Neo-anarquismo do Século XXI

O  que a Praça Tahrir, as manifestações de junho e o Instituto Royal têm em comum?

Anarquia, por definição, significa a falta absoluta de qualquer estrutura hierárquica em uma cadeia de decisões. Em tese, apesar de romântico, é também um conceito muito pouco prático por ser contrário à própria natureza humana: afinal, como animais, sempre queremos nos destacar perante os nossos pares, buscando alguma maneira mais sofisticada de nos tornarmos o “líder alfa”.

Sendo prático: quando alguém ergue uma bandeira liderando um movimento anárquico, este alguém está, no mesmo instante, caindo em contradição pelo simples fato de que não se pode liderar um movimento que tem como principal característica a falta de liderança.

Mas o que dizer então dos tantos movimentos recentes que se espalharam mundo afora, derrubando governos e tumultuando o status quo de sociedades inteiras?

Seja no caso de uma revolução ou de uma inquietação mais acalorada, o fato é que existe um novo tipo de movimento social que podemos chamar de neo-anarquismo: uma estrutura temporária de mobilização que se alimenta de alguma causa, ganha vida própria, gera um grande número de mudanças e vítimas e se canibaliza pela instabilidade inerente a qualquer movimento acéfalo, sem líder.

Blackbloc

Para entender melhor o neo-anarquismo, vale observar três movimentos de escalas nitidamente diferentes mas que chamaram muita atenção nos últimos tempos:

a) Os tumultos na Praça Tahrir, no Cairo, que derrubaram o governo local e deixaram todo o Egito em um estado de caos que dura até hoje;

b) As manifestações de junho, que sacudiram as bases políticas brasileiras mas que, na prática, não geraram nenhuma mudança permanente na estrutura governamental

c) A invasão do Instituto Royal por um grupo de ativistas que provou abusos com cães e que gerou uma onda de protestos por todo o país

Apesar de diferentes nas causas, propósitos e escalas, todos os movimentos seguiram rigorosamente o mesmo processo pautado por quatro fases, como se pode ver abaixo:

Fase 1: As primeiras vozes
Nada nunca acontece sem alguma liderança, mesmo que inicial e temporária. A revolução da Praça Tahrir teve como liderança inicial o Movimento Jovem do Egito, liderado por Waleed Rashed; as manifestações brasileiras começaram com o Movimento Passe Livre (MPL); e os mais recentes protestos contra maus tratos de animais foram resultados de uma ação da ONG “Compaixão, Informação e Atitude Animal”, que invadiu o Instituto Royal.

Ninguém se junta a nenhuma causa sem que, antes, alguém a transforme em uma bandeira.

Fase 2: Oportunidade
Mas vozes gritando contra empresas, governos e grupos capitalistas como um todo sempre existiram e continuam existindo em uma quantidade praticamente imensurável. O que, então, difere umas de outras? Qual o processo de seleção natural que faz com que apenas alguns desses protestos fiquem tão populares?

A resposta é uma só: oportunidade.

O desejo de mudança de governo no Egito existe há décadas – afinal, Mubarak chegou ao poder em 1981, consolidando 30 anos de ditadura com indicadores sociais que apenas pioravam. O que, então, fez a diferença em 2011? A violenta repressão pública – tanto local quanto virtual – que ganhou a atenção de todo o mundo e, com isso, deu cara e força aos movimentos sociais. A partir daí, a briga de Mubarak deixou de ser com grupos de oposição e passou a ser contra uma massa anônima e internacional.

No Brasil, o MPL deixou de representar os clamores populares no instante em que a polícia reprimiu com violência inegável os protestos em São Paulo. A partir daí, a guerra mudava de figura: não se tratava mais de uma briga de uma ONG contra aumentos na passagem de ônibus em São Paulo, mas sim da população contra o seu governo.

Finalmente, não dá para dizer que abusos de animais sejam novidade para a população – isso é o mesmo que considerar verídicos os depoimentos dos tantos cidadãos alemães vizinhos a campos de concentração que diziam, inocentemente, desconhecer o que ocorria por trás dos muros. Só que, ao invadir um laboratório, libertar cães e comprovar maus tratos em frente a câmeras e em redes sociais, a ONG conseguiu, por meio da repulsa, o apoio da população.

