A desconfortável ausência da zona de desconforto

Há alguns meses, uma blogueira chamada Sílvia Pilz acabou tirando a sua coluna do ar na Globo.com. O motivo: a polêmica que ela costumava gerar estava em níveis tão estratosféricos que o veículo desistiu de apoiá-la e acabou jogando a toalha.

Não vou defender e nem condenar a Sílvia Pilz. O ponto aqui é outro, mesmo porque o nome do blog dela – Zona de Desconforto – já deixa bem claro que a temática jamais seria plácida e florida, para dizer o mínimo. O que importa aqui é entender como o processo de neo-censura acaba se dando em nossos tempos.

O estopim do estresse com a blogueira foi um post chamado “O plano cobre”. Apenas para citar um trecho:

“Todo pobre tem problema de pressão. Seja real ou imaginário. É uma coisa impressionante. E todos têm fascinação por aferir [verificar] a pressão constantemente. Pobre desmaia em velório, tem queda ou pico de pressão. Em churrascos, não”. 

O texto inteiro se desenrola dessa maneira, satirizando o comportamento de uma classe social a partir de sua ótica. Mas, verdade seja dita, não há nenhum crime em nada que ela escreveu. Foi apenas uma sátira relacionada a comportamentos – uma sátira que, embora tenha incomodado a muitos, vive dentro da mais perfeita legalidade e coberta pelo manto de liberdade de expressão ao qual todos temos direito. 

Temos direito de falar o que quisermos, o que não se traduz na obrigação de concordar ou gostar de tudo o que lermos ou ouvirmos. 

Ainda assim, imediatamente depois da sua coluna, a blogueira foi bombardeada com comentários que incluíam até mesmo ameaça de morte. Ela mesma escreveu um artigo em seu blog pessoal sobre o caso (veja aqui) onde também fala sobre como isso acabou fazendo a sua coluna na Globo sair do ar.

Sim: não se discute que ela praticamente caçou polêmica e que, considerando que tenha algum mínimo bom senso, já podia prever o mar de críticas que seu artigo suscitaria. Mas ela acabou provando um ponto.

Em nossa sociedade não tão democrática quanto acreditamos, todos podem ter as suas opiniões – mas desde que elas concordem com as opiniões da maioria. Quanto mais “minoritária” for uma opinião expressada, mais violenta será a reação a ela ao ponto de fazê-la se calar, sendo cortada pela raiz.

E isso é perigoso. Muito.

Opiniões contrárias, afinal, são fundamentais para engrossar o caldo de caos que define o mundo das ideias. Sem conflitos (ou com conflitos mínimos) há pouca dialética, há pouca “pensática”, há pouca “crise ideológica”.

E crises ideológicas fortes – ou seja, um contexto definido pelo caos quase anárquico de opiniões – são fundamentais para se poder gerar pensamentos inovadores, sejam eles aplicados a uma sociedade inteira ou a um produto ou serviço.

Sim, sei que relacionar a resposta a um post polêmico de uma blogueira a toda a capacidade de inovação de uma sociedade pode ser um exagero. Mas, na medida em que expressar opiniões mais contundentes gerem reações que culminam em uma censura, tirando-as do ar, todos acabamos ficando reféns de uma expectativa de aprovação da maioria para sequer nos manifestarmos.

E, em uma visão de longo prazo, como esperar inovação sem incentivar a contradição?


 

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