É possível criar verdades?

A face mais elogiada da era digital é, provavelmente, a anarquização das fontes de informação. Hoje, o cenário comunicacional é composto por milhares de veículos e milhões de usuários que misturam-se em uma teia de propagação de notícias em alta escala e velocidade, mantendo a todos informados como nunca antes.

E, de um lado, há mesmo que se agradecer por esta evolução que dá aos então anônimos o poder de ter as suas vozes ouvidas nos quatro cantos do planeta.

Mas há um ponto que não deve ser esquecido: todo poder, por menor que seja, seduz. E toda sedução traz uma sede insaciável por mais: mais audiência, mais visibilidade, mais retorno financeiro.

No lado mais negro da anarquização da informação, muitos usuários já entenderam bem a fórmula que dá a eles audiência – incluindo a divulgação de polêmicas, de fatos “em cima da hora” e de boatos travestidos de verdade.

A lei da criação de verdades

A fórmula de audiência buscada pelos usuários é a mesma dos grandes veículos que, hoje, competem com eles para ser os primeiros a divulgar um fato relevante qualquer. Na corrida desmedida pelo furo, muitos – usuários e veículos – acabam deixando de checar os fatos e, com isso, dão a boatos ou mentiras toda a vestimenta de uma verdade inconteste.

E, quando um boato é propagado com alto teor viral, entra em cena uma das mais cruéis leis da era da informação: “Todo e qualquer fato propagado por uma massa significativa de pessoas, independentemente de ter ou não ocorrido, é percebido como verdadeiro”.

Na prática, essa lei é definida pelo seguinte fluxo de propagação:

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Perceba que, a partir do momento em que a massa de usuários passa a ser o primeiro ponto de propagação de um fato qualquer, há um forte perigo dele entrar em uma espécie de “telefone sem fio” e de ser divulgado como algo completamente diferente do que efetivamente aconteceu.

A morte e a vida de Gabrielle Giffords

Quer um exemplo recente? Veja o thread de tweets (traduzidos) relacionados ao tiroteio que ocorreu no Arizona, Estados Unidos, no dia 8 de janeiro deste ano:

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Perceba que, no intervalo de uma hora, usuários e veículos do porte da CNN e Reuters divulgaram o assassinato de uma deputada – mesmo estando ela no meio de uma cirurgia que acabou salvando a sua vida.

Descobrir se Gabrielle Giffords estava mesmo morta não era uma tarefa árdua: bastava uma simples checagem de fatos junto ao seu gabinete ou ao hospital. Essa checagem, no entanto, tomava tempo demais – e a ansiedade em ser o primeiro a divulgar simplesmente não dava espaço para o que deveria ser encarado como responsabilidade ética básica.

A verdade tem futuro?

Falhas como essa são repetidas inúmeras vezes por todo o globo, colocando em cheque a própria sinergia entre a realidade e a era da informação. Há, afinal, espaço para a verdade em um mundo regido pela corrida desmedida por furos jornalísticos?

Espera-se que sim.

Os próximos anos devem testemunhar uma especie de “auto-ajuste” na era da informação, dando a ela um grau de sofisticação fundamental para que a sociedade como um todo não entre em colapso.

Esse “auto-ajuste” deve ocorrer tanto no aspecto comportamental quanto no tecnológico e mercadológico, como pode ser visto a seguir:

1)  O ceticismo comportamental: O usuário, hoje ainda ingenuamente crédulo em tudo que lê, desenvolverá um lado cada vez mais cético e passará a duvidar mais de notícias e fontes. Nesse ponto, o problema se inverterá e, ao invés de termos boatos divulgados como verdades, muitas verdades é que serão consideradas meros boatos.

2)  A tecnologia da verdade: Quanto mais relevante um fato, mais propagadores ele tem. E, para cada propagador de informação, sempre há um histórico rastreável de comportamento na rede que permite distinguir quem tem mais ou menos credibilidade e quem, no passado, divulgou mais boatos ou verdades. Em um futuro próximo, essa análise de histórico deve se traduzir em sistemas que pontuem a reputação de cada um, gerando uma busca por responsabilidade como forma de sobrevivência. Ou seja: usuários “ranqueados” com baixa reputação contarão com cada vez menos audiência, o que os forçará a se aprimorar não por ética, mas sim por mercado.

Seja qual for o ritmo dessa evolução, o fato é que a busca sistematizada pela verdade deve dominar os próximos anos na tentativa de quebrar um cenário composto por informação em quantidade tão inversamente proporcional a qualidade.

Tanto para pessoas quanto para empresas, será certamente um alívio poder voltar a fazer o que sempre foi tão fundamental para a evolução da sociedade: acreditar na comunicação.

Que venha a nova década!

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