Para entender Zeitgeists (Parte 4: Definição)

Se a história é composta de inúmeros confrontos dialéticos, e se as sínteses resultantes de cada confronto representam uma nova ordem, então é natural se supor que os próprios espíritos que regem os povos – o que Herder denominou volksgeist – são mutáveis e estão em constante evolução.

E, se estão em evolução, então têm como grande fator determinante os fatos ocorridos ao longo do próprio tempo e da própria história, muito mais do que simplesmente o sentimento nacionalista.

Ao invés de volksgeist, então, entrou em uso o termo zeitgeist (zeit = tempo, geist = espírito).

Zeitgeist é, pois, o espírito de determinado tempo, como síntese de dialéticas sócio-culturais, que predomina em determinadas sociedades e dita, de certa forma, maneiras de pensar e padrões de comportamento.

Veja alguns outros exemplos de zeitgeists:

  • Renascimento, que pregava um tipo de educação privilegiando o domínio das artes e a criatividade, resgatando a Europa da Idade Média.
  • Sentimento bandeirante que regeu o mundo na época dos grandes descobrimentos, quando novas terras foram descobertas e, com elas, novos impulsos de se recomeçar a vida explorando lugares distantes, mesmo que inóspitos, eclodiram. O povoamento das Américas se deve, essencialmente, a este zeitgeist.
  • Sentimento de liberdade, igualdade e fraternidade que dominou a França do século XVIII, gerando a queda da Bastilha e uma das mais importantes revoluções de toda a história, a Revolução Francesa.
  • Sentimento de orgulho gaúcho, fortalecido no século XIX e fruto de conflitos entre o império e o estado do Rio Grande do Sul. O personagem típico gaúcho tomou corpo nesta época, que gerou um zeitgeist forte o bastante para iniciar a fracassada Revolução Farroupilha.
  • Sentimento de superioridade racial surgido na Alemanha da primeira metade do século XX, dando origem ao nazismo e à 2ª Guerra Mundial.

Zeitgeist em um mundo global

Perceba pelos exemplos acima que, quando foi originalmente pensado, o conceito de zeitgeist era aplicado primordialmente à evolução dos pensamentos dos povos de determinadas nações.

Perceba também que o espírito acaba sendo tão forte, tão entranhado na cultura dos povos, que ele abre caminho para movimentos que vão desde revoluções a genocídios.

Em um mundo globalizado, no entanto, as fronteiras são tênues demais para prender os espíritos temporais aos limites das fronteiras geográficas.

Com meios de comunicação de massa e redes de informação, conseguimos saber, instantaneamente, o que ocorre em qualquer ponto do mundo. E, assim, abrimos nós mesmos espaço para sentimentos sociais globais, frutos de um conjunto de confrontos dialéticos ocorridos e difundidos em todos os países do mundo informatizado, somando um espírito global, um padrão de ética e de comportamento mais ou menos uniforme.

E, se o espírito é global, então ele dificilmente dará margem a novas revoluções sociais locais, pois o próprio conceito de país, composto de uma identidade cultural tão ímpar que o seu povo sente uma ululante necessidade de travar batalhas com outros povos em busca de uma dominação ideológica, já cai no ridículo.

Se as tensões dialéticas não podem mais ocorrer no cerne dos sentimentos nacionalistas, de tão tênues que eles se transformaram, elas buscam abrigo em nichos de comportamento – ou tribos, por assim dizer – como as novas fronteiras sociais de comportamento.

Nascem os punks, góticos, hippies, yuppies, emos e mais uma série de “tribos”, cada uma definindo padrões claros de comportamento. A sociedade passa a ser multicultural, pluralizada ao mesmo tempo em que a globalização vai tomando um corpo cada vez maior.

Assim, quando você começa a estruturar um projeto para um determinado público-alvo, é natural que consiga isolar, dentro deste público, uma ou mais tribos preponderantes.

A partir daí, passa a ser um simples exercício de estudar o comportamento dessas tribos e de tentar detectar o zeitgeist em que elas vivem.

O impacto do conceito da globalização na nossa sociedade veio de uma forma muito diferente da imaginada: ao invés de um único grande mundo, o que surgiu foi um conjunto infindável de pequenos mundinhos sociais, cada um com as suas próprias dialéticas.

Se você, por exemplo, está lendo este livro, então provavelmente faz parte de um público guiado por um zeitgeist que inclui conceitos como inovação, colaboração, interatividade etc.

Veja alguns outros exemplos de zeitgeists modernos:

  1. Revolução sexual, já mencionada no início deste post;
  2. Desejo de entrar em um maior contato com a natureza, gerando desde novos setores de mercado como ecoturismo até dietas naturalistas e vegetarianas;
  3. Metrossexualidade, ou o exercício de uma grande vaidade no público masculino, que passa a cuidar da própria estética com o tipo de zelo até então peculiar às mulheres.

Os três itens acima são zeitgeists. Todos ditaram – ou ditam – padrões de comportamento para determinados nichos sociais. E todos deram – ou dão – margem ao surgimento de uma série de produtos e serviços feitos para suprir demandas que, até então, simplesmente não existiam.

Se isso já era feito, independentemente do nome que se dá ao conceito, de onde vem a relevância de se entendê-lo de uma forma mais científica?

Zeitgeist e Inovação

Em geral, leva vantagem em um mercado competitivo quem melhor consegue suprir determinada demanda. E uma demanda só pode ser bem suprida se a empresa que faz a oferta consegue entendê-la bem – de preferência, melhor do que os seus concorrentes. Assim sendo, conseguir mapear um ou mais zeitgeists que cercam o cotidiano do público-alvo passa a ser um exercício fundamental para o planejamento da melhor estratégia de negócios.

Afinal, toda sociedade é, em essência, movida por algum tipo de espírito do tempo – o espírito que funciona como gatilho para comportamentos sociais ou consumistas. É simples assim: entender o zeitgeist é o primeiro passo para se conseguir sucesso em uma empreitada comercial moderna, qualquer que seja ela.

Se os elementos da inovação são o caos e o problema a ser resolvido é o limite, o zeitgeist funciona como uma bússola para que o inovador consiga chegar ao seu destino.

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