A inovação por trás do perverso Estado Islâmico

Inovação não é algo partidário, algo que funcione apenas “para o bem”. Aliás, o própria definição de “bem” ou “mal” é algo que depende mais da cultura, do contexto, do que de qualquer outra forma de interpretação. E análises efetivas requerem uma espécie de “apartidarismo” no olhar.

O ISIS – Estado Islâmico – é um exemplo perfeito disso.

Dispa-se de preconceitos (ou, nesse caso, de conceitos). Procure, nem que seja apenas para efeito de compreensão deste post, ignorar as tantas desumanidades por trás das ações desse que talvez seja o mais perverso dos grupos institucionalizados do mundo.

Pergunte-se uma única coisa: como é possível que uma organização como o ISIS tenha fundado um país?

A resposta é a mesma que carregou toda e qualquer revolução na história da humanidade: prometendo afastar o caos do cotidiano dos habitantes.

Aos olhos do resto do mundo, poucas coisas podem parecer mais caóticas do que a vida naquele canto inóspito. Mas um dos exercícios mais importantes que se deve sempre fazer é enxergar uma realidade pelos olhos de quem a estiver vivendo (e não de quem a estiver testemunhando a distância).

É óbvio que o ISIS não é uma unanimidade para os seus cidadãos – que o digam os homossexuais e as adúlteras que sofrem punições absolutamente medievais, para dizer o mínimo. Mas, ingenuidades à parte, uma coisa é conquistar um território sob força militar; outra é mantê-lo em relativa prosperidade por tanto tempo.

O fato do ISIS continuar no poder, afinal, já deixa claro que algum tipo forte de apoio popular serve de base para o regime – caso contrário ele já teria sido derrubado. Mas como, exatamente, isso é possível?

Antes do ISIS, todo aquele pedaço da península arábica entre a Síria e o Iraque era uma espécie de “terra sem lei”. O Iraque, afinal, ainda não conseguiu se reerguer governamentalmente depois da sucessão de guerras pelas quais passou e a Síria ainda está focada em resolver os seus conflitos internos eclodidos desde a Primavera Árabe. Lei, portanto, virou artigo raro nas zonas rurais desses países.

Sem lei há roubos, assassinatos, estupros e todo tipo de crime hediondo aleatório que faz qualquer humano viver sob constante temor. E aqui cabe uma observação: Por pior que seja, o medo que se pode ter do próprio Estado Islâmico, hoje, é provavelmente uma ínfima parte do qual a população se submetia antes dele. Independentemente de qualquer juízo de valor, o fato é que a força bruta do ISIS está baseada em alguma lei – e leis são, por definição, mais previsíveis do que o impulso do acaso que transforma qualquer vizinho em um genocida potencial.

Em outras palavras, a região inteira vivia em pleno caos e o Estado Islâmico ofereceu uma solução prática, óbvia, cujas potências regionais não conseguiam entregar há tempos: lei. E isso funcionou.

Mais do que qualquer força militar, o que mantem o ISIS no poder é justamente a sua promessa de ordem, algo que se pode considerar como absolutamente inovador em toda aquela região.

E, por incrível que pareça, eles cumprem essa promessa com uma estrutura governamental surpreendentemente invejável.

A região inteira é subdividida em uma série de “Wilayats”, ou províncias, cada uma com um governador. Os governadores, por sua vez, respondem diretamente a Abu Bakr Al-Baghdadi, que se autodeclarou Califa.

Este tem um gabinete próprio – o Conselho de Shura – com 10 ministros de estado responsáveis por áreas que incluem educação, saúde, religião, transportes e até mesmo o meio ambiente.

Os hospitais, públicos, são completos com núcleos de pesquisa, maternidades e centros cirúrgicos. Em menos de um dia, os bebês já são registrados e recebem certidões de nascimento oficiais do Estado Islâmico, garantindo os direitos de cidadania previstos em todas as suas leis. Reforço: o exercício da cidadania lá pode até ser bem mais restrito do que em outros países do mundo – mas é também muito mais efetivo do que o que eles tinham antes. Como tudo na vida, é sempre uma questão de parâmetro.

Há campanhas de vacinação contra pólio, sarampo, rubéola e outros males.
E há, claro, um sistema judicial completo que age de acordo com uma ultra rígida interpretação da Sharia, ou lei islâmica. Roubou? Perdeu a mão. Simples assim – o que também garante uma espécie de “paz” interna maior do que a de muitos países no mundo.

Não quero aqui parecer um defensor do ISIS: a mera existência de um sistema de governo tão perverso assim em pleno século XXI é uma espécie de insulto à evolução da humanidade.

Mas com um pouco de frieza analítica, é impossível negar o altíssimo grau de inovação de um grupo que, ao unir fanatismo religioso com uma promessa de ordem para todo um povo vivendo no caos e ignorado pelas suas próprias pátrias, conseguiu fundar uma nova potência a partir do nada.

Se eles conseguirão se encaixar no mundo moderno e se institucionalizar na comunidade internacional, cuja visão é bem mais ampla, é uma outra história. Tomara que não.

Mas a fundação e continuidade em si do Estado Islâmico já é uma aula de estratégia e inovação para qualquer um que se interesse pelo assunto.

A propósito: recomendo esse vídeo abaixo, da CNN, que detalha um pouco mais a estrutura dessa organização encarada como terrorista pelos de fora e como salvadora por muitos de seus cidadãos.

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