Será que o governo realmente lidou tão mal com as manifestações no Brasil?

Quase que por impulso, a primeira resposta que costuma vir para a pergunta acima é: “sim, com certeza”. Afinal, a popularidade da presidenta continua baixa, o descontentamento da população continua alto e, provavelmente, o congresso atingiu o seu mais baixo patamar de credibilidade em toda a história.

Mas analisar um evento como o que ocorreu em junho no Brasil, com tantas complexidades e peculiaridades, requer algo a mais do que uma resposta por impulso – algo como, por exemplo, uma comparação com países que viveram situações semelhantes, mesmo que por motivos diversos, entendendo a forma com que seus governantes conduziram as crises e os resultados que alcançaram.

Turquia
Os primeiros sinais de descontentamento geral na Turquia – que, vale ressaltar, é uma espécie de oásis econômico em meio ao caos europeu – apareceram no Dia do Trabalho, 1 de maio. Nesta data, policiais foram às ruas, houve confronto com manifestantes e o cenário para o crescimento sistemático da violência estava preparado para explodir após o debate sobre a destruição de uma praça no centro de Istambul.

Lá, como aqui, houve excesso de força policial reportada; mas, diferente daqui, o governo fez de conta que nada estava acontecendo e continuou usando a polícia para combater de maneira intensa os manifestantes. Entre mortos, feridos e clamores por renúncia do Primeiro Ministro Recep Tayyip Erdogan, manifestações permanecem no país, que reportou novos confrontos em 20/07 tanto em Istambul quanto na capital, Ancara.

Egito
Com protestos iniciados em meio ao clima da Primavera Árabe, as manifestações egípcias acabaram gerando uma revolução com direito a deposição dupla: do ditador Mubarak, em fevereiro de 2011, e do presidente eleito Mohamed Morsi, em 3 de julho de 2013. Lá, somam-se já mais de dois anos de incertezas e caos político, com uma população em estado praticamente constante de inflamação social, fuga de investidores externos e crise econômica sem previsão de término.

Grécia
Em estado de agonia desde dezembro de 2009, quando a Standard & Poor’s rebaixou a nota da dívida grega, a terra de Platão convive com o caos já como parte do seu cotidiano. Na terça-feira, 16 de julho, o país foi tomado por (mais uma) greve geral protestando contra cortes no setor público, um amargo remédio para tentar resgatar o país que já exibe taxas de desemprego de quase 27%. Mesmo a queda do Primeiro Ministro Georgios Papandreou em 2011 não aliviou o clima de descontentamento que queima até hoje nas gargantas gregas.

Brasil
As manifestações no Brasil começaram de forma semelhante às da Turquia: um protesto local sobre o aumento da tarifa de ônibus gerou uma reação desproporcional da polícia, fazendo toda a população explodir em meio à Copa das Confederações e a, pela primeira vez na história, deixar o futebol de lado para debater política.

Apenas a título de ilustração, o período entre 14/06 e 30/06 registou cerca de 1,5 milhão de menções a hashtags como #vemprarua, #acordabrasil e outras relacionadas aos protestos nas redes. Mas, diferentemente dos outros países, o governo deu uma resposta que pode ser considerada rápida: as duas primeiras declarações de Dilma, em 21/06 e 24/06 (sendo esta última a que apresentou os “5 pactos”) realmente abriram caminho para o fim das grandes manifestações nas ruas. Na sequência, houve votações aceleradas no congresso, mais verbas para educação e saúde, o anúncio do (polêmico) programa Mais Médicos e até mesmo o lançamento de uma rede social do governo para debater os rumos do país (o Participatório da Juventude).

Pode-se até debater a qualidade das ações, mas não os seus primeiros resultados: entre os dias 11 e 21 de julho, menos de 230 mil menções carregando as hashtags da crise foram registradas nas redes sociais e as manifestações realmente diminuíram de maneira abrupta.

