As eleições, ACM Neto e o Facebook

De imediato, vai um alerta aos leitores politizados e ansiosos por tecer opiniões contra ou a favor de qualquer que seja o partido ou ideologia: essa coluna não é sobre política. Não se trata aqui de falar bem ou mal de candidatos, partidos ou de coisas do gênero, mas sim de ressaltar algumas mudanças dramáticas na forma com que campanhas tem sido coordenadas sob a influência de redes sociais.

Nas últimas eleições (2010), as redes sociais foram utilizadas predominantemente como ferramenta de disseminação de boatos entre candidatos e monitoramento da eficácia das suas candidaturas perante os cidadãos. Nas diferentes esferas em que o pleito aconteceu, não foram poucos os casos de “pequenas mentiras” cuidadosamente plantadas no Twitter, Facebook, blogosfera e Orkut que, de repente, começaram a fazer a cabeça dos eleitores menos céticos e a mudar os rumos das pesquisas.

De boatos sobre assédio a acusações de prática de satanismo nos mais altos escalões (!), é bem provável que o pleito de 2010 tenha sido dos mais sujos que o país já viu – um exemplo triste, para dizer o mínimo, sobre o uso da Internet e das redes sociais para a obtenção de votos.

Bahia, 2012
Dois anos se passaram e, sob esse aspecto, infelizmente não há como se dizer que tanta coisa mudou. Boatos e acusações continuaram varrendo a rede, disparando ataques a todos os candidatos com o objetivo de minar as suas credibilidades.
No entanto, um exemplo diferente de uso das redes surgiu em cidades como Salvador, na campanha do recém eleito prefeito ACM Neto.

Diferente da maior parte das candidaturas de prefeito, Neto mergulhou de cabeça na Web e nas redes sociais, deixando muito claros os seus objetivos: desconstruir os argumentos do seu opositor, Nelson Pellegrino, fomentar um movimento de apoio à sua candidatura e trazer a participação do cidadão de forma plena em suas propostas.

Uso de redes sociais nos debates
Uma das (mais eficazes) estratégias de desconstrução que ele utilizou foi decisiva: o casamento dos debates na TV com sua página no Facebook.

A receita era simples: quando chegava a sua vez de fazer uma pergunta, ele provocava o seu oponente, o candidato Nelson Pellegrino, a negar participação em um determinado episódio ou a defender alguma atitude; ato contínuo, na réplica, ele ordenava a sua assessoria, ao vivo, a publicar fotos e vídeos em sua página no Facebook desmentindo-o.

Resultado: o seu opositor ficava constantemente sem argumento perante as câmeras, enquanto milhares de usuários mergulhavam no Facebook, viam e compartilhavam os materiais lá publicados.

O que você quer em seu bairro?
Tanto no Facebook quanto no seu site, ACM Neto lançou um aplicativo permitindo que todo e qualquer cidadão pudesse localizar o seu bairro em um mapa e escrever os seus relatos de problemas – conteúdo que acabou sendo incorporado ao próprio programa de governo e alardeado por todas as mídias.

Postagens e movimentos
Entre um e outro debate, ACM Neto postava de forma constante em sua página, buscando se aproximar mais do público e quebrar uma imagem de arrogância fortemente vinculada a ele. Os estilos dos textos, em primeira pessoa e sempre com entusiasmo, eliminava qualquer imagem de que uma equipe estava friamente coordenando as postagens (fosse isso verdade ou não).

Ao longo da campanha, ele convocava movimentos – como “flash mobs políticos” – incluindo o “Dia do Azul”, em que pedia que todos fossem às ruas com a cor que confrontava diretamente à do PT, partido de Pellegrino.

Finalmente, como cerejas em um bolo muito bem feito, havia ainda a disseminação da hashtag “#defendersalvador” e replicações de depoimentos recebidos por eleitores diversos.

Renovação?
Assim como qualquer mídia, não se pode dizer que as redes sociais, sozinhas, venceram as eleições para ACM Neto – isso seria ingenuidade. Todavia, diferentemente de todas as campanhas anteriores, esta realmente teve o tom definido principalmente pelo Twitter e Facebook, ambientes capazes de aproximar o candidato do seu eleitorado.

E, enquanto a palavra “renovação” marcou o discurso de praticamente todos os candidatos de oposição do país, ela foi, na prática, implementada por pouquíssimos durante a campanha – destacando, ironicamente, o representante de um dos clãs políticos mais antigos da Bahia e do Nordeste.

Do ponto de vista de estratégia eleitoral, esse uso decisivo das redes sociais fez com que um candidato carregando o nome de ACM (que já há algum tempo deixou de ser sinônimo de votos na Bahia) e contra os governos estadual e federal levasse a prefeitura.

Em mais 2 anos…
Se, até então, campanhas políticas eram feitas nas ruas, é inegável que, hoje, as redes são um componente essencial para quem quiser ampliar o seu espaço eleitoral. E, dadas as suas características essencialmente anárquicas, elas fazem aos eleitores um grande favor ao ampliar a exposição dos candidatos a níveis inimagináveis, eternizando cada discurso feito por eles ao longo de suas carreiras.

Provavelmente, já nas próximas eleições, muitos dos candidatos devem começar a mudar as suas táticas, entregando aos eleitores não apenas acusações e boatos, como também provas cabais de cada um de seus argumentos.

O fato é que esse processo de construção e desconstrução de imagens de políticos tem um vencedor indiscutível: o eleitor, que passa a contar com uma gama de informações muito maior e mais embasada do que antes.

Resta agora torcer para que essa nova geração de candidatos eleitos consiga gerir seus territórios com a mesma eficácia que conseguiram fazer as suas campanhas.

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