Sobre percepções e realidades

Há duas exposições irmãs em curso no MASP sobre a arte no Brasil até o século XIX e no século XX. 

Não são exposições grandiosas, com o peso que o principal museu da maior e mais rica cidade da América do Sul deveria ter – mas, ainda assim, são extremamente interessantes. Não pelo óbvio: para falar a verdade, chega a ser melancólica a quantidade diminuta de quadros, alguns dos quais, honestamente, parecem estar ali apenas para “encher as paredes”.

Em verdade, a exposição vale a pena pelo seu tema. Afinal, o coletivo das expressões culturais de um tempo refletem a forma com que o próprio país se vê (e, consequentemente, se retrata). Zeitgeist puro, praticamente esfregado em nossas fuças desde a primeira pincelada lá nos idos do século XVII. 

Tomemos três grandes períodos – mesmo porque a separação em duas mostras feita pela curadoria me pareceu absolutamente aleatória. 

À primeira vista

As primeiras telas da primeira exposição não foram pintadas por nenhum brasileiro. São exemplares incríveis de Frans Post, pintor holandês que veio ao Brasil de Maurício de Nassau junto com outro grande mestre, Albert Eckhout. 

  
Olhe a tela acima: ela retrata mais do que o olhar de um dos primeiros europeus sobre as nossas terras. Primeiro, chama a atenção a palidez do céu, totalmente incompatível com o sol pernambucano. As cores são calmas, as paisagens são amplas e abertas e é como se um filtro bege tivesse sido aplicado à cena como um todo. Natural: os olhos de um holandês não se habituam à luz dos trópicos assim, instantaneamente, e de fato levou algum tempo para que esse “filtro acidental” fosse removido. 

No século XVII, o Brasil “era” assim: um ambiente aberto, vazio, quase monocromático, sem uma população realmente local e habitado por negros escravos ou europeus colonizadores. Simples. 

Alguns séculos depois…

Avançemos algum tempo e o Brasil muda. As cores agora são mais fortes, o exótico cede espaço à cidade, algumas poucas pessoas dão perspectiva de vida a um país novo, jovem. 

  
É uma espécie de local em transformação, onde a fumaça dos navios no Porto de Santos pintado por Benedito Calixto contrasta com o vazio das ruas de terra. 

No século XX…

As cenas de um país em transformação cessam quando passa a existir uma noção de identidade pessoal. Gente, enfim, passa a substituir as tantas “coisas”. 

Expressões ganham destaque, tragédias viram assuntos através de lágrimas e o brasileiro começa realmente a ser retratado. Pinceladas, como essas de Portinari ou de Maria Auxiliadora da Silva, viram exclamações de nacionalidade.

 

  

E daí? 

O interessante de se analisar obras de arte por recortes temporais é que se consegue entender que a realidade é, sempre, uma questão de percepção. 

Estamos falando de um mesmo país, afinal. Mas qual? O que se apresenta como um campo aberto sem cor e sem alma? Ou como um centro comercial que mescla desenvolvimento a preguiça? Ou, enfim, como um caldo intenso de emoções onde o pano de fundo, na prática, é irrelevante?

Depende da ótica de quem faz a definição. 

E, como tudo na vida, de quem a vê.

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