Mecânica da coletividade: o que realmente move o nosso mundo

Nos primeiros dias de janeiro de 2011, a Sony anunciou que não atualizaria mais a versão do Android de uma de suas linhas de celulares, o Xperia.

No mesmo instante, o Twitter foi inundado por legiões de usuários reclamando e xingando a marca de todos os nomes possíveis e imagináveis. Em poucas horas, “Sony Xperia” já aparecia em meio aos Trending Topics da rede, comprovando a força da ira coletiva. Sabe o que aconteceu depois?

Os milhões de usuários que passaram pelo Twitter e viram estampado nos TTs apenas o termo “Sony Xperia” não entenderam que se tratava de uma crise: ao contrário, eles acreditaram ser um elogio espontâneo da coletividade à marca e, rapidamente, passaram a contribuir com uma infinidade de tweets positivos ao celular.

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Em poucas horas, a quantidade de elogios ao Sony Xperia chegou ao dobro do volume de críticas, fazendo com que a crise se apagasse sozinha, extinta pela própria dinâmica das redes sociais que a fez surgir.

A coletividade do egocentrismo
O caso acima seria apenas mais um fenômeno das mídias sociais não fosse o fato dele sintetizar, de maneira ímpar, o alto grau de egocentrismo do usuário (e, consequentemente, da coletividade).

Afinal, se os TTs são um reflexo da opinião da coletividade em um determinado período, como interpretar essa inversão quase instantânea de sentimento (que passou de crítica a elogio) pela simples observação de um assunto comentado?

A resposta é simples: em sua grande maioria, o ser humano não baseia as suas opiniões em análises aprofundadas de causa e efeito: ele as baseia, quase que exclusivamente, no que sente ter mais impacto imediato em seu próprio cotidiano.
Some-se a isso a facilidade de se expressar e de “formar opinião” e se chega, matematicamente, ao resultado do egocentrismo humano.

Independentemente da legitimidade da reclamação dos usuários quanto à atitude da Sony, o fato é que a manifestação acabou se anulando justamente porque uma massa avassaladora de usuários julgou ser mais importante palpitar sem entender do que entender para palpitar.

Mas pode-se ainda ir muito mais além.

O que foi importante para o usuário em 2010?

2010 foi um ano repleto de acontecimentos que mudaram o Brasil e o mundo, incluindo a eleição da primeira mulher presidente do país, uma guerra urbana no Rio de Janeiro entre o BOPE e os traficantes, um terremoto de proporções avassaladoras do Haiti e muitos, muitos outros grandes fatos positivos e negativos. Um olhar mais ingênuo diria que acontecimentos como esses nortearam as motivações da coletividade e preencheram a Web de assunto.

Todavia, basta olhar os dez termos mais buscados no Google ao longo de todo o ano passado que se terá uma compreensão mais clara do que realmente moveu e comoveu o usuário brasileiro:

Xperia2

O usuário brasileiro – que, sob esse aspecto, tem exatamente o mesmo perfil que o americano, o francês, o inglês ou qualquer outro – se interessou mais pela Larissa Riquelme, pelo Justin Bieber e pelo Big Brother do que por qualquer dos tantos grandes fatos que mudaram o planeta.

O que move a coletividade?
A coletividade, então, não existe? Existe sim – e com uma força maior do que jamais teve, diga-se de passagem.

O que ocorre é que a força do egocentrismo humano é maior do que qualquer pensamento mais racional, pautado por uma análise fria de causas e efeitos de longo prazo.

Hoje, 22 de agosto de 2011, a Líbia está em meio a um furor revolucionário que pode finalizar décadas de uma das ditaduras mais sanguinárias que o mundo já viu. Mesmo com uma cobertura incessante da mídia, o assunto aparece apenas em terceiro lugar nos TTs – atrás de temas que chegam a ser curiosos, para dizer o mínimo:

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O que move, então, a coletividade?

Não são os grandes feitos humanos, as grandes tragédias ou mesmo as revoluções que ocorrem praticamente a cada instante em algum canto do planeta.

Infelizmente, a maior parte da humanidade não tem (e, provavelmente, jamais terá) o hábito de se estremecer pelas grandes causas do mundo, mas sim pelos pequenos fatos que mudarão as suas próximas horas de vida (incluindo a possibilidade de assistir a um episódio de BBB, de ouvir Justin Bieber ou de ver a Larissa Riquelme em uma revista).

O que move a coletividade é, como aliás sempre foi, a mais pura individualidade.

E entender isso é um dos passos mais fundamentais para qualquer pessoa ou marca que deseje se firmar positivamente perante um público tão ardoroso quanto volúvel.

Quer mover uma comunidade inteira a seu favor? Basta entender antes como mover um único indivíduo.

Que o digam Justin Bieber, Larissa Riquelme, Rede Globo, Sony e tantos outros magos do marketing.

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