsculo – algo normal e fruto da perspectiva ganha com a realização de um grande feito); os pensamentos e próximas metas passam a ficar tão distantes do imaginário do possível que mencioná-los a amigos ou familiares começa a ser constrangedor. 

Há ainda, claro, o segundo caminho: viver no passado. Mas isso significa ter a história de um grande feito como algo tão ímpar que, de maneira inconsciente, revivê-la e repeti-la em rodas de conversa passa a ser algo tão comum que o mundo em si acaba querendo se afastar de você. 

Seja qual for a alternativa, o destino dos grandes heróis depois que a lua-de-mel com seus grandes feitos termina parece ser a solidão. 

Ainda assim, ao menos em minha opinião, perseguir qualquer desses grandes feitos – e quanto maiores, melhores – me parece a melhor das alternativas de vida. Afinal, seja qual for o desfecho no longo prazo, de que vale viver se não conseguimos ter ao menos uma história realmente memorável para nos orgulhar? 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s