Olhando os olhares de quem combateu o caos de frente

Inovar é impor ordem ao caos. Mas a pergunta que sempre fica é: até que ponto isso vale a pena?

Há uma espécie de anexo à Pinacoteca de São Paulo onde funciona o Memorial da Resistência. Nos anos mais negros da história recente do Brasil, o temido DOPS – Departamento de Ordem Política e Social – ficava ali. Traduzindo: naquelas dependências, um sem número de brasileiros foi detido e torturado até os limites da humanidade.

Hoje, uma pequena exposição ilustra alguns dos efeitos daquela era: ausências, do fotógrafo Gustavo Germano.

São duplas de fotos das mesmas pessoas, todas combatentes políticas, tiradas dos mesmos lugares, separadas apenas por algumas décadas.

E, nas fotos, os olhares de antes e de hoje revelam um abismo desesperador. Em alguns casos, revelam pessoas que se foram; em outros, lembranças para sempre presas à carne, traduzidas em uma mescla de medo com ódio.

Fotos não respondem a uma pergunta que eu, pelo menos, gostaria de fazer àqueles sobreviventes: “valeu a pena”?

Por anos, eles e muitos outros guerrilharam contra a impossibilidade de se pensar livremente. Por anos, suas vozes eram a principal arma contra o caos social e político trazido pela ditadura militar. Por anos eles berraram os extremos para conquistar o direito de se expressar.

A época da ditadura foi um exemplo clássico de como ordem e caos se alternam.

No começo da década de 60, o Brasil estava em estado de explosão política, com choques de ideias e conceitos e uma bússola absolutamente quebrada. Os militares se apresentaram como uma solução, prometendo ordem.

Conseguiram negociar, embora com balas, sua chegada ao poder – mas a ordem prometida rapidamente se transformou em novo caos, ainda piorado.

Veio a resposta com a resistência. Vieram torturas, desaprecimentos, desesperos.

20 anos depois, os militares finalmente saíram e a democracia se estabeleceu com a vitória dos nossos heróis da resistência. Um ciclo de caos terminou e o modelo de constituição implementado foi uma inovação sem precedentes na história brasileira. Uma nova ordem se abateu sobre o país.

Mais algumas décadas se passaram.

Ainda que sem a violência truculenta do meio do século XX, a sociedade parece ter se “caotizado” novamente, com escândalos de corrupção puxando manifestações, brados de impeachment e, ainda que tímidos, alguns clamores insandecidos de desmemoriados pela volta dos militares.

O homem parece ter uma ansiedade adolescente para repetir a sua própria história em um ciclo infinito. E, embora seja impossível prever o futuro, talvez seja bem realista considerar que o presente, de alguma forma, esteja rapidamente se transformando em passado.

Pede-se uma nova ordem. Novamente.

Mas como será que os protagonistas da resistência ao golpe, os que sangraram contra o caos militar em busca da instituição da democracia, encaram esses nossos tempos?

Como será testemunhar que mudanças são como ondas que, por maiores e mais devastadoras que sejam, sempre fazem as suas águas retornarem invariavelmente ao mesmo lugar?

Será que, com os olhos de hoje, eles acreditam que a luta valeu a pena?

Difícil afirmar que sim olhando as fotos do Gustavo Germano.

Esses, abaixo, são alguns dos nossos heróis antes e depois de “vencerem”.

  

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s