A crise pode voltar?
Uma diminuição das manifestações não significa o seu fim – seria um erro grave do governo considerar isso. Afinal, ainda há protestos sendo organizados por grupos que variam de sindicatos ao Anonymous, e ainda há eventos de grande porte, incluindo a Jornada Mundial da Juventude, esta semana, para atrair uma tentadora plateia mundial.

Mesmo assim, o “distante” congresso decidiu apostar na histórica memória fraca do brasileiro: entrou de recesso a partir de uma “manobra legal”, adiou votações de fundamental importância e voltou ao seu (habitual) estado de letargia política.

Mas o que o congresso ignora é que um dos efeitos mais concretos das manifestações de junho foi que o país realmente indicou ter mudado, se tornando mais vigilante. Brincar com isso, como estão fazendo, é flertar de perto com a possibilidade de uma nova onda de manifestações que, dessa vez, seria mais resistente a propostas e promessas.

As cinco (principais) lições aprendidas
No final – mesmo considerando as óbvias diferenças entre os países e povos comparados – há como se traçar uma série de lições aprendidas que servem para qualquer estrategista, esteja ele lidando com um país, uma causa ou mesmo uma empresa. São elas:

1. O uso da força – Apesar de ser um elemento comum em toda a história das civilizações, de Roma Antiga aos Maias, passando pelos Mongóis, pelos Persas e pelas recentes ditaduras latinoamericanas, ela não funciona mais para dissipar protestos. Afinal, as onipresentes redes sociais garantem um nível de anonimato capaz de formar e unir grupos em torno de causas que se tornam mais fortes a cada novo “mártir” vitimado. A força, como o próprio caso egípcio deixou claro, funciona mais contra do que a favor de qualquer governo que a utilize.

2. Tapar os ouvidos – Fazer de conta que nada está acontecendo apenas induzirá a população a gritar mais alto. É o que ocorre até hoje na Turquia, um exemplo de inabilidade crassa de entendimento dos tempos modernos.

3. Pretextos aparecerão onde menos se espera – Seja por R$ 0,20 ou por uma pequena praça em uma grande cidade, sempre se achará pretextos para formar grandes protestos. Não há como se detectar a todos – mas há como se medir a insatisfação geral de uma população usando as próprias redes sociais, buscando então entender e atacar os motivos antes que chamas se transformem em incêndios.

4. Rapidez é chave – O ponto que mais diferenciou a forma com que o governo brasileiro lidou com a crise foi a sua agilidade. Pode-se questionar as propostas dadas e as soluções articuladas – mas não se deve ignorar que, diferentemente de qualquer outro país, elas foram ao menos colocadas sobre a mesa. É muito provável que, se a presidente não tivesse ido à televisão propondo mudanças em seu governo, as manifestações tivessem tomado um rumo muito mais dramático, a exemplo do que ocorreu em outros países.

5. Não adianta começar sem terminar – É o maior risco que o governo brasileiro enfrenta hoje. Com uma ansiedade por respostas incompatível com a morosidade e burocracia da máquina pública, todas as promessas feitas no final de junho podem ter o efeito anulado caso não sejam postas em prática com a celeridade necessária. Os cidadãos, afinal, continuam discutindo política nas redes sociais, o descontentamento permanece alto e a frustração por mudanças prometidas e não cumpridas pode ser desastrosa para o governo.

Apesar do pico ter passado, é um erro considerar que a crise institucional no Brasil acabou. Aliás, é mais correto afirmar que ela apenas começou, sendo as manifestações de junho o pontapé inicial.

Até o momento, o governo deu respostas que – independentemente de qualquer juízo de valor – realmente funcionaram para estancar os movimentos das ruas. Mas a maior prova do governo será a sua capacidade de dar sequência aos seus próprios movimentos, o que pode determinar, já nas próximas semanas, os rumos do país e de seus líderes eleitos.

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