O que Nelson Mandela tem a nos ensinar sobre redes sociais?

No último dia 18 de julho, Nelson Mandela completou impressionantes 93 anos de idade.

Não cabe aqui recontar a trajetória de vida de Mandela – mas é importante listar alguns dados rápidos sobre a sua biografia:

  • Em 1925, ele se tornou o primeiro membro de sua família a ir para a escola, recebendo uma educação britânica e sendo rebatizado de “Nelson”.
  • Em 1942,  se formou pela University of South Africa.
  • Em 1962, foi condenado à prisão perpétua pela sua luta contra o Appartheid.
  • A campanha pela sua libertação se iniciou em 1980.
  • Em 1990, Nelson Mandela foi libertado, tendo recebido o Nobel da Paz em 1993 e sendo eleito presidente em 1994.

Magos ou mestres da comunicação?

Quando se estuda a história de mitos, é comum se acreditar que eles sejam dotados de poderes quase sobre-humanos, que sejam semi-deuses capazes de mover montanhas apenas com a força do pensamento.

A vontade de se libertar e de mudar um país, no entanto, não se restringia a Mandela: milhares de negros sul-africanos foram presos e torturados pelos mesmos exatos motivos. O que, então, fez dele o ícone principal da luta contra o Appartheid?

Em verdade, a trajetória de Mandela acaba sendo uma espécie de aula de como lidar justamente com um dos assuntos mais discutidos hoje: as redes sociais.

E isso é especialmente importante porque redes sociais, diferentemente do que se costuma pensar, não são conjuntos de ferramentas viabilizadoras de comunicação pela Web: são ambientes de socialização, com ou sem tecnologia.

Não é viável resumir 9 décadas de experiência, claro, em um único artigo – mas é possível ao menos listar 5 dos seus principais “ensinamentos”, por assim dizer.

São eles:

1) Pessoas vivem em redes sociais
Todos somos seres essencialmente sociais. Cada palavra escrita, gesticulada ou digitada tem como alvo um outro ser humano que, por sua vez, buscará compreender e responder (seja com palavras ou ações).

Essa troca de ideias é justamente o que define o processo de comunicação, o que faz a base de um debate. E, sempre que um grupo formado por 2 ou mais pessoas inicia algum debate (tenha ele duração de 20 minutos ou 20 anos), está formada uma rede social.

Em sua juventude, Mandela naturalmente se envolveu no debate que dominava o cenário negro sul-africano: a luta contra a discriminação. Foi a partir desse engajamento em rede que toda a sua história começou – mesmo considerando se tratar de um ambiente essencialmente “atecnológico”.

A tecnologia, afinal, não criou as redes sociais, mas catalisou o processo e facilitou a nossa participação nelas.

2) Redes são abertas por definição
Se uma rede social é fruto de uma troca de ideias, então a própria exigência de pessoas para que um debate ocorra demanda níveis mínimos de transparência. Isso não significa que não existam redes sigilosas – mas significa que todas, incluindo as mais secretas da humanidade, tem as suas brechas e podem ser percebidas por observadores atentos.

Por ter recebido uma educação formal – incluindo técnicas, professores e pensamentos racistas – Mandela teve acesso ao íntimo das redes sociais que pregavam a segregação.

Foi com base nesse conhecimento da “cultura branca” que conseguiu sobreviver à prisão e manipular os próprios carcereiros para que as suas mensagens atravessassem as grades; foi com base nesse conhecimento que, após chegar ao poder, criou uma estrutura de governo pautada pela anistia e evitou o que seria uma catastrófica fuga de capitais do seu país.

Mandela soube mergulhar nas “redes sociais inimigas”, entendê-las e usá-las a favor da sua causa.

Os seus 27 anos de cadeia provam que isso era algo arriscado e difícil, diferentemente dos dias atuais, em que ferramentas simples de monitoramento de mídias sociais conseguem, em minutos, escancarar as portas de qualquer rede utilizada por qualquer concorrente ou inimigo.

3) Redes são essencialmente identificadas com causas
O que mobilizaria mais pessoas: uma discussão sobre matemática financeira ou sobre sustentabilidade?

Bancos são mestres em finanças: em essência, eles vivem de comprar dinheiro barato e revender a taxas caras. O resultado é matematicamente óbvio: taxas altíssimas de lucro.

Só que o sucesso em um mercado competitivo consiste em brigar com os concorrentes abrindo mão o mínimo possível das próprias margens. Nesse ponto, buscar uma identificação com os ideais do consumidor dá muito mais resultado do que discutir números e percentuais.

Não foi à toa, por exemplo, que o Itaú investiu milhões para se tornar o banco mais sustentável do mundo, identificando-se com dezenas de milhões de clientes para quem isso representa um valor de fundamental importância.

Quanto maior e mais forte a causa, mais as pessoas tendem a se identificar com elas e a se mobilizar sob a liderança de quem tiver a voz mais alta.

Não dá para dizer, claro, que Mandela buscou o Appartheid para chegar ao poder. Ele foi uma das tantas vítimas do regime – mas foi também quem, sem nenhum tipo de demérito, melhor soube fazer da luta contra o sistema uma bandeira compartilhada por mais de 80% da população de seu país.

4) Redes nascem anárquicas, mas dependem do surgimento de líderes para crescerem
Redes sociais foram parte integrante de toda a história da humanidade – dos primeiros homo-sapiens às democracias modernas, passando por conquistadores como Genghis Khan e Cesar, por Lincoln e Stalin, por Luther King e Mandela.

De uma maneira geral, todas as redes nascem de discussões simples – mas, quando conseguem se transformar em crenças de grandes grupos, tudo muda de figura.

A questão é que grandes grupos nunca sobrevivem sem algum tipo de liderança, sem alguém com uma voz tão poderosa que faça todos se calarem, ouvirem e seguirem.

Uma única voz, afinal, costuma ser muito mais compreensível do que a soma de milhares de vozes gritando ao mesmo tempo.

A luta contra o Appartheid não nasceu com Mandela – mas ele soube se transformar em líder do movimento e fazer a sua voz atravessar os oceanos e ecoar pelos quatro cantos do mundo, gerando uma pressão internacional tão poderosa que o regime inteiro acabou ruindo.

No mundo corporativo, empresas de todos os tipos buscam justamente liderar causas com as quais os seus consumidores se identificam: o bem-estar (lema da Natura); a esperança de mudar o mundo (da Coca-Cola); o futuro (da Sony). E isso tem funcionado bem,  mesmo considerando que, no íntimo, todos sabem que essas empresas vendem cosméticos, refrigerante e eletroeletrônicos.

5) A liderança traz poder e vulnerabilidade
A partir do momento em que a liderança é alcançada e percebida por todos, o líder é quem passa a ser o alvo comum.

Na história da humanidade, golpes de estado depondo líderes antes idolatrados recheiam os livros. Corporativamente, são raras as empresas de grande porte que tem uma imagem mais positiva do que negativa.

Seja qual for o aspecto, o fato é que manter-se na liderança é mais difícil do que chegar nela.

Para empresas, isso normalmente significa investimentos em novos mercados e em novas causas a todo tempo; para pessoas, isso significa saber bem a hora de falar e de calar.

Para Mandela, isso significou usar os seus quase 30 anos de cárcere para mudar o seu país, saindo da cena política e entrando para a história antes que os seus próprios seguidores o condenassem ao ostracismo que costuma ser o destino de tantos outros líderes.

Um exemplo a se parabenizar e seguir.

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