A morte de Osama Bin Laden e a estratégia de redes sociais da Al Qaeda

Na noite do domingo, 1º de Maio, uma caçada de 10 anos chegou ao fim com a execução de Osama Bin Laden, o infame líder da Al Qaeda que coordenou o ataque às Torres Gêmeas em setembro de 2001.

A investida contra as Torres Gêmeas matou 2.976 pessoas, fazendo o então presidente George W. Bush declarar guerra contra o terror – um inimigo invisível e, portanto, dificílimo de ser aniquilado.

Dessa data até o dia 1º de Maio de 2011, estima-se que 4.691 soldados americanos pereceram em combate – mais de 50% do que o total de mortos que eles estariam vingando, por assim dizer.

Com tropas ainda em território árabe e uma ameaça que transcende à morte do seu líder (cuja passagem ao posto de mártir para os seus seguidores já é dada como certa), ainda não se sabe quantos mais perecerão.
Quem foi o vencedor?

Não se pode dizer que houve um vencedor – mas, por mais que a morte de Bin Laden represente o enfraquecimento da organização terrorista, o seu ideal psicopata permanece vivo e rodando por pequenos vilarejos árabes e grandes cidades de todo o mundo. Ou seja: com ou sem Bin Laden, a Al Qaeda segue vencendo uma guerra que está longe de terminar.

Como? Seguindo a mesma receita de guerrilha que empresas do mundo todo usam nas mídias sociais.

Que receita?

1) Achar uma causa com a qual pessoas se identifiquem
Dinheiro jamais terá o mesmo poder de motivação do que uma causa genuína, que sintetize as crenças de um público ao ponto de transformá-lo em ativista.

Recentemente, a Porto Seguro lançou a campanha “Trânsito + Gentil”, pregando valores bem-vindos como, por exemplo, a calma ao volante. Como ela concretizou isso? Além da impressão de logos em camisetas e adesivos em carros, dando um desconto de 5% no valor do seguro para todos os que não tiverem pontos na carteira.

Uma campanha, claro, simpática – e que encontra defensores ferrenhos em metrópoles como São Paulo, em que o trânsito é praticamente sinônimo de estresse.

Isso sem contar, claro, que é muito mais fácil encontrar pessoas vestindo a camisa de uma campanha por um trânsito melhor do que contendo apenas o logo de uma seguradora.

(Para a Al Qaeda, a causa é unificar o mundo sob as leis do islã)

2) Achar um inimigo
George Orwell já dizia, no seu clássico “1984”, que o fanatismo só funciona quando há um inimigo contra o qual a população possa se revoltar.

Quando a Apple ressurgiu das cinzas com os novos Macs, ainda na era anterior ao IPhone, lançou uma série de propagandas entituladas “Mac x PC”. O Mac, representado por um jovem descolado, representava tudo o que era fácil, simples e legal. O PC, por sua vez, era representado por um sujeito antiquado, com estilo “almofadinha” e que sempre perdia todas as discussões, caindo no ridículo.

Como resultado de anos de propaganda, a Apple conseguiu se posicionar como uma empresa de pessoas antenadas e modernas, justamente por colocar o seu arqui-inimigo, o “PC”, como símbolo de uma era retrógrada da computação pessoal. Vejam.

(Para a Al Qaeda, os inimigos são os Estados Unidos da América)

3) Lançar ações visíveis e que envolvam os seguidores
Neste ponto, não falamos mais em consumidores ou mesmo usuários: falamos de seguidores. E seguidores não se envolvem apenas com palavras. Eles precisam de ações.

No começo dos anos 2000, a Nike decidiu traduzir em ações concretas a sua postura perante um de seus principais públicos: os corredores.

Em 2001, deixou de lado as propagandas tradicionais e lançou a Nike Run London, uma corrida pela capital britânica que reuniu 10 mil pessoas usando camisas de cor rosa choque – algo que, por si só, chamou a atenção de toda a mídia e repercutiu globo afora.

Em 2003, a corrida passou a ser noturna e já contava com 30 mil participantes.

Em 2005, com o slogan “I will run a year”, a Nike patrocinou uma série de corridas durante todo o ano, por todo o planeta.

Em 2006, lançou um chip integrado ao IPod (muito utilizado por corredores para ouvir músicas enquanto cruzam parques e cidades). O chip transmitia dados a um site da marca que armazenava todo o histórico da corrida.

Em seguida, criou uma aplicação para IPhone utilizando o GPS do telefone para fazê-lo funcionar como passômetro, também armazenando dados e permitindo que corredores montassem corridas e desafios reais em rede, mundo afora.

A Nike já registrou mais de 4 milhões de membros que já correram mais de 500 milhões de km.

(Para a Al Qaeda, a principal ação foi a queda das Torres Gêmeas, que se soma a uma série de atentados menores mundo afora)

4) Se manter presente
Fazer apenas uma ação e esperar que ela repercuta para sempre é uma ingenuidade que poucos têm. O sucesso de uma causa é concretizado pela frequência de suas ações, sendo que todas se somam em um maior envolvimento do seu público.

A Nike não parou na corrida londrina: ela se reinventou praticamente todo ano, fortalecendo a sua causa e, claro, a sua marca.

A Apple já enxerga o PC como um inimigo menos relevante do que era no passado e, agora, já mira os seus canhões para o Google.

A Porto Seguro oferece descontos em cursos de direção segura e criou um modelo de socorro em que ela chega ao cliente de bicicleta, alegando estar contribuindo para que o trânsito não piore.

A Al Qaeda sempre manteve as suas células terroristas ativas por todo o mundo, distribuindo tanto propagandas quanto atentados.

Bom ou ruim?

Não se trata aqui de analisar o que é bom e o que é ruim. É óbvio que estratégias de marketing corporativas, mantendo a ética, fazem parte do mundo em que vivemos, sendo naturais e mesmo benéficas para economias de mercado.

É óbvio também que organizações como a Al Qaeda resumem o que há de pior na loucura humana, comandando genocídios e espalhando o medo de maneira sádica.

Todavia, o que chega a causar espanto é que as mais modernas estratégias de marketing, utilizadas por empresas de todos os portes no Brasil e no mundo, sejam também usadas por uma organização regida a partir de cavernas no Paquistão – mas não por uma das maiores potências que a humanidade já viu.

Esta, ao menos por enquanto, continua aplicando as mesmas técnicas militares do passado, que precisa sacrificar quase 5 mil soldados para capturar um único homem.

Esperemos que, em um futuro próximo, essa matemática se inverta.

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