Liberdade de informação: a Argentina na contramão do mundo

Parar a imprensa é um sonho antigo de ditadores dos quatro cantos do planeta.

Uma imprensa livre, noticiando o que os olhos veem e ignorando as ordens que os ouvidos recebem, é considerada como algo perigosíssimo para a manutenção de regimes ditatoriais.

Em todos os tempos da humanidade, grandes concentrações de poder sempre foram sinônimo de elevação nas desigualdades sociais, de altas taxas de corrupção e de governos feitos para os governantes – e não para os governados.

Sem alternância de poder e sem fiscalização constante dos cidadãos – papel que costuma ser protagonizado pela imprensa livre – os ditadores ficam livres para cometer toda e qualquer atrocidade política, social ou econômica que desejarem. Deixam de ser líderes legítimos e passam a ser crianças mimadas dotadas de superpoderes.

Esse antigo e antiquado regime começou a ruir desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, simbolizando o fim da Guerra Fria que por tanto tempo deixou o mundo em um estado constantemente iminente de desastre.

Mas, apesar de “diferente” para a época por ser travada mais no campo ideológico do que no campo de batalha, a Guerra Fria era ainda parte de um mundo feito por massas, por lideranças idolatradas e por um tipo de patriotismo tão pueril quanto manipulável.

Era da Informação x Ditaduras Absolutistas

Os tempos mudaram – mas, com as garras presas ao passado, muitos regimes ainda lutam para manter no poder os mesmos ditadores que transformaram as suas pátrias em terras empobrecidas, dominadas pela fome, pela miséria e pelo pouco acesso à informação.

Tarefa cada vez mais difícil dado o tipo de fluxo de notícias que, hoje, precisa ser cessado para garantir que a falta de informação viabilize a continuidade do status quo.

Uma coisa é fechar redações de jornais e emissoras de TV, banir artistas, condenar pensadores à prisão pelo tenebroso crime de “pensar”. Isso gera protestos da comunidade internacional, comoção generalizada e um tipo de mobilização intensa – mas que dura tempo insuficiente para promover qualquer tipo de mudança concreta.

Outra coisa é barrar o fluxo de informações digitais. Munidos de celulares e acesso à rede, por vezes intermediados por “proxies” salvadores, cidadãos comuns conseguem, pela primeira vez, ter uma noção clara de como é o mundo do lado de fora de suas fronteiras e do poder de mobilização que possuem. Foi com base nisso que o regime egípcio caiu; que a Líbia entrou em Guerra; e que tantos países árabes, do Marrocos ao Bahrain, entraram em estados que variam de agitação a colapso político.

O mundo distante das arábias parece estar rumando a um tipo de modernização bem-vinda e que, por mais que vítimas ainda pereçam nos campos de batalha, aponta para um futuro muito menos sombrio do que o presente.

De tanto se sufocarem com décadas de repressão, revolucionários motivados e líderes depostos ou em deposição descobriram 3 regras sagradas da Era da Informação:

  1. Não há como parar a informação já que esta transita pelo invisível e infindável ar, único meio inexoravelmente compartilhado por 100% dos cidadãos do mundo.
  2. Com informação livre, resta aos líderes focarem-se em manter os seus governados satisfeitos para que estes os mantenham como governantes.
  3. Qualquer esforço contrário fatalmente resultará em queda de popularidade e, se elevada a graus mais quentes, a tumultos políticos, deposições, revoluções.

Hosni Mubarak aprendeu isso no Egito. Ali Abdullah Saleh está aprendendo isso no Yemen, juntamente com Bashar-al-Assad, na Síria e, claro Muamar Kadhafi, na Líbia. Ao que tudo indica, a Era da Informação está vencendo a guerra contra as ditaduras.

Era da Informação x Populismo

Há, no entanto, um país que parece estar na contramão do mundo: a Argentina.

Ela não é, claro, a única pátria que busca promover leis para ampliar os poderes de seus governantes – mas é talvez a única dentre elas que vivenciou um passado recente rico, democrático e de ampla efervescência cultural. A Argentina chegou a estar, na década de 20, entre os 10 países mais ricos do mundo – à frente, por exemplo, da França e da Alemanha.
Hoje, é um país que empobrece a olhos vistos, carrega altas taxas de inflação real (calculada em 25% em 2010) e é governado pelo populismo da dinastia Kirchner que, no total e apesar do falecimento de Nestor Kirchner em 2010, está no poder há 8 anos. Cabe destacar que, durante os primeiros 7 anos de governo, o casal Kirchner aumentou o seu patrimônio em nada menos que 710,55%.

No dia 27 de março de 2011, um sindicato ligado ao governo Kirchner bloqueou a entrega de exemplares dos dois principais jornais locais: o Clarín e o La Nación. Chamada a prestar esclarecimentos junto à Câmara dos Deputados por nada ter feito em relação ao episódio, a Ministra da Segurança, Nilda Carré, ignorou a responsabilidade e simplesmente não compareceu.
No dia 3 de abril, o La voz del Interior, de Córdoba, também foi impedido parcialmente de circular por manifestantes ligados ao governo.

Os protestos na rede já começaram, mesmo que timidamente, a se formar, e uma nova guerra parece dar os seus primeiros sinais – mas com uma diferença gritante em relação às revoluções árabes. Lá, cidadãos majoritariamente descontentes e violentamente reprimidos se organizaram para derrubar os seus líderes; aqui, na vizinha Argentina, o populismo oficial faz com que uma boa parcela do povo genuinamente acredite nos anúncios artificiais de que tudo está melhorando.

Com este novo tipo de inimigo, a era da informação enfrenta uma guerra inédita que deveria chamar muito mais atenção do que tem chamado.

Afinal, se o populismo conseguir vencer a era da livre informação, manter o poder com a dinastia governante e mergulhar a Argentina em uma ditadura disfarçada, maquiando com propaganda e números artificiais a realidade do país, o exemplo que ficará aos demais líderes globais será potencialmente devastador.

Para o bem dos nossos hermanos e de todos nós, esperamos que isso não ocorra e que tudo não passe de mais uma extravagância política passageira típica da América Latina.

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