A nuvem e as coisas

Ultimamente, tenho me pegado irritado com a materialidade das coisas.

Se preciso trabalhar, tenho que me locomover todo dia para a agência, me “assentar” em uma mesa repleta de papéis escorrendo pelos lados, driblar reuniões de última hora e me isolar em um mundo mais silencioso onde a concentração possa viabilizar a criação.

Se tenho uma reunião, preciso levar o Mac, seus 28 mil cabos, mochila e, obviamente, Iphone. Chegando na reunião é preciso testar cabos, mexer no projetor, fuçar na pasta de arquivos etc.

Se quero me locomover para mais longe, tenho que pegar carro, checar gasolina, calibrar pneus e, onde quer que vá, cortar o trânsito infernal e caçar algum estacionamento supervalorizado.

Se quero fazer algum esporte, tenho que entrar em uma academia, formar algum tipo de grupo e gastar fortunas em equipamentos que nunca foram exatamente essenciais para ninguém.

O foco de tudo isso está errado. Tudo isso, aliás, é o século XX.

Vamos por partes:

  1. Qual o sentido em sair do silêncio do lar para ir a um local de trabalho relativamente distante com o própósito de se isolar?
  2. Em uma apresentação de trabalho, por que tanto tempo do “show” é destinado a tarefas tão esdrúxulas quanto fazer o projetor funcionar ou achar os arquivos atualizados?
  3. Se a ideia é ir do ponto a ao ponto b, para que conscientemente absorver tanto estresse por trás de um volante?
  4. E, finalmente, qual a graça de um esporte que tome mais tempo em sua organização do que em sua execução?

Este quarto ponto talvez seja dê a dica mais importante: hoje, muitos tem o hábito de “organizar a vida” tão entranhado no cotidiano que acabam ignorando que a graça em si está em aproveitá-la.

Quem me conhece sabe que eu curto correr. Muito.

E por distâncias além do que se costuma considerar razoável, como 50, 80, 100km subindo e descendo montanhas. Gosto da sensação de passar horas e horas imerso em uma atividade tão zen que nada consegue interromper a paz que ela acaba trazendo de brinde.

E corridas longas me ensinaram uma coisa fundamental, embora já batida por clichês mal lançados: menos é mais.

Quer correr bem por mais de 50km no meio do nada? Leve uma mochila de hidratação, alguns pacotinhos de amendoim e um pouco de dinheiro para garantir a sobrevivência em caso de imprevistos. E só.

Qualquer coisa que levar a mais, pesará – e você precisará carregar esse peso sozinho, martelando a coluna a cada passo. Cada grama conta.

Menos, portanto, é mais.

E, depois de algum tempo, esse pensamento acabou vazando para outras áreas da minha vida.

Carro? O meu está à venda. Opções como o Uber e o 99Taxi fazem ter um carro em grandes cidades algo mais relacionado a uma necessidade de ego do que de locomoção.

Computador? Aposentei o meu e o troquei por um Ipad com um “case-teclado”. Liga rápido, resolve os problemas e pesa poucos gramas. Com isso, outra mudança: todos os meus arquivos, sem exceção, foram para o Dropbox. Assim consigo alterá-los onde quer que esteja com o Office online desde que tenha conexão com a Web (o que, convenhamos, sempre há, embora mais precária do que deveria).

E o local de trabalho? Bom… eu tenho a bênção de trabalhar a 1km de casa e, verdade seja dita, amo a companhia dos personagens da agência. Isso é bom: acaba se traduzindo em uma espécie de solução que evita que eu me torne um hermitão moderno. Ou seja: continuo indo trabalhar em um lugar diferente de onde moro – mas por comodidade (e não necessidade).

Quando quero viajar para algum canto qualquer, é só eu me mandar com IPad e caçar alguma WiFi minimamente confiável. Trabalho de onde estiver – e a hora que for.

E por que estou escrevendo tudo isso aqui no blog? Porque, de alguma forma, é como se eu estivesse me “digitalizando” ao entrar de maneira tão decisiva na nuvem. Dropbox, Office online ou 365, Uber, 99Taxi… todos esses serviços um dia foram produtos e, hoje, não precisam mais de invólucros, de embalagens.

Tecnicamente, o futuro já chegou no sentido de que viver conectado a pensamentos (ao invés de elementos) é absolutamente viável. E a tecnologia tem uma velocidade tão impressionante que ela chega antes mesmo dos nossos hábitos, impondo suavemente uma mudança cultural. Creio, já com o pedido de perdão pela arrogância da frase, estar vivendo em um futuro que em pouco tempo será o novo status quo.

E quer saber? Estou nas nuvens.

Nesse caso, literalmente.

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