Em todos os três casos, a faísca surgiu da força das imagens que circularam comprovando algo que todos já conheciam, mas que poucos tangibilizavam. No neo-anarquismo, a força da imagem faz a oportunidade.

Fase 3: A voz da massa
Quando uma causa ganha a força necessária, ela ganha também voz própria – e seus líderes viram meros coadjuvantes. O protagonista no Egito deixou de ser Rashed e passou a ser a Praça Tahrir como um todo; o MPL logo se fez irrelevante – principalmente ao contrariar as massas e se dizer a favor da participação de partidos políticos nas manifestações; e a ONG responsável pela invasão do Instituto Royal continua sendo tão desconhecida pela população hoje quanto era no passado.

Suas causas, no entanto, permaneceram como responsáveis por espasmos sociais. Multidões foram às ruas (ou às redes), clamando por mudanças; governos caíram; políticas mudaram; mentes foram moldadas ao sabor das oportunidades que se apresentavam.

São os espasmos sociais, tão legítimos quanto oportunistas, que fazem as novas revoluções.

Fase 4: O desarticulação da voz
Mas não há como se manter coesa uma voz única por muito tempo: massas sempre foram e continuam sendo absolutamente instáveis, principalmente quando não há liderança. Tudo passa a ser uma questão de tempo – sendo que é este tempo que determina o grau de mudanças sociais concretas que resultarão.

No Egito, o caos iniciado em 2011 continua. O ditador caiu, um presidente eleito assumiu e logo foi derrubado, e uma situação de extrema inquietação permanece pintada nos céus do Cairo. Em algum momento, é certo que algum novo governo assumirá e garantirá alguma estabilidade – como é também certo que dificilmente se verá uma nova ditadura aos moldes árabes. Lá, a mudança ainda está em curso. Não se pode afirmar que a sociedade egípcia melhorará – mas pode-se, sim, garantir que ela jamais voltará a ser a mesma.

No Brasil, a participação de grupos vândalos e de atos criminosos logo fez com que a legitimidade do movimento fosse perdida – e, com ela, o mesmo apoio popular que o “criou”. A atenção dos governantes foi conquistada, mas ninguém foi efetivamente derrubado (e mesmo os mensaleiros condenados conseguiram uma vergonhosa vitória nos tribunais depois de todos os acontecimentos). Com concentração no período de um mês, as manifestações serviram como uma espécie de alerta às lideranças políticas, mas acabaram vitimando mesmo apenas centenas de pequenos empresários que tiveram seus estabelecimentos invadidos, destruídos e roubados.

E, no caso dos maus tratos com animais, as redes já começam a dar sinais de “cansaço” do assunto. Mesmo após matérias longas em praticamente todos os veículos de massa, fala-se menos sobre o assunto hoje do que se falou nos dias anteriores. Com pouco tempo de exposição, a causa dos maus tratos a animais permanecerá em um infeliz segundo plano (onde sempre esteve).

Todo movimento neo-anárquico tende a se desarticular em algum momento – mas é o seu tempo de duração que determinará o nível de mudança social gerada.

E agora?

Entender essas quatro fases não é importante apenas para se conseguir interpretar a teia social em que vivemos, mas sim para se saber trabalhar em uma sociedade diferente, pautada por um ativismo tão acentuado quanto espasmódico, de curta duração.

Afinal, os mesmos cidadãos que bradam contra governos e a favor de causas são os nossos chefes, funcionários, clientes, fornecedores e amigos.

Hoje, quer se queira ou não, vivemos em uma sociedade globalmente neo-anarquista – o que significa que lidamos com uma teia de formação de opinião tão facilmente manipulável em seus estágios iniciais quanto absolutamente imprevisível em seus resultados.

A questão é: será que toda a nossa estrutura político-social conseguirá, de fato, se adaptar a esse novo modelo?

– See more at: http://idgnow.com.br/blog/planoseideias/2013/10/22/neo-anarquismo-do-seculo-xxi/#sthash.xVJHR3qj.dpuf

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s