Para entender Zeitgeists (Parte 3: O Mito do Mestre e do Escravo)

Uma rápida análise da filosofia herderiana aponta para um tipo de enfoque essencialmente atemporal dos espíritos dos povos. Ou seja: cada “país” tem o seu volksgeist nítido, claro e passível de interpretação.

No entanto, não existe nenhum tipo de nação que seja imutável, e nenhum tipo de relação social tão estável que seja capaz de resistir a mudanças.

Este caráter temporal foi inserido no contexto de volksgeist por Hegel, contemporâneo de Herder.

A filosofia hegeliana inteira se pautava em cima do conceito da dialética. Para se fazer mais claro, ele criou um mito simples, do mestre e do escravo, para explicar filosoficamente o surgimento da autoconsciência, resumido abaixo.

Entenda, antes de mais nada, que só existe a autoconsciência quando se sabe da existência de uma outra pessoa. Se alguém, teoricamente, nunca teve contato com um outro ser vivo, e se julga único no mundo, este alguém não tem uma autoconsciência, ou uma consciência do que ele seja de fato, mas sim uma noção pervertida de que ele é a própria encarnação da existência, uma espécie de “eu” absoluto.

O mito começa quando uma consciência, então crente de ser única no mundo, encontra-se, subitamente, com outra. Duas reações poderiam emergir deste encontro:

  1. As duas consciências se ignorariam mutuamente. Neste caso, não haveria formação de uma autoconsciência, posto que ambas seguiriam os seus rumos achando que encontraram não uma semelhante, mas sim um outro objeto como tantos que as cercam;
  2. As consciências entenderiam que estavam vendo a si mesmas em um outro corpo, e ficariam mesmerizadas com a percepção de que não eram únicas e absolutas no mundo.

Na segunda opção, quando um “eu” vê outro “eu”, ele enxerga a sua posição de absoluto como comprometida, e inicia um conflito para ver quem ganha.

Se o conflito levasse à morte, a autoconsciência não se formaria e o mundo seria novamente “pertencente” a uma única consciência.

Mas, caso contrário, uma nova relação surgiria.

Quando uma consciência alcança a sua vitória, ela força a outra a uma posição de submissão. Uma vira mestre; outra vira escrava. Ambas passam a ter um papel social e uma relação direta que as une.

No entanto, existe uma forte instabilidade nesta relação, pois o escravo não está neste papel por desejo próprio e sim por fraqueza perante o mestre. E faz parte da característica do escravo lutar para, em algum momento, reverter a situação e se tornar, ele próprio, o mestre.

Nesta nova relação, portanto, a autoconsciência ainda não é atingida de maneira plena. O escravo se reconhece como tal apenas por temor ao mestre (temor que pode se esvair caso o escravo rebele-se e deixe de ser escravo). O mestre, por sua vez, tem a sua autoconsciência (ou seja, o reconhecimento de quem ele é) completamente dependente da consciência do escravo (afinal, não há mestre sem escravo).

Em outras palavras, o mestre depende da existência de um escravo que dê a ele poder e reconhecimento como o seu senhor – caso contrário, ele não é mestre; e o escravo, que é quem, de fato, detém o poder do reconhecimento, entra em constante conflito para sair desta posição.

A autoconsciência plena, assim sendo, surgiria apenas quando a escravidão fosse abolida e quando cada um tomasse consciência do seu papel dentro da sociedade, agindo de acordo com ele e com os seus desejos.

A dialética em si

O mito de Hegel é fruto natural da dialética que ele sempre usou como centro da sua filosofia. Em outras palavras, ele sempre parte de um ponto específico – a tese – e contrasta com o seu oposto – a antítese. O resultado desse confronto é o que resume toda a relação: a síntese.

Uma das interpretações mais politizadas do mito acima reza que:

  1. Tese: o homem está em constante conflito buscando subjugar o seu igual e atingir uma posição de mestre, caracterizada pela dominação política;
  2. Antítese: uma sociedade sem forças dominantes, em que não haveria escravos para se subjugar a mestres e nem mestres para ter escravos;
  3. Síntese: uma sociedade composta por cidadãos integrais e não servis ou dominadores, que, por se reconhecerem uns aos outros, delineiam também os próprios limites e são, portanto, plenos detentores da autoconsciência.

Hegel define a história da humanidade como parte de um constante confronto dialético.

Sempre havia determinada tese que era confrontada por uma antítese. Este confronto gerava guerras e revoluções, sendo superado apenas na síntese que estabelecia uma nova ordem por um período. Em tempo, este período se transformava, por sua vez, em tese; surgia uma nova antítese e, do confronto, uma nova síntese; e assim por diante.

Sendo prático e claro: se considerarmos que o reinado de Louis XVI, na França, estava em um espectro da dialética como tese, a Revolução Francesa pode ser vista como a sua antítese; e o período Napoleônico, que conciliou ideais da Revolução com o conceito de monarquia, como síntese.

A importância de se entender o mito hegeliano e o conceito de dialética se dá porque é justamente ele quem leva o conceito de volksgeist a um novo patamar – algo que veremos no post de amanhã.

hegel

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