Google, Facebook e a ditadura da Era da Informação

Costuma-se convencionar que há, no mundo, dois tipos de ditadura: a tirana e a populista. Apesar de utilizarem estratégias diferentes, ambas têm o mesmo objetivo: manter-se no poder pelo maior período de tempo possível.

Ditaduras tiranas costumam usar a violência para punir qualquer voz que se erga, publicamente, contra ela. De forma quase que simplista, esse modelo de gestão baseia-se no medo coletivo e, quase sempre, ignora a vontade popular. São situações em que a força acaba sendo a principal arma contra a liberdade de informação.

Ditaduras populistas, por sua vez, baseiam-se no princípio de que basta emplacar ações de grande visibilidade e se conseguirá o apoio necessário nas urnas para que os líderes renovem os seus poderes a cada eleição. Aqui, não se trata de combater a liberdade de informação, mas sim de manipulá-la, plantando notícias falsas, adulterando índices oficiais e fazendo toda uma sociedade crer que ela vive em uma realidade diferente da testemunhada pelos seus próprios olhos.

Quando os meios de informação são poucos e controlados, qualquer um desses dois modelos tem chance de sobrevivência. Mas, quando a Internet já faz parte da vida de bilhões, a própria crença em alguma forma de controle de informação no longo prazo chega a ser ingênua.

A terceira ditadura
Com o avanço da Era da Informação, levantes populares modernos já derrubaram tiranos sanguinários em países árabes e já começaram a desenhar os limites do populismo em mega protestos públicos como os que ocorreram, no último mês, na Argentina. “A liberdade da informação salvará o mundo”, bradam posts diariamente pelas redes sociais.

Mas engana-se quem parte do princípio de que o mundo está a caminho de uma inédita sociedade pautada pela harmonia e pela liberdade plena. A derrocada de dois modelos de ditadura significa apenas a falência desses modelos, e não do conceito de ditadura como um todo. Este está invariavelmente preso ao desejo mais intrínseco de todo ser vivo: o de dominar os seus pares.

A diferença é que, agora, um novo formato está a caminho, baseando-se no excesso – e não na escassez – de informação.

Como se sabe, há hoje conteúdo sobre absolutamente tudo – de debates sobre micropolíticas de vilas no interior do Paquistão a detalhes sobre as mais novas descobertas no campo da genética.

Mas não é que o homem tenha subitamente desenvolvido uma vontade de se comunicar, claro. A Era da Informação impera em nosso tempo apenas porque a tecnologia evoluiu ao ponto de gerar sistemas capazes de filtrar e organizar esse conhecimento.

E, no final, quem ganha mais com essa nova era, em que conteúdos novos são criados, postados e compartilhados em frações de segundo? A resposta chega a ser óbvia: as duas principais “estradas virtuais” pelas quais a informação trafega, Google e Facebook. São eles, e não políticos hábeis controladores de orçamentos trilionários, os novos ditadores do nosso tempo.

Os dois donos do mundo
Todos os dias, cerca de 3 bilhões de buscas são feitas pelo Google, que soma já mais de 1 bilhão de usuários únicos fazendo das sugestões de seus robôs os locais primários de acesso.

Quando o assunto passa a ser relacionamento, o Facebook e seus mais de 800 milhões de usuários (cerca de 45% da totalidade de internautas do planeta) entram em cena. Por meio dessa rede, mais de 140 bilhões de fotos foram compartilhadas até hoje e 734 milhões de comentários são postados diariamente.

Publicar e compartilhar passaram a ser os dois grandes motores da nova sociedade.

Mas, sem querer desmerecer os tantos benefícios que a Era da Informação trouxe para a humanidade como um todo, há um problema que não se pode negar: a sua tragicômica fragilidade do ponto de vista sócio-político.

Se toda uma comunidade global é gerida por informações que se fazem presentes graças a duas únicas empresas, então o que seria do mundo sem elas?

Ou pior: quantas guinadas de rumo o mundo já deu sem que a sociedade sequer percebesse – por exemplo, sempre que o Google decidiu bloquear acesso a um determinado tipo de conteúdo alegando desacordo com sua política corporativa? E quantas mudanças sociais ocorrem sempre que o Facebook altera, sem pedir licença, a sua política de privacidade?

Não se trata apenas de uma sociedade global inteiramente refém de duas empresas, mas sim de toda uma cultura de indiscutível dependência e cegueira em relação a isso.

Aonde isso nos levará? Difícil responder – mas é certo que o nosso futuro, ironicamente, nunca esteve tão distante do nosso próprio controle quanto nesses tempos em que a Informação está tão próxima das nossas mãos.

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