Emigração como forma de se escapar do caos latinoamericano?

As formas podem ser diferentes: a nado, cruzando desertos, escondidos em porta-malas etc.; mas os motivos são quase sempre os mesmos.

Anualmente, movimentos migratórios humanos tem transformado de maneira dramática o próprio conceito de fronteiras. Basta ir a qualquer site de notícias, por exemplo, e se pode ler, quase em tempo real, tristes destinos de milhões de africanos que tentam desesperadamente cruzar o Mediterrâneo em busca de esperança. 

E esperança é a palavra que mais cabe aqui justamente por ser a mais irônica. 

Normalmente, movimentos migratórios são produzidos em regiões que não conseguem mais entregar um presente ou uma promessa de futuro minimamente dignos a seus povos. Fome, desemprego, dívidas, uma relação de desistência em relação às lideranças políticas: cada um desses ingredientes contribui para as ondas de humanos em busca de novos lares. 

E, embora os olhos do mundo estejam voltados mais para a África, emigrações na América Latina passaram a ser tão comuns que se transformaram em paisagem. Veja alguns dados abaixo, tirados de uma pesquisa da Pew Research:

Emigrações no continente americano

Até a década de 90, havia um total de 190 milhões de cidadãos vivendo fora de seus países de origem. Sabe como esse número estava 23 anos depois, em 2013? Em 232 milhões.

E, considerando os motivos quase sempre tristes que levam às emigrações, dá para ter uma noção mais clara de como é a vida em cada um dos países do nosso continente. 

O país que mais chama a atenção, de cara, é o México: há 13 milhões de mexicanos fora de sua terra natal, número absolutamente maior que qualquer outro. 

Sim, os Estados Unidos estão no gráfico em segundo lugar: mas isso se deve tanto à sua população quanto ao estilo migratório, muito mais focado em liderar negócios e empreendimentos mundo afora do que em caçar novas e melhores oportunidades de sobrevivência.

 
Mas talvez o gráfico que mais chame a atenção seja este, abaixo: no pequeno El Salvador, para cada 100 cidadãos vivendo dentro de suas fronteiras, há 24 que abandonaram-nas para viver nos Estados Unidos ou em algum outro país. Repetindo: 24 emigrantes para cada 100 cidadãos. 

Cuba, República Dominicana, Paraguai, Nicaragua e México vem logo depois, todos com taxas também altas. 

Sabe o que surpreende? O Brasil, país que fica na lanterna das emigrações do continente com apenas 1 para cada 100. 

Pelo menos em termos relativos, o brasileiro ainda está em uma situação muito mais confortável que a de seus hermanos, que parecem sentir um caos mais intenso em seus cotidianos.

  

Finalmente, há a lista de principais destinos por país. Sim: os Estados Unidos, obviamente, aparece na lista de todos – mas há tantos brasileiros indo para lá e para o Japão. 

É um tipo diferente de emigração, com pessoas voltando para as terras de origem de seus antepassados próximos buscando um futuro já com algum tipo de apoio. 

Mas talvez o ponto mais importante sob a ótica do Brasil seja o fato de não encabeçarmos lista de emigração de nenhum outro país. 

 

O que isso diz sobre nós? 

Por um lado, que estamos melhores do que costumamos imaginar, pelo menos em termos relativos. Mas isso também aponta um cenário péssimo no longo prazo, com a ausência do Brasil na lista de opções prioritárias de emigrantes do nosso próprio continente.

E por que isso é ruim? Porque quando alguém larga tudo em busca de um futuro melhor, este alguém emerge do mais profundo caos sem absolutamente nada a perder e uma gana sobrehumana na luta pelo futuro. Há, claro, os que sucumbem na tentiva de construir uma vida além de suas fronteiras – mas essa gana costuma gerar de pequenos negócios a impérios gigantescos, trazendo consigo uma miscigenação cultural com um poder de cosmopolitização fundamental para qualquer povo globalizado. 

E isso não é nada novo: basta olhar quase todas as grandes fortunas da maior potência do mundo, os Estados Unidos, que nasceram das mãos de europeus fugidos das Grandes Guerras. 

Não é o nosso caso.

Estamos cada vez mais isolados, deixando de ser referência até mesmo para quem não tem mais nada a perder. 

Estamos naquele ponto que não é nem o caos absoluto que expulso os que vivem aqui dentro e nem, claro, a ordem capaz de atrair os que nos olham de fora. 

Não somos nem ruins o bastante para perdermos os nossos próprios cidadãos a galope e nem sedutores o bastante para atrair os sonhos alheios. 

E, de todos os lugares que poderíamos estar, este limbo global talvez seja o verdadeiramente mais desesperador, principalmente quando e precisa tanto de mudança.

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